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por Rodrigo Vianna

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17 de agosto de 2011, 23h01

A Bolívia rebelde – muito antes de Evo Morales

Entrevistei Everaldo de Oliveira Andrade*, um dos maiores estudiosos do processo político boliviano no século XX. O historiador paulista é autor de 3 livros (o terceiro deles será lançado semana que vem, com um debate no Memorial da América Latina, em São Paulo), que nos ajudam a lembrar: as lutas sociais na Bolívia não começaram com as rebeliões indígenas comandadas por Evo Morales.

por Rodrigo Vianna

“As lutas sociais no Brasil não começaram com as greves do ABC”.

A frase, do velho Brizola, era uma provocação (e, ao mesmo tempo, uma lição de história) aos petistas que nos anos 80 disputavam com o PDT a hegemonia no campo da esquerda brasileira. Brizola gostava de lembrar que, antes de Lula e do PT, muita gente havia lutado contra as desigualdades no Brasil. Dos tenentes de 22, aos comunistas de 35. Dos trabalhistas varguistas nos anos 50, aos brizolistas de 61.  De Prestes, a Julião. Passando por Marighella, Lamarca e tantos outros.

Lembrei da frase de Brizola ao entrevistar Everaldo de Oliveira Andrade*, um dos maiores estudiosos do processo político boliviano no século XX. O historiador paulista é autor de 3 livros (o terceiro deles será lançado semana que vem, com um debate no Memorial da América Latina, em São Paulo), que nos ajudam a lembrar: as lutas sociais na Bolívia não começaram com as rebeliões indígenas comandadas por Evo Morales.

Everaldo lança, no dia 24,  “Bolívia: democracia e revolução – a comuna de La Paz de 1971”. Na entrevista exclusiva ao Escrevinhador, ele lembra:

A reação popular que levou Evo a presidência bebeu sim desta fonte histórica do passado, da comuna de 1971 e da revolução de 1952. É uma nova situação histórica também, fruto de uma poderosíssima reação popular contra o neoliberalismo e as privatizações que estavam acabando de liquidar o país na década de 1990. Privatizaram até o consumo da água das chuvas em Cochabamba! As reservas de gás e petróleo foram concedidas ás empresas estrangeiras ferindo a própria constituição do país. Evo Morales, um político nacionalista e carismático, representa esta reação indignada do povo boliviano e incorpora as experiências de luta popular do passado. Mas Evo está longe da radicalização revolucionária e socialista de 1971.”

Everaldo foi meu colega no curso da História na USP, no fim dos anos 80. Fomos também companheiros no movimento estudantil. Mas em tendências diferentes: eu, na época, mais próximo do que sobrava do velho PCB; Everaldo era militante do grupo trotskista “O Trabalho” – onde permanece até hoje.

A seguir, a entrevista, na íntegra.

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– Esse é seu terceiro livro sobre a Bolívia. O primeiro saiu pela editora Saraiva, em 2000 (“Revoluções na América Latina Contemporânea”). O segundo – de 2007, editora UNESP – integra a coleção “Revoluções do Século XX” e narra o episódio que ficou conhecido como “Revolução Boliviana” (insurreição popular de 1952). Agora, você se debruça sobre outro período: a comuna de La Paz em 71. Para aqueles que conhecem pouco a historia do país vizinho, quais os pontos de continuidade e as diferenças entre esses  episódios?

O que ocorreu na Bolívia em 1952 – uma insurreição popular de massa – foi uma reação a um longo processo de desgaste da oligarquia dos grandes mineradores de estanho e latifundiários, que governava o país como se fosse sua propriedade particular. Sucessivos governos militares reprimiam as demandas populares com a força das armas. A reação veio com  um forte movimento dos sindicatos mineiros e de movimentos indígenas e camponeses, influenciados tanto pelo moderado partido nacionalista MNR (Movimiento Nacionalista Revolucionário) como pelos socialistas de orientação trotskista do POR (Partido Obrero Revolucionário).

Em 1951, o MNR venceu as eleições presidenciais, mas uma junta militar impediu que o partido tomasse posse. No ano seguinte, em 9 de abril de 1952, o MNR tentou derrubar o governo com um golpe civil/militar que fracassou. Mas, o excepcional e surpreendente, uma daquelas gratas surpresas da História, foi o surgimento de um personagem coletivo. Milhares de trabalhadores anônimos e indignados tomaram as ruas, ocuparam as praças, invadiram os quartéis e sedes da polícia e derrubaram o governo de maneira quase espontânea. O exército desapareceu e o país foi tomado por milícias populares armadas.

– A essa altura já era uma revolução popular?

Sim, o MNR foi obrigado a assumir o poder em uma situação revolucionária e fora do seu controle. Os trotskistas do POR conseguiram iniciar a organização da central sindical COB, buscando rivalizar com o MNR com uma proposta socialista para a revolução. Bom, acho que já estou falando demais. Mas o fato é que o MNR conseguiu com muito custo “domar” os impulsos mais radicais. Com apoio dos EUA, reconstruiu o exército, nacionalizou as grandes minas mas dando pesadas indenizações aos antigos proprietário, iniciou uma lenta reforma agrária… Muitos militantes nacionalistas e de esquerda foram corrompidos pelo MNR nessa época. Essas limitações frustraram toda uma geração que se sentiu traída. Com o golpe militar de novembro de 1964, as poucas conquistas populares da revolução começaram a ser desmontadas.

Pode-se dizer que em 1971 com a Comuna de La Paz o que ocorreu foi um prolongamento e tentativa de se “completar” ou de se “retomar” – sem os erros do passado – a revolução de 1952, mas agora com uma intensidade muito maior.

