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por Rodrigo Vianna

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01 de agosto de 2011, 13h09

Bolívar, Chávez e o bolivarismo: 200 anos depois

Do Sul 21: Talvez nenhum líder político nascido no século XVIII tenha tanta presença em nossos dias quanto Simón Bolívar, nascido em 1783 em Caracas, na Venezuela, e morto em 1830, há 181 anos, em Santa Marta, na Colômbia. O homem que é a inspiração de Hugo Chávez foi notícia recente e não apenas por seu aniversário, transcorrido no último domingo (24), mas pela exumação de seu cadáver. Na Venezuela bolivariana persiste a discussão sobre se Bolívar teria sido assassinado.

Bolívar, Chávez e o bolivarismo: uma transformação de quase 200 anos
Por Milton Ribeiro, no Jornal Sul 21

Talvez nenhum líder político nascido no século XVIII tenha tanta presença em nossos dias quanto Simón Bolívar, nascido em 1783 em Caracas, na Venezuela, e morto em 1830, há 181 anos, em Santa Marta, na Colômbia. O homem que é a inspiração de Hugo Chávez foi notícia recente e não apenas por seu aniversário, transcorrido no último domingo (24), mas pela exumação de seu cadáver. Na Venezuela bolivariana persiste a discussão sobre se Bolívar teria sido assassinado – hipótese defendida por Hugo Chávez – ou não. Os últimos estudos não chegaram a uma conclusão sobre a causa da morte.

“Os resultados obtidos não permitem conhecer as causas da morte e, menos ainda, respaldar as teorias de assassinato, ainda que a possibilidade de envenenamento por arsênico ou cantaridina tenha ficado em aberto”, declarou o próprio vice-presidente da República Bolivariana da Venezuela, Elías Jaua. Seus restos foram exumados por ordem do 19° Tribunal de Controle de Caracas e a televisão venezuelana transmitiu a abertura do túmulo. Ou seja, Bolívar é assunto de debate permanente no país.

O novo mundo deve estar constituído por nações livres e independentes, unidas entre si por um corpo de leis em comum que regulem seus relacionamentos externos.” – Simón Bolívar

A citação acima é um das mais caras a Hugo Chávez e ao bolivarismo atual – ela fala de nações livres, fora da influência das metrópoles da época; também fala em nações independentes politica e economicamente; além disso refere-se a uma união entre elas, como os atuais blocos econômicos.

O historiador Alberto Garrido – considerado o maior especialista em “Revolução Bolivariana”, autor de 12 livros sobre o tema e falecido em 2007 -, dizia que o novo bolivarismo buscava conciliar uma democracia participativa com um partido civil-militar de esquerda e que esta era uma ligação ou reinterpretação muito própria dos fatos e das intenções de Simón Bolívar, herói das guerras de independência da Venezuela, Colômbia, Panamá, Equador, Peru e Bolívia (assim nomeada em sua homenagem).

Segundo os bolivaristas, El Libertador teria sido não somente um líder militar como um visionário e revolucionário. Seu sonho era o de transformar a América Latina numa confederação de países livres, unidos entre si por um corpo de leis comuns com a finalidade de tratar do comércio e de uma política externa comum. Em síntese, sua ideia era a de construir, no hemisfério sul, uma espécie de Estados Unidos da América do Sul. O mais perto que chegou disso foi a criação da Grande Colômbia, país estabelecido pelo Congresso de Angostura e existente entre os anos de 1819 a 1830. O país era constituído pelos territórios das atuais Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador, além de territórios que hoje pertencem ao Brasil, à Costa Rica, ao Peru e à Guiana.

O ponto de contato buscado por Hugo Chávez com Bolívar é basicamente o desejo de uma América Latina “livre e independente do domínio dos EUA”. Se ele não busca uma outra Grande Colômbia, busca parceiros, tendo chegado a presentear os presidentes Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Daniel Ortega (Nicarágua) réplicas da espada de Simón Bolívar.

O Prof. Dr. Jair Antunes, da UNICENTRO (Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná) critica as lideranças latino-americanas de esquerda que se colocam “sob o manto de Bolívar na perspectiva de um retorno continental da Revolução Bolivariana”. Para apontar a incoerência da esquerda, ele começa por citar o ensaio Bolívar e Ponte (1858), de Karl Marx. Para Marx, Bolívar é um falso símbolo da luta antiimperialista latino-americana. “Suas ações consistiam basicamente em proclamar a libertação nacional dos povos oprimidos contra o imperialismo sem, no entanto, alterar fundamentalmente as relações entre as classes sociais, quer dizer, sem alterar a estrutura sócio-econômica”.

