terça-feira, 29 set 2020
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Chavismo superou trauma da de­saparição física de Hugo Chávez

Por Vicente Prieto, de Caracas , no Brasil de Fato

Reinaldo Iturriza, um sociólogo de 40 anos, que frequentemente é identifi­cado como “chavista radical”, foi empos­sado no cargo de ministro para Comunas e os Movimentos sociais de Venezuela faz pouco mais de um ano, quando Nicolás Maduro assumiu o mandato, após a vi­tória eleitoral de 14 de abril do ano pas­sado. Nesses meses, sua gestão caracteri­zou-se por uma estreita articulação com as bases bolivarianas. O resultado foi uma explosão do poder popular, expres­sada, entre outras coisas, no registro de mais de 630 comunas.

“Esse é um programa de transição ao socialismo e de radicalização da demo­cracia participativa e protagônica. Parti­mos do princípio de que acelerar a tran­sição passa, necessariamente, por acele­rar o processo de restituição do poder ao povo”, escrevia Chávez no seu testamen­to político, o Plano da Pátria 2013-2019.

“O vivo, efetivo e pleno exercício do po­der popular protagônico é insubstituível condição de possibilidade para o socialis­mo bolivariando do século 21. Isso pas­sa por pulverizar completamente a forma Estado, burguesa, que herdamos, a que ainda se reproduz através de suas velhas e nefastas práticas, e dar continuidade à invenção de novas formas de gestão po­lítica”.

A vitalidade do amplo e diverso movi­mento popular – que nunca abandonou a rua – é uma das chaves fundamentais pa­ra que a Revolução Bolivariana possa re­sistir e avançar, depois da ausência físi­ca de seu líder. A seguir, leia a entrevista com o ministro Reinaldo Iturriza.

Brasil de Fato – Poderia fazer um balanço geral desse ano, a partir de 5 de março de 2013?

Reinaldo Iturriza – Penso que o fun­damental desse ano é o fato de que o cha­vismo tenha conseguido superar o mui­to decisivo obstáculo que significa a de­saparição física do comandante [Hugo Chávez]. Isso determina tudo. Isso im­plica que se tenha resolvido o que para as forças contrárias à Revolução era um enigma que se experimentava quase com prazer perverso. Essas análises davam como favas contadas o fracasso da Re­volução, isto é, que a Revolução Boliva­riana após Chávez era o “pós-chavismo”, era alguma coisa depois do chavismo.

Eu tive o trabalho pouco agradável de revisar o que escreveram alguns intelec­tuais progressistas de América Latina, imediatamente após a desaparição física do comandante e eram verdadeiramente pessimistas sobre a possibilidade da Re­volução Bolivariana continuar. Lembro de um artigo de Guillermo Almeyra, era verdadeiramente, como já disse, pessi­mista. A caracterização que ele fazia das forças que compunham o governo boli­variano naquele momento não apenas refletia um profundo desconhecimen­to das forças que compõem o chavismo senão que expressava o fim do proces­so bolivariano. Lembro particularmente porque antes desse artigo tinha lido algu­mas outras coisas desse autor e me pare­cia bastante agudo, sensato. E para mim, nesse momento, foi uma expressão bas­tante clara da deriva da intelectualida­de, do pânico que se propagou na inte­lectualidade, e é o mesmo pânico que se propagou num setor bastante minoritá­rio do chavismo. Como vem fazendo des­de 1998, o povo chavista respondeu es­se enigma e disse: “Esta Revolução conti­nua”. Esse dado, ao qual não se dá maior atenção, ao qual não se concede tanta re­levância, para mim é o dado mais decisi­vo de todo esse ano.

Depois, outra coisa que me parece bas­tante determinante é o que aconteceu no interior das forças contrárias à Revo­lução. Aconteceu, sobretudo, partir de 2007, uma importantíssima virada táti­ca na oposição venezuelana, e predomi­naram um conjunto de forças que não apostavam em uma saída violenta, à con­frontação violenta na rua, e sim penetrar nas bases sociais do chavismo por meio de uma série de estratégias, insistindo muito no tema da ineficiência.

Guerra de “baixa intensidade”

Se é verdade que a Venezuela nunca deixou de ser um país assediado, incluin­do o assédio econômico – o famoso “pa­ro sabotagem” 2002-2003 deixou perdas bilionárias –, a partir de 2007, a guerra econômica começa a se expressar de ou­tra maneira. É uma guerra de “baixa in­tensidade”, em pequenas doses. A desa­parição nas gôndolas dos artigos de pri­meira necessidade começa a se expres­sar com muita força a partir desses anos. Acontece um deslocamento também no protagonismo opositor. Os representan­tes tradicionais desaparecem de cena, es­se é o momento em que “aparecem” os estudantes. Lembro que “a academia” também teve um peso muito importan­te, sobretudo “os expertos em pobreza”, do tipo dos da Universidad Católica An­drés Bello, isto é, os tecnocratas das ciên­cias sociais, que alimentavam todo esse discurso da ineficiência etc.

Se não se entende que nesse momen­to se produz essa virada, é muito difícil entender a Venezuela agora. Aí começa­mos a ver de maneira sistemática os efei­tos da guerra econômica. Isto é, a oposi­ção optou pela via “pacífica e democráti­ca”, porque não havia outra opção. Por­que durante todos os primeiros anos da Revolução disputou a rua com o chavis­mo e o chavismo sempre a derrotou.

Quando, no 5 de março, ocorre a mor­te do comandante, nesse momento dis­semos: “A pergunta não é que vai aconte­cer com o chavismo, e sim que vai acon­tecer agora com o antichavismo. Vai con­tinuar na sua linha democrática de par­ticipar nas eleições ou vai apelar às me­didas de força?”. Bom, olha, ao longo desse ano, está comprovado que a opo­sição decidiu voltar a uma tática de vio­lência na rua, com o agregado da guerra econômica. O plano era que as “guarim­bas” [barricadas] se articulassem em al­gum momento com um golpe militar. Is­so foi neutralizado. Mas, bem, aí temos esse desafio enorme que continua signi­ficando a guerra econômica.

Com relação a como atravessar o obstáculo da guerra econômica, em termos estratégicos, parece que há diferentes alternativas sobre que fazer.

O chavismo sempre teve forças mais avançadas e outras mais conservadoras. Os que esperavam ansiosos quem fala­vam em pós-chavismo era que essas con­tradições se expressassem de forma mui­to caótica e que culminasse num racha. Isso, claro, não aconteceu. Chávez foi muito claro com relação a que a Revolu­ção Bolivariana devia seguir definida pe­lo elemento popular, não apenas no po­lítico, mas fundamentalmente no eco­nômico. Ele [Chávez] não queria que em momento algum houvesse dúvidas sobre a orientação revolucionária, transforma­dora, socialista, do governo bolivariano. O Comandante insistiu muito em que o socialismo bolivariano tem que estar an­corado em nossa realidade, reconhecen­do as circunstâncias do tempo e lugar em que se desenvolve. Mas esse não era um socialismo domesticado. Não era a so­cialdemocracia, não era um projeto po­lítico que implicasse pactuar com a bur­guesia e muito menos com a oligarquia.

O que o surpreendeu dentro da instituição, nesta nova posição que você assume, e da visão que emerge dessa posição?

O que mais desfrutei da instituição [Ministério das Comunas e dos Movi­mentos Sociais] é a possibilidade de fa­zer. Esse é um Estado com muita força. Independentemente dos obstáculos que se apresentam para nós, que são uma in­finidade, como em toda parte, aqui há uma clara orientação geral das políticas. Se soubermos aproveitar as possibilida­des que oferece a institucionalidade, se pode fazer muita coisa que tem impacto muito profundo na população.

E o que o surpreendeu mais?

Surpreende-me muitíssimo a facili­dade com que pessoas, inclusive aque­las de muita confiança, quando são in­terpeladas sobre alguma questão que es­tá mal ou na qual falhamos, automatica­mente responde defendendo a institui­ção e responsabilizando o povo. É uma lógica, uma cultura. Quando você se de­tém, a inércia aponta para esse lugar co­mum, sempre: “A instituição fez o que ti­nha que fazer, a culpa é das pessoas”. Se a gente não se previne contra isso, se dei­xa levar facilmente por essa lógica.

O presidente propôs a criação de um Conselho de Governo Comuna, para avançar em direção ao autogoverno. Que pode nos adiantar sobre essa proposta?

O Conselho é uma ideia do presiden­te. Uma ideia inacabada, uma coisa que é preciso construir, obviamente, com o aporte decisivo do sujeito comuneiro. O presidente coloca a necessidade de es­tabelecer interlocução direta com ele. O apresentou assim: “Um espaço onde, sobre o tema X, vocês me dizem o que é preciso fazer, o discutimos e o decidi­mos”. Parece-me que é um espaço a par­tir do qual o sujeito comuneiro tem que falar com o resto da sociedade, um espa­ço não autorreferencial, mas para a cons­trução de hegemonia: de hegemonia po­pular democrática, não de hegemonia no mal sentido. Um espaço a partir do qual, construindo política, o sujeito comunei­ro tem a extraordinária possibilidade de transmitir ao resto da sociedade vene­zuelana o que é uma comuna.

Numa frase só, para onde vai a Revolução Bolivariana?

A Revolução Bolivariana vai para o en­contro permanente do povo venezuela­no. Aí está, no coração do povo, e aí tem que seguir estando. Enquanto for assim, haverá Revolução Boliviana por um bom tempo.