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por Rodrigo Vianna

O que o brasileiro pensa?
17 de abril de 2016, 01h25

Decisão será por margem estreita, e governo só terá votos pra barrar golpe com estados nordestinos no fim da sessão

Alerta: haverá uma primeira impressão de vitória avassaladora do impeachment. Quando os deputados de São Paulo (décima quinta unidade da federação, na ordem prevista por Cunha) votarem, a oposição provavelmente estará ganhando por 75% a 25%.  Só então é que entrarão em cena estados nordestinos onde se projeta que o governo levará vantagem: Maranhão, Ceará e Bahia. Nesse momento final é que devem surgir os votos definitivos contra o golpe.

por Rodrigo Vianna

As última 48 horas foram de intensas mudanças e articulações no cenário político. Até o meio da tarde de sexta-feira (dia 15), a contabilidade dos votos mostrava que o pêndulo se inclinava decididamente em favor do golpe de Temer/Cunha.

Mas àquela altura, os governadores do Nordeste já trabalhavam freneticamente nos bastidores, para virar votos em favor da democracia. E isso deu resultados.

Na noite de sexta, surgiu o fato que pode ter sido o grande trunfo contra o golpe: o vice-presidente da Câmara, Valdir Maranhão (PP-MA), declarou que depois de ouvir o governador Flavio Dino (PCdoB-MA) havia decidido se posicionar contra o impeachment, contrariando a direção de seu partido.

O anúncio de Maranhão foi seguido pela formação de maiorias firmes nas bancadas do Ceará e da Bahia – contra o impeachment. E pelo anúncio de que ao menos 12 deputados do PP votariam contra o golpe, especialmente no Nordeste.

Além disso, alguns sinais indicavam, já no sábado, que o PMDB, a Globo e o comando golpista parecem ter cantado vitória antes do tempo. Vejamos.

  1. Temer, que havia ido a São Paulo “pra relaxar”, voltou às pressas a Brasilia no sábado, para batalhar pelos votos que começava a perder.
  2. Nas ruas de Brasília, era evidente o desânimo dos coxinhas. Muitos pareciam de crista baixa, ao notar que uma eventual derrota do PT significaria o poder entregue não a Aécio ou Marina, mas à gangue peemedebista das piores negociatas.
  3. O lado do “Não” ao golpe, por sua vez, estava na ofensiva: em Brasília, São Paulo e em capitais nordestinas, a mobilização era muito maior entre os que defendem a democracia.
  4. A oposição deu mostras de desespero, pedindo busca e apreensão no hotel de Lula, e “denunciando” Dilma por ter-se encontrado com a bancada do Amapá e assinado um decreto pra legalizar as terras naquele ex-território federal.
  5. Ao longo do sábado, mais um deputado do PTB (partido que fechara questão pelo golpe) se posicionou contra o impeachment – desafiando a direção. Adalberto Cavalcanti é um parlamentar de Petrolina, sertão de Pernambuco, e o posicionamento dele indicou que a reação nordestina se consolidava.
  6. No fim da noite de sábado, alguns deputados do PSB (especialmente no Nordeste) declararam estar dispostos a também contrariar a direção do partido, para votar contra o golpe. Com isso, pode chegar a 7 ou 8 (numa bancada de 32) o total de socialistas contra o golpe.

Tudo isso fez com que a batalha, que parecia quase perdida 48 horas antes, tenha ganho nova dinâmica.

Mas nada aponta uma vitória tranquila para os que lutam contra o impeachment. Ao contrário: se o golpe for barrado, o será por margem estreita.

Aqueles que se opõem a Cunha/Temer/Globo devem manter o sangue frio no início da votação. Explica-se: entre os 15 estados “eleitores” que abrirão a sessão comandada por Eduardo Cunha, 12 são estados onde a oposição ganha por goleada.

Ou seja, haverá uma primeira impressão de vitória avassaladora do impeachment. E essa é a ideia de Cunha – que certamente contará com apoio da Globo para disseminar a “onda”.

Quando os deputados de São Paulo (décima quinta unidade da federação, na ordem prevista por Cunha) terminarem de votar, a oposição provavelmente estará ganhando por 75% a 25%.

Só então é que entrarão em cena grandes estados nordestinos, onde se projeta que o governo levará ampla vantagem: Maranhão, Ceará e Bahia.

Quando os baianos terminarem de votar, provavelmente, ficará claro que o golpe não vingou. Ainda assim, o sofrimento seguirá até o fim – com as bancadas de Sergipe e Alagoas fechando a sessão em que, segundo as projeções do governo, os golpistas devem obter entre 60% e 65% dos votos (precisam de 66,6%)

Há também a possibilidade de que a oposição não obtenha os 342 votos necessários, mas o governo tampouco coloque 172 votos “Não” em plenário. Nesse caso, a parada seria decidida pelas abstenções e ausências.

Imagine-se o seguinte quadro: 330 votos pelo “Sim”, 150 pelo “Não”, e 33 faltas/abstenções. Eduardo Cunha poderia então estender a sessão indefinidamente, na tentativa de que alguns ausentes repentinamente aparecessem? Tudo pode acontecer, numa sessão presidida por este homem!

Por fim, é importante dizer que a presença de muita gente nas ruas, contra o golpe, pode  ser decisiva pra mostrar aos indecisos que vale a pena enfrentar a onda criada por Cunha/Temer/Globo/PSDB.

Todos, no governo e na oposição, esperam um resultado muito apertado.

As últimas horas favoreceram os defensores da democracia: nas ruas e nas articulações de bastidor. Mas os golpistas contam com a Globo e Cunha.

Uma batalha desigual. Mas vale a pena travar (e vencer!) esse combate, porque é o futuro da democracia que está em jogo.

 

 

 


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