Quilombo

por Dennis de Oliveira

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12 de março de 2015, 14h20

Mulheres negras: sororidade e luta

“Sororidade é uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo. (...) É a consciência crítica sobre a misoginia e é o esforço tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura misógina, enquanto transforma as relações de solidariedade entre as mulheres."

 Por: Tatiana Oliveira (tatimidia@yahoo.com.br)

“8 de março o que é o que é? É o dia internacional da mulher!” Esse grito de guerra eu aprendi aos 9 anos de idade – em  1988 – ainda me arrepio quando lembro daquele dia. E também da avenida Paulista inteira tomada por milhares de mulheres cantando a música Maria, Maria (do Milton Nascimento e Fernando Brant). No dia seguinte contei com muito orgulho o motivo da minha ausência para a professora da quarta série. Nessa época, minha mãe – Sandra Regina – era militante da ARMMA: Associação Regional de Mulheres Margarida Alves, na cidade de Santos. Ainda tenho a lembrança de muito acolhimento naqueles tempos em que sobrevivíamos com muitas dificuldades financeiras. Lembro-me do cheiro de café e do gosto do chá com bolachas na cozinha da casa da Gemma Rebello, e dos abraços das companheiras que nos fortaleciam. O termo utilizado para traduzir esse sentimento de acolhimento entre as mulheres feministas é: ‘sororidade’.

“Sororidade é uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo.É uma experiência subjetiva entre mulheres na busca por relações positivas e saudáveis, na construção de alianças existencial e política com outras mulheres, para contribuir com a eliminação social de todas as formas de opressão e ao apoio mútuo para alcançar o empoderamento vital de cada mulher. A sororidade é a consciência crítica sobre a misoginia e é o esforço tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura misógina, enquanto transforma as relações de solidariedade entre as mulheres.” (RÍOS, Maiara Moreira de, Y DE LOS Marcela Lagarde . Sororidad. In: GAMBA, Susana Beatriz. Diccionario de estúdios de género y feminismos. Buenos Aires: 2009.) No último sábado – dia 7 de março – participei da “Roda de Conversa: de Preta pra Preta”, promovida pelo Núcleo Impulsor do estado de SP da Marcha das Mulheres Negras 2015. O evento, realizado no Sindicato dos Advogados, teve a presença de cerca de 50 mulheres e foi marcado pela ‘sororidade’, pela necessidade que temos de falar e dividir nossas dores, nossas lutas e também nossas conquistas.

Discutimos o significado do dia 8 de março e a importância do movimento de mulheres negras construído pela luta de quem sofre duplamente pela opressão machista e o racista. Além da articulação para a construção da Marcha das Mulheres Negras 2015 – Contra o Machismo, a violência e pelo bem-viver! que será realizada no dia 18 de novembro. O encontro durou quase quatro horas e encerrou com uma oficina na qual customizamos camisetas e cartazes para o dia seguinte, a Marcha do Dia Internacional da Mulher!

Roda de Conversa de Preta pra Preta

Roda de Conversa de Preta pra Preta Foto: Tatiana de Oliveira

A jornalista Luka Franca foi uma das condutoras dessa Roda de Conversa, para ela: “A atividade foi super positiva, estamos retomando espaços de interlocução muito importante que há tempos não conseguíamos estabelecer entre tantas mulheres negras com posicionamentos políticos diversos e dispostas a conversar sobre a nossa realidade concreta. Espero que consigamos tocar mais espaços assim, porque precisamos deles, são fundamentais para acolher as companheiras que começam hoje esta luta e as que já estão nela há muito tempo.”

Luka afirma que o diálogo entre as mulheres negras é importante porque: “Precisamos nos reconhecer, seja no movimento feminista, seja no movimento negro é sempre muito difícil arranjamos espaço para podermos apresentar quais são efetivamente as nossas pautas e reivindicações. Ajuda tanto no processo de formação política quanto de fortalecimento para lidar com outros espaços de militância ou da vida cotidiana.”

Marcha do Dia Internacional da Mulher  Foto: Frida Photos e Video

Marcha do Dia Internacional da Mulher
Foto: Frida Photos e Video

“Marchar contra o racismo eu vou. Marchar contra a violência. Marchar pelo bem viver, pelo bem viver, pelo bem viver!” Refrão da música Negras em marcha, de Luana Hansen, disponível aqui.  A Marcha do Dia Internacional da Mulher (8 de março) reuniu cerca de quatro mil pessoas na Avenida Paulista. A manifestação seguiu pela rua Augusta, sentido centro, até a Praça Roosevelt.

Participaram da Marcha mulheres de todas as cores e idades, de diferentes coletivos, partidos políticos e movimentos sociais. Num ato contra: o machismo, a violência, a criminalização e ilegalidade do aborto. Mulheres que lutam por equidade efetiva, pois a igualdade de diretos garantidos por lei não ocorre na prática. “Olha, o ato deste ano do dia 8 de março foi um dos mais lindos que eu já vi. Conseguimos sair às ruas em unidade, com uma representação importante de direções feministas não brancas coordenando em diversas tarefas o ato. Demos um recado, o recado que as feministas de conjunto não irão dar espaço para a direita nos massacrar e retirar os poucos direitos que ainda temos e nem são garantidos para todas”, disse Luka.

A jornalista também falou sobre os três momentos que a emocionaram durante a Marcha: “O primeiro foi quando a camarada Amanda Palha do Coletivo Ana Montenegro falou na abertura do ato. Foi a primeira vez que uma travesti falou em um 8 de março e acho isso marcante. Os dois outros momentos foram protagonizados por gente que vem construindo a mobilização do dia 18 de novembro. A Juliana Gonçalves fez uma fala maravilhosa pelo Núcleo Impulsor da Marcha, de São Paulo, na abertura da manifestação e no final a Luana Hansen cantando a música que ela fez em ‘mulheragem’ a Marcha de Mulheres Negras, esses momentos todos pra mim foram a resposta de que é possível mudar as lógicas que estão presentes no  movimento feminista e torna-lo mais diverso!”

Apresentação da Mc Soffia Foto: Tatiana Oliveira

Apresentação da Mc Soffia
Foto: Tatiana Oliveira

No carro de som, uma faixa homenageou Lurdinha Rodrigues, Rosangela Rigo e Célia Scanfell, ativistas históricas do movimento feminista que faleceram em um acidente no dia 14/2/2015. O encerramento da Marcha contou com as apresentações das cantoras Luana Hansen, MC Soffia e Sharylaine.

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Tatiana Oliveira é jornalista e radialista, mestre em Ciências pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Integrante da Comissão Política do Coletivo Quilombação e participa do núcleo impulsor de São Paulo da Marcha das Mulheres Negras de 2015.


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