Quilombo

por Dennis de Oliveira

11 de maio de 2012, 07h59

Sobre Alexandre Pires, indústria cultural e racismo

“Sinto-me profundamente chocado com qualquer leitura racista ou sexista num clipe protagonizado por mim, negro com orgulho da minha cor, autor e intérprete de música romântica, sem que isso nunca tenha sido confundido com sexismo. Devemos tratar toda e qualquer brincadeira com macacos e gorilas como uma referência a ser apagada da nossa memória? King Kong, Chita, Monga, eram todos personagens com alguma leitura que não a do genuíno entretenimento? Não me consta que meu histórico deixe alguma dúvida sobre o meu respeito à mulher ou ao negro, e a edição deste filme em nenhum momento faz brotar qualquer insinuação similar.”

Esta é a íntegra da nota oficial lançada pelo cantor Alexandre Pires como resposta à denúncia de crime de racismo feita pela Procuradoria Geral da Justiça de Uberlândia. O clipe em questão mostra Pires, o jogador Neymar e Mr Catra vestidos de macacos (em alusão a King Kong) dançando com várias meninas de biquíni em uma piscina. As críticas ao clipe vão de racismo ao machismo.

A Globo já está anunciando nesta semana matéria a ser exibida domingo no Fantástico sobre o assunto, dando destaque à defesa de Pires.  Depois da decisão, por unanimidade, da constitucionalidade das cotas raciais no Supremo Tribunal Federal, os incomodados com a visibilidade da discussão do racismo e da necessidade de se implementar políticas públicas de combate às desigualdades raciais encontraram justamente em um “popstar” negro um ponto de referência. Com certeza, a tônica dos discursos destes “incomodados” será que há um “exagero” nas denúncias, de que o movimento negro vê “racismo em tudo” e, com certeza, vai sobrar para as críticas ao “politicamente correto” que tanto “atrapalha a liberdade criativa dos artistas”.

Duas coisas são interessantes neste assunto. A primeira são as regras implícitas que a indústria cultural coloca para a visibilidade de negros e negras. O espaço lúdico, historicamente, tem sido no Brasil a principal forma de ascensão social de negros e negras. Ascensão social e visibilidade. Isto tem relação com o poder de resistência da cultura negra e, principalmente, pelo fato dela estar enraizada na sociedade brasileira. Digo resistência porque não há como negar a força da cultura de um segmento social historicamente oprimido no país e que, mesmo assim, tingiu de negro a paisagem cultural brasileira.

Porém, a “negociação” estabelecida entre a indústria cultural e os protagonistas negros e negras desta cultura é que estes, para conseguirem visibilidade, abram mão de um discurso de afirmação negra e anti-racista. Assim, com raras exceções, vemos negros e negras famosos desfilando pelos espaços midiáticos porém sem expressar um discurso de afirmação étnica ou de combate ao racismo.

A segunda coisa que vejo nisto é que esta presença negra no cenário lúdico e cultural midiatizado contribui para o reforço do mito brasileiro de que tanto fala a filósofa Marilena Chauí: o Brasil é um país pacífico, tolerante, cordial. Por isto, no Brasil há uma democracia racial ou, no limite, o racismo acontece em práticas pontuais e permeadas por uma certa “ignorância”; não há machismo no Brasil e há uma tolerância com os comportamentos sexuais. Os fatos desmentem isto cabalmente: as periferias brasileiras tem índices de assassinatos maiores que países em guerra; mulheres são agredidas e até mortas por seus próprios cônjuges com frequência; a violência contra homossexuais cresce e todos os indicadores sociais mostram as desigualdades da população negra, bem como que os índices de violência vitimam, principalmente, jovens negros e negras.

Mitigando o problema, há uma grande dificuldade de discuti-lo abertamente. Recentemente, uma marca de azeite fez uma propaganda com os seguintes dizeres: “Nosso azeite é rico. O vidro escuro é o segurança.”

Extremamente sutil o artigo “o”: o vidro escuro é o segurança – associa o negro a ser segurança do rico (azeite). Houve denúncia no Conar que recomendou, depois de um bom tempo, que a propaganda fosse retirada (decisão inútil, pois foi feita depois que a campanha tinha acabado).  Este debate gerou mais de 150 comentários no facebook, e a reação chegou a histeria de uma pessoa que me ameaçou processar por estar sendo “racista contra os brancos” (sic). Mas a ideologia do racismo é tão extrema que até mesmo afrodescendentes defenderam a propaganda. Um deles, metido a engraçadinho, disse que daqui a pouco a gente iria querer processar todo mundo que usasse roupas brancas e ficou desqualificando a discussão durante um bom tempo.

Enfim, é preciso que se combata a negação do racismo, machismo, homofobia e de um cenário de violência que é a práxis central das formas de acumulação de riquezas e manutenção de privilégios no Brasil. O cenário real pode ser triste, mas é preciso parar de sonhar para efetivamente se construir alternativas. A maior vigilância contra o racismo é fundamental para que se mudem estas práticas. Incomoda apenas aqueles que estão na zona de conforto do racismo.


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