Quilombo

por Dennis de Oliveira

30 de março de 2015, 18h04

Gabriela Vallim: Pelo fim de todas as ferramentas de genocídio do povo preto! A reconstrução se dará por meio da comunidade

por: Gabriela Vallim (estudante do Jornalismo e articuladora do EECUN – Encontro de Estudantes e Coletivos Universitários Negros)

As ideias assim como a organização comunitária da África, foram imperializadas para servir a uma lógica Europeia.

As ideias assim como a organização comunitária da África, foram imperializadas para servir a uma lógica Europeia.

 

O mulherismo me mostrou um outro universo! Me sinto acolhida, é NÓS POR NÓS.

Me identificava com o feminismo por acreditar ser necessário a luta por direitos iguais, mas minhas idas a grupos feministas, sempre gerou inquietações, inicialmente ouvia aquelas discussões brancas, que em nada me representavam, mas não sabia como rebater teoricamente. As “sinhás” diziam, você não tem que colocar as questões de raça antes das de gênero porque antes de preta você é mulher. Esse foi o clímax para que eu procurasse outro espaço, foi ai que conheci o feminismo negro, acompanhei, militei por um tempo, mas ainda assim percebia na maioria das ações e modo de ver, discutir as coisas, mesmo ali em grupos de mulheres negras feministas, igual a postura das feministas brancas. O feminismo só havia sido pintado de preto mas a ideologia, ocidental, europeizada permanecia a mesma.  São inegáveis as contribuições que a luta de muitas pretas como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, são extremamente significativas. Contudo os comportamentos agressivos e separatistas os quais muitas irmãs passaram a adotar me gerou profundo incomodo.

Me identifico com o mulherismo africana – Ideologia criada e projetada para todas as mulheres de ascendência africana, a qual focaliza necessariamente experiências, lutas e  desejos singulares das mulheres africanas (presentes no continente africano ou na diáspora)”, de Cleonora Hudson, por acreditar numa luta pela emancipação de um povo (coletivo) e não apenas a minha enquanto mulher (individuo) como fazem as feministas negras e brancas. Entendo o feminismo como uma ideologia branca, burguesa e eurocêntrica que serve para as brancas, mas gera divisão entre os pretos, promove com sucesso a desintegração do nosso povo, o que fragmenta a luta.

Trabalhando com identidade e auto estima das mulheres pretas nas periferias, comecei a analisar que a aplicação dessa ideologia dentro da nossa comunidade está produzindo um apagamento da identidade africana, seu modo de organização, nossa historicidade, as comunidades matriarcais, terreiros, nossa resistência as invasões europeias na África, e a força de permanecer firme mesmo na diáspora longe de tudo que significava ser nós mesmas, além do distanciamento entre homens e mulheres pretos, ao invés da promoção de espaços para trocas e desconstrução do machismo inerente a todos nós criados nessa sociedade.

De acordo com a carta de WILLY LYNCH proprietário de escravos no Caribe, conhecido por manter seus escravos sobre controle, a melhor tática é separar para enfraquecer.

“Verifiquei que entre os escravos existem uma série de diferenças. Eu tiro partido destas diferenças, aumentando-as. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja para mantê-los debaixo do meu controle. Eu vos asseguro que a desconfiança é mais forte que a confiança e a inveja mais forte que a concórdia, respeito ou admiração. Deveis usar os escravos mais velhos contra os escravos mais jovens e os mais jovens contra os mais velhos. Deveis usar os escravos mais escuros contra os mais claros e os mais claros contra os mais escuros. Deveis usar as fêmeas contra os machos e os machos contra as fêmeas. Deveis usar os vossos capatazes para semear a desunião entre os negros, mas é necessário que eles confiem e dependam apenas de nós. Meus senhores, estas ferramentas são a vossa chave para o domínio, usem-nas. Nunca percam uma oportunidade. Se fizerdes intensamente uso delas por um ano o escravo permanecerá completamente dominado.

O escravo depois de doutrinado desta maneira permanecerá nesta mentalidade passando-a de geração em geração”.

O mulherismo africana propõe a construção de políticas onde a população negra possa andar em conjunto, uma articulação feminina totalmente distinta do feminismo branco e vertentes do feminismo negro. No mulherismo, mulheres pretas e homens pretos lutam para eliminação desta doença eurocêntrica chamada sexismo.  Nós mulheres pretas enquanto protagonistas dessas opressões machistas, temos que trazer tais questões para debate na comunidade, porque a total emancipação feminina negra, só acontecerá com a conscientização dos nossos homens pretos de que o machismo é ruim pra todo o povo.


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