escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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05 de outubro de 2011, 10h57

A Bolívia entre o divisionismo e a integração sul americana

As recentes manifestações populares na Bolívia colocam o governo Evo Morales numa situação delicada, mas não há risco de ruptura institucional como parte da imprensa brasileira tem divulgado. Desde que indígenas moxeño, yurakaré e chimane se levantaram contra a construção de uma estrada de 306 km no coração da Bolívia, os colonizados de plantão enxergaram uma nova chance de ver o presidente Evo fora do poder.

Por Marcelo Salles

As recentes manifestações populares na Bolívia colocam o governo Evo Morales numa situação delicada, mas não há risco de ruptura institucional como parte da imprensa brasileira tem divulgado. Desde que indígenas moxeño, yurakaré e chimane se levantaram contra a construção de uma estrada de 306 km no coração da Bolívia, os colonizados de plantão enxergaram uma nova chance de ver o presidente Evo fora do poder.

Os fatos acontecidos na fronteira dos departamentos de La Paz e Beni são graves. Tanto é que o presidente Evo Morales teve que pedir desculpas e abrir mão de um de seus ministros mais importantes: Sacha Llorenti, então responsável pelo equivalente à Casa Civil no Brasil, el Ministerio del Gobierno. Além de ser um dos principais articuladores do governo (inclusive nas relações com o Brasil) e homem de confiança de Evo, Llorenti era o responsável pelas polícias, que na Bolívia ficam a cargo do governo federal.

Na avaliação do sociólogo Eduardo Paz Rada, da Universidad Mayor de San Andrés, o episódio coloca em xeque a reeleição de Evo Morales, o que era “impensável há alguns meses”. As agressões cometidas por policiais contra os manifestantes são injustificáveis, sobretudo num governo com características de respeito aos povos tradicionais. No entanto, é preciso ressaltar dois aspectos: a) há um envolvimento ainda mal explicado dos manifestantes com ONGs estrangeiras, que possuem interesses escusos na região; b) as imagens foram exploradas ao máximo pelos meios de comunicação de massa, que em seu conjunto representam interesses neoliberais, imperiais e neocoloniais – tudo aquilo que Evo Morales combate desde que assumiu o governo.

Como resultado, o presidente perdeu apoio em todo o país, sobretudo entre os setores de classe média. Os intelectuais mais otimistas da direita boliviana já falam em uma evolução da meia-lua (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija) numa lua crescente, incluindo setores de Cochabamba e de La Paz, que seriam tomados aos poucos durante a marcha dos indígenas das terras baixas.

Na disputa política, os exageros são naturais. A verdade é que não dá pra comparar a marcha de agora, que reúne centenas, talvez poucos milhares, com a marcha de 2008, que arrastou dezenas de milhares para garantir a aprovação da Nova Constituição Política de Estado. Foi um momento em que todo o movimento social se uniu ao governo. A marcha de agora não conta com o apoio de alguns dos setores mais combativos do povo boliviano, como as juntas vicinais e os sindicatos de El Alto e a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Indígenas da Bolívia – Bartolina Sisa.

Ainda não está clara a natureza dos recentes distúrbios nas terras baixas. Podem significar uma movimentação da direita imperialista ianque, que através de ONGs como a Usaid estaria manipulando insatisfações locais, o que atenderia aos interesses dos que não vêem com bons olhos a integração sul-americana. Nesse caso, devemos esperar novas ações articuladas no curto prazo. Por outro lado, podemos apenas estar diante de anseios legítimos dos indígenas, a defender a preservação do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis) – no que estariam plenamente amparados no novo texto constitucional boliviano, que reconhece a existência de 36 etnias e assume o caráter plurinacional do país.

Aliás, esse aspecto da constituição boliviana foi duramente criticado pela esquerda durante os debates realizados antes do plebiscito. À época dizia-se que estaria aberta a possibilidade de divisão do país e já se vislumbrava a participação de ONGs estrangeiras nesse processo. É a Bolívia, coração de Nuestra América, entre o divisionismo e a integração regional.

Seja como for, o momento é de cautela. Vamos acompanhar atentamente os marchantes das terras baixas, que prometem intensificar os protestos durante o processo eleitoral do próximo dia 16 de outubro, quando os bolivianos vão às urnas para votar, pela primeira vez, nos juízes que irão compor as 56 vagas dos tribunais superiores do país. Eis aí a prova de fogo para Evo Morales.

PS – uma pergunta misteriosa fica no ar. Por que repórteres brasileiros enviam seus relatos sobre a região amazônica boliviana desde Buenos Aires, se Mato Grosso ou mesmo Brasília estão muito mais próximos de onde ocorreu o fato jornalístico?

Marcelo Salles, jornalista, atuou como correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro (2004 a 2008), e em La Paz (2008 a 2009), no Twitter é @MarceloSallesJ


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