escrevinhador

por Rodrigo Vianna

Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
02 de julho de 2014, 09h39

Chavismo superou trauma da de­saparição física de Hugo Chávez

Leia entrevista com Reinaldo Iturriza, um sociólogo de 40 anos, que é ministro para Comunas e os Movimentos sociais de Venezuela faz pouco mais de um ano. Sua gestão caracteri­zou-se por uma estreita articulação com as bases bolivarianas.

Por Vicente Prieto, de Caracas , no Brasil de Fato

Reinaldo Iturriza, um sociólogo de 40 anos, que frequentemente é identifi­cado como “chavista radical”, foi empos­sado no cargo de ministro para Comunas e os Movimentos sociais de Venezuela faz pouco mais de um ano, quando Nicolás Maduro assumiu o mandato, após a vi­tória eleitoral de 14 de abril do ano pas­sado. Nesses meses, sua gestão caracteri­zou-se por uma estreita articulação com as bases bolivarianas. O resultado foi uma explosão do poder popular, expres­sada, entre outras coisas, no registro de mais de 630 comunas.

“Esse é um programa de transição ao socialismo e de radicalização da demo­cracia participativa e protagônica. Parti­mos do princípio de que acelerar a tran­sição passa, necessariamente, por acele­rar o processo de restituição do poder ao povo”, escrevia Chávez no seu testamen­to político, o Plano da Pátria 2013-2019.

“O vivo, efetivo e pleno exercício do po­der popular protagônico é insubstituível condição de possibilidade para o socialis­mo bolivariando do século 21. Isso pas­sa por pulverizar completamente a forma Estado, burguesa, que herdamos, a que ainda se reproduz através de suas velhas e nefastas práticas, e dar continuidade à invenção de novas formas de gestão po­lítica”.

A vitalidade do amplo e diverso movi­mento popular – que nunca abandonou a rua – é uma das chaves fundamentais pa­ra que a Revolução Bolivariana possa re­sistir e avançar, depois da ausência físi­ca de seu líder. A seguir, leia a entrevista com o ministro Reinaldo Iturriza.

Brasil de Fato – Poderia fazer um balanço geral desse ano, a partir de 5 de março de 2013?

Reinaldo Iturriza – Penso que o fun­damental desse ano é o fato de que o cha­vismo tenha conseguido superar o mui­to decisivo obstáculo que significa a de­saparição física do comandante [Hugo Chávez]. Isso determina tudo. Isso im­plica que se tenha resolvido o que para as forças contrárias à Revolução era um enigma que se experimentava quase com prazer perverso. Essas análises davam como favas contadas o fracasso da Re­volução, isto é, que a Revolução Boliva­riana após Chávez era o “pós-chavismo”, era alguma coisa depois do chavismo.

Eu tive o trabalho pouco agradável de revisar o que escreveram alguns intelec­tuais progressistas de América Latina, imediatamente após a desaparição física do comandante e eram verdadeiramente pessimistas sobre a possibilidade da Re­volução Bolivariana continuar. Lembro de um artigo de Guillermo Almeyra, era verdadeiramente, como já disse, pessi­mista. A caracterização que ele fazia das forças que compunham o governo boli­variano naquele momento não apenas refletia um profundo desconhecimen­to das forças que compõem o chavismo senão que expressava o fim do proces­so bolivariano. Lembro particularmente porque antes desse artigo tinha lido algu­mas outras coisas desse autor e me pare­cia bastante agudo, sensato. E para mim, nesse momento, foi uma expressão bas­tante clara da deriva da intelectualida­de, do pânico que se propagou na inte­lectualidade, e é o mesmo pânico que se propagou num setor bastante minoritá­rio do chavismo. Como vem fazendo des­de 1998, o povo chavista respondeu es­se enigma e disse: “Esta Revolução conti­nua”. Esse dado, ao qual não se dá maior atenção, ao qual não se concede tanta re­levância, para mim é o dado mais decisi­vo de todo esse ano.

Depois, outra coisa que me parece bas­tante determinante é o que aconteceu no interior das forças contrárias à Revo­lução. Aconteceu, sobretudo, partir de 2007, uma importantíssima virada táti­ca na oposição venezuelana, e predomi­naram um conjunto de forças que não apostavam em uma saída violenta, à con­frontação violenta na rua, e sim penetrar nas bases sociais do chavismo por meio de uma série de estratégias, insistindo muito no tema da ineficiência.

Guerra de “baixa intensidade”

Se é verdade que a Venezuela nunca deixou de ser um país assediado, incluin­do o assédio econômico – o famoso “pa­ro sabotagem” 2002-2003 deixou perdas bilionárias –, a partir de 2007, a guerra econômica começa a se expressar de ou­tra maneira. É uma guerra de “baixa in­tensidade”, em pequenas doses. A desa­parição nas gôndolas dos artigos de pri­meira necessidade começa a se expres­sar com muita força a partir desses anos. Acontece um deslocamento também no protagonismo opositor. Os representan­tes tradicionais desaparecem de cena, es­se é o momento em que “aparecem” os estudantes. Lembro que “a academia” também teve um peso muito importan­te, sobretudo “os expertos em pobreza”, do tipo dos da Universidad Católica An­drés Bello, isto é, os tecnocratas das ciên­cias sociais, que alimentavam todo esse discurso da ineficiência etc.

