escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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06 de agosto de 2010, 08h41

Afinal, a irresponsabilidade não tem limites

O jornalista, dramaturgo e escritor Izaías Almada passa a integrar o time de colunistas do Escrevinhador. “As ‘críticas’ e as questões levantadas pelo candidato José Serra, além de boa parte delas não incidir sobre problemas concretos da realidade brasileira atual, resvalam por caminhos surrealistas.” Leia o artigo na nova coluna “Reflexões”.

Por Izaías Almada

Semanas atrás escrevi um artigo em que externava a minha preocupação com o comportamento político do candidato presidencial José Serra, baseando-me – entre outros fatos – no seu destempero em tratar determinadas questões, como a crítica vazia ao MERCOSUL ou à sua alegada paternidade dos genéricos (finalmente desmentida), as afirmações ridículas sobre a febre suína. Como também não seria demais lembrar que, ainda governador de São Paulo, esteve distante da população dos bairros pobres e periféricos durante as últimas enchentes na capital do Estado, a sua política de incentivar a construção e terceirização de inúmeros e custosos pedágios pelo interior, a falta de diálogo e a repressão aos professores estaduais, a confusão provocada entre a polícia civil e militar em decorrência dos baixos salários pagos, etc.

Eu mal poderia supor que o assunto em questão, a que procurei caracterizar como uma postura eleitoreira que tocava o limite da irresponsabilidade (parafraseando um dos integrantes do governo de Fernando Henrique Cardoso), mas ainda assim eleitoreiras, pudesse assumir formas de um realismo até por mim insuspeito. O artigo – apesar dos exemplos – deixava margens a que os leitores refletissem sobre as questões levantadas e, mais do que isso, pudessem até discordar com sua própria reflexão pessoal entendendo que tal comportamento correspondesse apenas a um momento de deslize verbal ou conceitual do candidato sobre os temas levantados. Enganei-me. Fui superado pelos fatos.

O lamentável é que fui surpreendido pelo pior. O espetáculo da escolha do seu vice, com as agressões, ameaças, palavrões, chantagens, todas elas expostas pela mídia ou em twitters e blogues pela internet, constituiu-se num festival de mediocridades e desatinos políticos, como se o Brasil não merecesse, afinal, respeito por parte daqueles que pretendem governá-lo (e alguns até já governam, em outros níveis, infelizmente). Desmontado o circo da escolha do vice, indicado que foi um inexpressivo deputado do Rio de Janeiro, o que para muitos pareceu mais uma punição a José Serra por não respeitar a coligação com os Democratas (sic), e passada a euforia pelo final da Copa na África do Sul, o país preparou-se para a arrancada da campanha presidencial.

E aí, caros leitores, aquilo que parecia o destempero de um candidato inseguro por não ter avançado nas pesquisas, mesmo as manipuladas, antes da largada oficial, deixou de ser um “ajuste” nas peças e engrenagens para a difícil caminhada até outubro, transformando-se, ao que parece, num plano de marketing político, seja lá o que isso queira dizer, nas circunstâncias em que vão acontecendo no dia a dia da campanha oposicionista. A começar pelo próprio vice, que pisou na bola em sua primeira entrevista.

As “críticas” e as questões levantadas pelo candidato José Serra, além de boa parte delas não incidir sobre problemas concretos da realidade brasileira atual, resvalam por caminhos surrealistas, como essa questão das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), por exemplo, deslocada no tempo e no espaço.

A não ser que se veja no episódio uma tentativa de parte da direita latino americana de requentar notícias do passado, submetendo-se a uma estratégia que tem origens em Washington, o que interessa o tema ao eleitor brasileiro? O que sabe ou até que ponto está a maioria dos brasileiros interessada em saber sobre as FARC’s? Aliás, seria preciso perguntar ao próprio Serra o que ele sabe sobre as FARC’s, além daquilo que repetem alguns jornais ou programas de televisão?

O tema, em si, é irrelevante e desloca o assunto ‘eleições’ para determinados campos de discussão que a maioria do eleitorado não tem conhecimento. Ou não está interessado. O problema da luta interna na Colômbia, que já dura há sessenta anos pelo menos, só diz respeito ao povo colombiano. E, sobretudo, existem fóruns sul americanos e internacionais para tratar do assunto, caso extrapolem as fronteiras do país…

E a questão do salário mínimo? Serra diz que seu governo aumentará o salário mínimo quando “isso for possível”. Mas o salário mínimo não é garantido pela Constituição? O seu aumento, até como simples correção inflacionária, não seria uma conseqüência natural dessa garantia? E as apropriações de Serra a realizações pessoais que não foram suas, como algumas denunciadas por sindicatos de trabalhadores no estado de São Paulo? O ato falho em pedir desculpas a um repórter da Rede Globo de televisão antes de responder a uma pergunta sobre assunto indigesto ao próprio candidato?

Aproximamo-nos da fase televisiva da campanha e, enquanto a candidata Dilma Roussef apresenta-se ao eleitorado nas ruas, praças ou auditórios, com propostas a serem discutidas junto aos seus simpatizantes e prováveis eleitores, o candidato da oposição, em solenidades de inexpressiva presença popular até agora, continua a invectivar com críticas, a maioria delas longe dos problemas do dia a dia da sociedade brasileira, como a tal “filantropia” feita pelo governo brasileiro aos governos do Paraguai e da Bolívia em questões energéticas.

Contudo, o que mais chama a atenção, quanto a mim, nesse momento da campanha, não são as críticas agressivas que o candidato da oposição faz ao governo do presidente Lula e à sua candidata, mas a maneira destemperada e grosseira como elas são feitas. A postura e a arrogância do candidato, quando são pronunciadas.

Seu emagrecimento físico no dia a dia, seu olhar perturbado, seu nervosismo ou falta de jeito para conversar com jornalistas ou populares, a dificuldade em expressar o próprio pensamento, sua insensibilidade para com os aliados. A tática de comparecer apenas a “debates” onde a mídia lhe é favorável e conseguir desculpas para não comparecer a um debate como o da SBPC, por exemplo, com a presença de outros candidatos.

A lista seria interminável se fôssemos especular um pouco mais. O que fica evidente, contudo, é a imagem de um candidato sem discurso afinado com o eleitor brasileiro, com uma campanha que começa a dar ares de coisa bolorenta, de passado, de uma prática eleitoral viciada, quando o Brasil real vai tentando mudar de cara, apesar dos inconformados, dos descrentes e dos pessimistas.

E se examinarmos melhor a imagem, muito provavelmente iremos identificar os primeiros traços de uma obsessão quase que paranóica: a busca pelo poder a qualquer preço, mesmo que para isso se arranje um discurso identificado com o que de pior existe na política brasileira, sul americana e mundial: a submissão incondicional à política de estado norte americana, aquela que não tem amigos, mas apenas interesses.

A campanha de Serra é velha, cheira a mofo, deixando transparecer aqui e ali um jeito de fazer política que – embora ultrapassado – insiste em permanecer (e talvez ainda permaneça por algum tempo entre nós, infelizmente) como um jeito brasileiro de fazer política. Mas esse jeito só mudará quando lutarmos para mudá-lo. Só muda quando somos confrontados com indícios de novidades. E esses indícios estão no ar, precisam ser captados pelos mais refratários ou pessimistas, mas estão no ar. É só ver o aumento do índice per capita no PIB, o aumento do consumo entre as classes C e D, o número de empregos com carteira assinada, o aumento de empréstimos para a casa própria, o programa “Luz para Todos”, o aumento mais significativo do salário mínimo, a descoberta do pré-sal e a garantia de que esta riqueza fique em mãos brasileiras, o fortalecimento de uma infraestrutura menos dependente do capital internacional, enfim todas essas questões que tocam as famílias de baixa renda e a uma parte expressiva da soberania nacional.

“Só que à custa da corrupção”, dirá a direita enraivecida, sem se olhar no espelho. “O programa ainda é neoliberal na sua essência” gritará a esquerda purista. Para a direita, recomendo que comprem um espelho e analisem bem as contradições do sistema capitalista e onde se insere o quesito corrupção. Para os companheiros da esquerda purista, gostaria de lembrar alguns escritos de um grande pensador alemão do século XIX, que escreveu sobre as possibilidades de superação do capitalismo, construindo-se um novo sistema de produção e uma nova economia: dizia esse pensador que esta transformação estaria madura nos países capitalistas mais avançados, onde os trabalhadores – sujeitos dessa transformação – teriam mais condições de sobrevivência e de capacidade para pensar, desalienando-se.

Muitos já não acreditam nessas utopias, embora tenham dado a impressão de acreditarem nelas no passado. Esses, em nome dos tempos modernos, do “fim da história” e do rearranjo muitas vezes aleatório das forças produtivas e na defesa de privilégios antigos e que apenas trocam de nomes de tempos em tempos, têm a presunção de que estão no caminho certo e, mais do que isto, têm a obsessão do poder para assegurarem a manutenção de tais privilégios. E, se for possível, tentarão ultrapassar os limites da própria irresponsabilidade.

Todo cuidado é pouco… Como já disse alguém um dia, em outras circunstâncias: o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Izaías Almada é escritor, dramaturgo e roteirista cinematográfico,É autor, entre outros, dos livros TEATRO DE ARENA, UMA ESTÉTICA DE RESISTÊNCIA, da Boitempo Editorial e VENEZUELA POVO E FORÇAS ARMADAS, Editora Caros Amigos.


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