– Por que voce escolheu a Bolivia como tema para seus estudos?

Posso dizer que um livro que me marcou muito mesmo antes de entrar no curso de História, bastante lido na década de 1980, foi “Se me deixam falar – um depoimento da mulher mineira boliviana”, de Moema Viezzer. Depois, na graduação e nas aulas de história da América do prof. Werner Altman, que debatia vivamente os temas da Revolução Mexicana de 1910, de Cuba em 1959 e da Nicarágua em 1979, a história boliviana e sua revolução “esquecida” foram citadas de passagem e me chamaram a atenção.

Posso dizer também que a presença de um partido trotskista com grande apoio popular na época aguçou ainda mais meu  interesse não só pelos temas da história boliviana como das ideias do revolucionário russo Leon Trotsky.

– O brasileiro costuma associar Bolivia com “atraso”, miséria – desconhecendo a forte politização naquele país. Muita gente se surpreendeu quando Evo Moralez ganhou a eleição e passou a governar com um programa de esquerda. Evo, de certa forma, é a continuidade desses processos que voce estuda em seus dois livros?

Infelizmente, ainda há muito desconhecimento e diria até preconceito com a Bolívia. Algo absolutamente injustificável se pensarmos que muito da miséria de grande parcela do povo boliviano é fruto de uma herança histórica terríivel. Um país com grandes reservas de prata na época colonial, de estanho até a década de 1980 e de gás agora, mas que foram explorados e levados em embora, saqueados do país. A reação popular que levou Evo a presidência bebeu sim desta fonte histórica do passado, da comuna de 1971 e da revolução de 1952. É uma nova situação histórica também, fruto de uma poderosíssima reação popular contra o neoliberalismo e as privatizações que estavam acabando de liquidar o país na década de 1990. Privatizaram até o consumo da água das chuvas em Cochabamba! As reservas de gás e petróleo foram concedidas ás empresas estrangeiras ferindo a própria constituição do país. Evo Morales, um político nacionalista e carismático, representa esta reação indignada do povo boliviano e incorpora as experiências de luta popular do passado. Mas Evo está longe da radicalização revolucionária e socialista de 1971.

– A Bolivia é um país com baixo índice de industrialização. Ainda asim, tem uma das centrais operarias mais tradicionais do continente, a COB. Como se explica. A COB segue sendo forte? Ou os movimentos indígenas e camponeses ocuparam o lugar da “central obrera”?

Como já disse, a COB é fruto direto da revolução de 1952, momento em que os trabalhadores mineiros ocupavam o centro da cena histórica. Isso se devia muito ao lugar na economia da exploração do estanho. Uma greve geral dos mineiros paralisava o país. Isso dava um poder político enorme aos sindicatos e aos partidos que possuíssem influência política entre os mineiros.

Na década de 1980, o MNR traçou um plano para implantar os planos do FMI (1986) que previam privatizações e fechamento de minas. O objetivo político era certamente liquidar o núcleo político de resistência dos mineiros e da esquerda boliviana. O “coração” da COB eram os mineiros sindicalizados. Por isso também se explica a demissão de dezenas de milhares de trabalhadores. Era para enfraquecer também a COB e seu poder de reação. Muitos deles migraram para o campo levando sua experiência sindical e de esquerda. Vários destes integraram-se nos anos 1990 aos movimentos camponeses e indigenistas.

É preciso também recordar que a COB integra sindicatos camponeses e o próprio Evo disputou sua presidência. A COB é uma central sindical de classe, busca representar a classe trabalhadora sem diferenças regionalistas ou mesmo étnicas. E isso de certa forma se choca com aqueles que buscam enfatizar disputas supostamente raciais, regionalistas, étnicas.

– Muita gente critica a posição de Lula no episódio da “nacionalização” do Petróleo promovida por Evo. A oposição e parte da imprensa brasileiras dizem que Lula foi “leniente” e que não defendeu o interesse brasileiro. Sei que não é exatamente seu foco na pesquisa, mas como vê aquele episódio?

Lembrando as bobagens que escreveram na época, fica a impressão de que muitos queriam que o governo Lula invadisse a Bolívia, aliás como fez de certa forma a ditadura brasileira para ajudar a derrotar a comuna de La Paz em 1971. É uma perigosa e reacionária visão de um setor da elite brasileira, representada por alguns  meios de comunicação com grande poder de formar opinião pública. E é uma visão curta, porque mesmo do ponto de vista dos grandes empresários brasileiros a Bolívia é um mercado altamente dependente de produtos industrializados, muitos fabricados aqui.

A Bolívia é um centro estratégico da América do sul e pensar de forma imediatista em relação a esse país seria um grande erro, penso que essa foi a reflexão do governo. A posição de Evo foi em grande parte coerente com seu programa de governo e o povo boliviano que havia derrubado dois presidentes por não defenderem os interesses do país na questão do gás esperava muito mais de Evo.

O povo brasileiro deveria não só ter apoiado a nacionalização boliviana, como feito o mesmo aqui e retomado a nossa Vale do Rio Doce. A escandalosa privatização do gás boliviano ocorrida nos anos 1990 só tem comparação com a entrega de nossas reservas minerais para grupos privados a preço de banana.

*Everaldo de Oliveira Andrade é historiador, formado pela USP; com mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo, atualmente é professor e diretor do curso de História da Universidade Guarulhos e professor na PUC-SP, além de integrar a diretoria da ANPUH – São Paulo.


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