escrevinhador

por Rodrigo Vianna

Fórum Educação
18 de março de 2020, 19h20

Bahia encampa hospital particular e abre 160 leitos contra o coronavírus

Medida é símbolo de que Estado volta a ter papel central no Brasil; neoliberalismo de Guedes não dá respostas para crise

Divulgação

O Hospital Espanhol, em Salvador, estava desativado há cinco anos. Era um hospital particular, que fechou as portas após grave crise econômica: um símbolo do Brasil, que andou para trás desde 2015. Na manhã desta quarta feira (18), o governador Rui Costa (PT) vistoriou o edifício com sua equipe e o transformou num dos centros de combate ao Coronavírus na Bahia.

Será uma espécie de “hospital de campanha”, na mesma linha do que fizeram as autoridades chinesas, no início da epidemia na província de Wuhan. Lá, com recursos de sobra e um Estado ultracentralizado, os chineses ergueram uma unidade hospitalar, do zero, em pouco mais de duas semanas. A atitude do governador da Bahia é um símbolo importante de que cabe aos estados tomar à frente na gestão da crise – dadas as trapalhadas e a incapacidade do governo central em agir de maneira séria, sob o comando de Bolsonaro.

O hospital foi requisitado pelo governador petista em caráter emergencial, com uma ação na Justiça Federal. O Judiciário acolheu a ideia, e passou a gestão do equipamento de saúde para o governo estadual. Rui Costa determinou que seja feita imediatamente a dedetização, além de pequenos reparos na estrutura física do prédio. A ideia é instalar ali 160 leitos, 80 deles de UTI – fundamentais para alocar os pacientes da rede pública quando a epidemia chegar ao auge no Brasil, em duas ou três semanas.

A equipe de saúde ficou surpresa com o bom estado de conservação dos equipamentos e das instalações – apesar de a unidade estar há tanto tempo fechada. Isso deve facilitar a adaptação do Hospital Espanhol para atendimento durante a grave crise de saúde.

A principal unidade de atendimento em Salvador, durante a pandemia, seguirá a ser o Couto Maia, em Cajazeiras. O Espanhol será a unidade de reforço para a rede pública baiana. Os profissionais de saúde devem ser contratados de forma emergencial, em formato ainda a ser definido pela Secretaria de Saúde da Bahia.

Certamente, pelo que vemos acontecendo na Itália, o Brasil precisaria de pelo menos um hospital novo em cada grande capital. Salvador saiu na frente.

A China foi capaz de construir a unidade em Wuhan, e assim barrou o avanço da doença. A saída baiana, com muito menos recursos e em meio à crise fiscal brasileira agravada pela política de Paulo Guedes, é importantíssima para salvar vidas. E tem também um caráter simbólico: mostra que o Estado, e só o Estado, é capaz de dar saídas para amenizar a grave crise. O mercado, numa hora dessas, é sinônimo de caos e saídas individualistas.

Dominado pelo pensamento ultraliberal de Paulo Guedes, um fanático do mercado, e pelo discurso mistificador de Jair Bolsonaro (que tratou a pandemia na base da chacota), o governo federal perdeu tempo e pode lançar o Brasil na maior crise de saúde da história. A situação só não é pior porque os governadores e prefeitos estão agindo.

Em 2018, o Brasil votou contra “os políticos” e a “política”. O Brasil acreditou num “mito”. Mas quando a crise gravíssima bate à porta, é a política que pode resolver as coisas.

Se fosse pela “iniciativa privada”, ou pelo “mito”, Salvador seguiria com o hospital fechado, e com 160 leitos a menos em meio à pandemia.

O Hospital Espanhol (esperamos que esteja mesmo em funcionamento nas próximas semanas) só será um reforço contra a pandemia porque existem políticos e técnicos de saúde da área pública, dispostos a encampar estrutura privada em nome do interesse público.     


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