Se não se entende que nesse momen­to se produz essa virada, é muito difícil entender a Venezuela agora. Aí começa­mos a ver de maneira sistemática os efei­tos da guerra econômica. Isto é, a oposi­ção optou pela via “pacífica e democráti­ca”, porque não havia outra opção. Por­que durante todos os primeiros anos da Revolução disputou a rua com o chavis­mo e o chavismo sempre a derrotou.

Quando, no 5 de março, ocorre a mor­te do comandante, nesse momento dis­semos: “A pergunta não é que vai aconte­cer com o chavismo, e sim que vai acon­tecer agora com o antichavismo. Vai con­tinuar na sua linha democrática de par­ticipar nas eleições ou vai apelar às me­didas de força?”. Bom, olha, ao longo desse ano, está comprovado que a opo­sição decidiu voltar a uma tática de vio­lência na rua, com o agregado da guerra econômica. O plano era que as “guarim­bas” [barricadas] se articulassem em al­gum momento com um golpe militar. Is­so foi neutralizado. Mas, bem, aí temos esse desafio enorme que continua signi­ficando a guerra econômica.

Com relação a como atravessar o obstáculo da guerra econômica, em termos estratégicos, parece que há diferentes alternativas sobre que fazer.

O chavismo sempre teve forças mais avançadas e outras mais conservadoras. Os que esperavam ansiosos quem fala­vam em pós-chavismo era que essas con­tradições se expressassem de forma mui­to caótica e que culminasse num racha. Isso, claro, não aconteceu. Chávez foi muito claro com relação a que a Revolu­ção Bolivariana devia seguir definida pe­lo elemento popular, não apenas no po­lítico, mas fundamentalmente no eco­nômico. Ele [Chávez] não queria que em momento algum houvesse dúvidas sobre a orientação revolucionária, transforma­dora, socialista, do governo bolivariano. O Comandante insistiu muito em que o socialismo bolivariano tem que estar an­corado em nossa realidade, reconhecen­do as circunstâncias do tempo e lugar em que se desenvolve. Mas esse não era um socialismo domesticado. Não era a so­cialdemocracia, não era um projeto po­lítico que implicasse pactuar com a bur­guesia e muito menos com a oligarquia.

O que o surpreendeu dentro da instituição, nesta nova posição que você assume, e da visão que emerge dessa posição?

O que mais desfrutei da instituição [Ministério das Comunas e dos Movi­mentos Sociais] é a possibilidade de fa­zer. Esse é um Estado com muita força. Independentemente dos obstáculos que se apresentam para nós, que são uma in­finidade, como em toda parte, aqui há uma clara orientação geral das políticas. Se soubermos aproveitar as possibilida­des que oferece a institucionalidade, se pode fazer muita coisa que tem impacto muito profundo na população.

E o que o surpreendeu mais?

Surpreende-me muitíssimo a facili­dade com que pessoas, inclusive aque­las de muita confiança, quando são in­terpeladas sobre alguma questão que es­tá mal ou na qual falhamos, automatica­mente responde defendendo a institui­ção e responsabilizando o povo. É uma lógica, uma cultura. Quando você se de­tém, a inércia aponta para esse lugar co­mum, sempre: “A instituição fez o que ti­nha que fazer, a culpa é das pessoas”. Se a gente não se previne contra isso, se dei­xa levar facilmente por essa lógica.

O presidente propôs a criação de um Conselho de Governo Comuna, para avançar em direção ao autogoverno. Que pode nos adiantar sobre essa proposta?

O Conselho é uma ideia do presiden­te. Uma ideia inacabada, uma coisa que é preciso construir, obviamente, com o aporte decisivo do sujeito comuneiro. O presidente coloca a necessidade de es­tabelecer interlocução direta com ele. O apresentou assim: “Um espaço onde, sobre o tema X, vocês me dizem o que é preciso fazer, o discutimos e o decidi­mos”. Parece-me que é um espaço a par­tir do qual o sujeito comuneiro tem que falar com o resto da sociedade, um espa­ço não autorreferencial, mas para a cons­trução de hegemonia: de hegemonia po­pular democrática, não de hegemonia no mal sentido. Um espaço a partir do qual, construindo política, o sujeito comunei­ro tem a extraordinária possibilidade de transmitir ao resto da sociedade vene­zuelana o que é uma comuna.

Numa frase só, para onde vai a Revolução Bolivariana?

A Revolução Bolivariana vai para o en­contro permanente do povo venezuela­no. Aí está, no coração do povo, e aí tem que seguir estando. Enquanto for assim, haverá Revolução Boliviana por um bom tempo.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum