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por Rodrigo Vianna

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03 de junho de 2011, 09h40

América do Sul frente à tormenta global

Por Raúl Zibechi: O debate em curso sobre a sucessão de Dominique Strauss Kahn ensina como as potências do Norte pretendem congelar o mundo de 1944, quando foram firmados os acordos de Bretton Woods e criaram o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Naquele momento, o PIB dos Estados Unidos era ao redor dos 50% do mundial e nesta década cai abaixo dos 20%.

América do Sul frente à tormenta global
Por Raúl Zibechi, no Alai-AMLatina. Traduzido para Diário Liberdade por Lucas Morais

O debate em curso sobre a sucessão de Dominique Strauss Kahn ensina como as potências do Norte pretendem congelar o mundo de 1944, quando foram firmados os acordos de Bretton Woods e criaram o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Naquele momento, o PIB dos Estados Unidos era ao redor dos 50% do mundial e nesta década cai abaixo dos 20%.

O Norte parece disposto a negligenciar a demanda dos países emergentes. O Brasil disse, pela boca do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que o candidato deveria ser designado somente até fins de 2012 para “ter um tempo maior para amadurecer a sucessão”. Zhou Xiaochuan, governador do Banco Central da China, disse que o FMI deve “refletir melhor as mudanças na composição econômica mundial e os mercados emergentes” (Diário do Povo, 24 de maio).

Para além dos discursos para o grande público, as elites mundiais vão cobrando clara consciência do que está em jogo, apesar das declarações e malabarismos dos políticos. Quando falam para “seu” público, não ocultam nem um pouco a realidade. É o caso de David Wessel, editor de economia do The Wall Street Journal, o diário mais próximo das altas finanças. Começa sua coluna semanal do dia 19 de maio com uma frase que resume a conjuntura histórica que atravessamos: “Os impérios não costumam sucumbir de um dia para o outro. As velhas potências não abdicam de suas regalias. E as que ascendem não conseguem exercer o poder agilmente”.

Wessel diz que o costume de que um europeu dirija o FMI e um estadunidense o Banco Mundial, “é uma tradição arcaica, senão ilegítima”, consequência de que as instituições globais “ainda não se ajustaram ao peso dos países emergentes”, já que a Europa e os Estados Unidos são relutantes em aceitar “um mundo que não dominam mais”. Em sua opinião há dois cenários possíveis adiante. Um com final feliz, no qual as grandes economias cooperem mutuamente sem que os países desenvolvidos travem a ascensão dos países emergentes. Seria o melhor para o mercado.

O segundo cenário, é uma repetição ampliada do sucedido na primeira metade do século XX: “As décadas posteriores à Primeira Guerra Mundial foram marcadas pela incapacidade das potências em decadência e em ascensão de estabilizar a economia global e criar instituições funcionais; o resultado foi a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial”.

A única novidade desta análise é que o meio no qual foi publicado, que revela que as elites financeiras preferem um “final feliz” e que sabem que uma nova hecatombe militar-humanitária não seria capaz de fazer retroceder a flecha do tempo. Mas as elites financeiras não jogam sozinhas, nem sequer nos salões do grande poder, onde convivem com políticos e militares, com quem tem relações estreitas e mútuas interdependências.

Uns e outros sabem que o último prognóstico do Laboratório Europeu de Antecipação Política, em seu boletim mensal do dia 17 de maio, não é uma previsão de lunáticos, mas a advertência do instituto que acertou com maior precisão a cadeia de sucessos que vem se dando desde 2007: “Agora se reúnem todas as condições para que o segundo semestre de 2011 seja o teatro da fusão explosiva das duas tendências fundamentais que subjazem na crise sistêmica global, a desarticulação geopolítica e financeira globais”.

O catalisador desta “fusão explosiva” é o sistema monetário internacional, “ou melhor, o caos monetário internacional que se agravou ainda mais desde o desastre que afetou o Japão em fevereiro”. Por essa razão, a luta pelo poder no seio do FMI não é ociosa, mas um dos principais reveladores do tanto que está em jogo. É arquitetura mestre do sistema-mundo, ou seja, a relação centro-periferia, a que está em questão. Trata-se de uma relação com cinco séculos de antiguidade, anterior inclusive ao capitalismo e as revoluções industriais, que fez possível a hegemonia do Ocidente que agora está virando rumo a Ásia e ao Sul. Desde o ponto de vista histórico, é um terremoto maior ainda que uma improvável crise do capitalismo.
Sucede que esse mundo emergente está começando a fazer uma marca. A aliança BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) exige que, se o FMI quer ter credibilidade e legitimidade, deve aceitar uma representação mais adequada dos países emergentes, não só dos cinco mencionados. “O próximo diretor não só deve ser uma pessoa altamente qualificada, com sólido background técnico e capacidade de articulação política, mas comprometido em continuar o processo de mudanças e reforma da instituição para se adaptar às novas realidades da economia mundial”, diz o comunicado que rechaça uma eleição com base na nacionalidade.

Para os países sul-americanos, o momento é propício para aprofundar a unidade, mas está, por sua vez, atestado de riscos. A inauguração do Centro de Estudos Estratégicos da Defesa da UNASUL, no dia 26 de maio em Buenos Aires, mostra que o caminho da integração e da unidade política segue adiante, apesar da formação da Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile) semanas atrás. É uma boa notícia em momentos no qual o clã Fujimori pode regressar ao poder no Peru, quando alguns projetos estratégicos como o Banco do Sul estão estancados, e outros, como o Gasoduto do Sul, parecem ter sido arquivados.

A crise no FMI, como revelador da profundidade da crise sistêmica, ensina que os tempos se aceleram e que o desafio de posicionar a região sul-americana no cenário global não pode esperar tempos melhores: produzir-se-á em meio à tormenta ou não será.

Raúl Zibechi é jornalista uruguaio, é professor e investigador na Multiversidade Franciscana da América Latina, e assessor de vários coletivos sociais.


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