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por Rodrigo Vianna

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05 de Maio de 2011, 12h03

Futebol-poesia: a utopia do Barcelona

Pier Paolo Pasolini falava, nos anos 1970, de um futebol praticado em prosa, o europeu, e de outro jogado em poesia, referindo-se ao sul-americano e, principalmente, ao brasileiro. Era a ideia de que, grosso modo, os europeus exerciam um jogo mais linear e finalista, enquanto os brasileiros jogavam de maneira digressiva e imprevisível.

por Felipe Carrilho

Pier Paolo Pasolini falava, nos anos 1970, de um futebol praticado em prosa, o europeu, e de outro jogado em poesia, referindo-se ao sul-americano e, principalmente, ao brasileiro. Era a ideia de que, grosso modo, os europeus exerciam um jogo mais linear e finalista, enquanto os brasileiros jogavam de maneira digressiva e imprevisível.

As recentes apresentações do Barcelona fazem ressurgir as proposições do consagrado cineasta, que também se aventurava no jogo da palavra escrita. Não são poucas as comparações que a imprensa esportiva vem fazendo entre o desempenho do time catalão e a magia do Santos dos anos 1960, de Pelé. O próprio treinador Guardiola já confessou a sua admiração pelo mítico escrete santista. Tostão, companheiro do Rei na Copa de 1970, recentemente escalou o craque Messi na sua seleção mundial de todos os tempos.

Mas os paralelos não devem parar por aí. O impressionante toque de bola do Barcelona remete também à atuação da seleção brasileira de 1982, comandada por Telê Santana. Para quem possa duvidar disso ou achar um exagero, basta acessar, por exemplo, as imagens da partida entre o Brasil e a Argentina, de Maradona, no youtube, para refrescar a memória. Depois de assistir, fica difícil evitar a expressão “futebol-arte”.

Há também exemplos na Europa. Historicamente, o futebol holandês talvez seja o que mais se aproxime do estilo de jogo aberto à poesia no Velho Continente. A profusão de improvisações táticas da seleção de 1974, resultando num futebol envolvente e imprevisível, ainda hoje é referência no esporte, mesmo com o título sendo conquistado pela Alemanha naquela Copa.

Todos os exemplos evocados colocam na marca do pênalti a velha questão do futebol que opõe a plástica do jogo à eficiência, como se o conteúdo de uma ação independesse da sua estética. O sucesso do Santos bi-campeão do mundo e do Brasil tri de 1970 mostram cabalmente a artificialidade ideológica dessa dicotomia. Do mesmo modo que os “fracassos” da seleção brasileira de 1982 e da holandesa de 1974 apenas reforçam a imprevisibilidade do futebol que é, ao mesmo tempo, a sua beleza e o seu veneno.

Para calar rotundamente os críticos do belo, o Barcelona terá de conquistar o Campeonato Espanhol, a Liga dos Campeões e o que mais vier pela frente. Aliar prazer e resultado. Essa é a sua utopia, essa é a verdadeira utopia do futebol.

Felipe  Carrilho é historiador e autor do livro “Futebol, uma janela para o Brasil – As relações entre o futebol e a sociedade brasileira”


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