Extremamente hostil, Marx ataca mesmo a abolição da escravatura no formato proposto por Bolívar. Ela não estaria relacionada a “uma consciência humanista do herói”, diz com ironia, “mas sim ao medo instalado na burguesia de uma possível revolta popular”. Marx cita uma carta de próprio punho que Bolívar endereçou a seu principal general, Santander, em 20 de abril de 1820. Na carta, Bolívar esclarece que a liberdade concedida aos negros que se alistassem no exército nacional não estaria vinculada à necessidade de aumento do efetivo do exército, mas sim “à necessidade de diminuição de seu perigoso número”. Assim, o recrutamento dos negros às fileiras do exército serviria para eliminá-los em combate.

O professor Jair Antunes afirma que nem mesmo Marx foi suficiente para que, no século XXI, a esquerda latino-americana abandonasse a e idolatria a Bolívar. “Ao contrário, essa esquerda o transformou em uma referência para a classe trabalhadora latino-americana, passando a inventar um Bolivarismo diferente, símbolo de toda uma suposta luta antiimperialista latino-americana”.

Segundo o discurso de Hugo Chávez, pronunciado em 19 de agosto de 2005 no “XVI Festival de la Juventud”, o bolivarismo seria bem diferente daquele retrato de Bolívar pintado por Marx. “A Revolução Bolivarista pode ser definida como um processo de transformação caracterizado por quatro macrodinâmicas: 1) a revolução antiimperialista; 2) a revolução democrática-burguesa; 3) a contrarrevolução neoliberal; 4) a pretensão de chegar a uma sociedade socialista do século XXI”.

O historiador Alberto Garrido afirma que Chávez mistura elementos históricos e políticos de momentos diferentes, tentando conciliar uma democracia participativa com um partido civil-militar de esquerda.

Segundo o professor de Sociologia e História Econômica no Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), Carlos Cesar Almendra, o bolivarismo de Chávez passa necessariamente por três figuras centrais: por El Libertador, ou seja, o próprio Simón Bolívar; por Simón Rodriguez, professor de Bolívar, que na década de 1820 defendia uma educação de caráter igualitária e uma América com sua própria identidade; e por Ezequiel Zamorra, líder popular do século XIX, inimigo das oligarquias e defnesor que os movimentos de camponeses e militares deveriam lutar pela reforma agrária e pela democracia direta.

O professor lembra que os três libertadores empreenderam suas lutas no início do século XIX, no período histórico em que as lutas progressistas na América Latina eram sinônimos de lutar contra a metrópole em favor da independência. Mais: os três libertadores são de um momento no qual a obra marxista sequer existia.

Um dos termos mais utilizados na política venezuelana é o da “união cívico-militar”. Seu foco central é, obviamente, o estabelecimento de uma aliança entre os militares e não-militares. Tais premissas baseiam-se em fatores realmente alienígenas ao Brasil. Ocorre que a formação dos militares venezuelanos é muito diversa da brasileira. Lá há membros do exército que são de direita, outros que são de esquerda e todos se manifestam. Os de esquerda vêem nas lutas da Coluna Prestes e na história pessoal de Luiz Carlos Prestes um referencial prático do engajamento militar nas questões políticas. Assim como há grande participação dos militares na vida política nacional, a figura lendária de Simón Bolívar é costuma ser frequente e cada vez mais invocada. Os ideais bolivaristas são fundamentais para o entendimento dos embates que se colocam na Venezuela, sobretudo porque não influenciam apenas os venezuelanos, mas o movimento guerrilheiro das FARCs na Colômbia através das ideias de Zamorra.

Para Pablo Uchoa, autor do livro Venezuela – A encruzilhada de Hugo Chávez, “a história do bolivarismo na Venezuela é também a história da esquerda traída deste país, uma esquerda que passou anos à margem da política negociada no Congresso e nas instâncias oficiais do poder. Parte dela veio se refugiar nos Andes na década de 1960, onde nasceram as primeiras células guerrilheiras inspiradas na revolução cubana. Assim nasceu uma ideologia que fundia o sonho de Simón Bolívar com as teorias socialistas”.

Ao mesmo tempo, o bolivarismo vai se aprofundando na sociedade venezuelana através do governo chavista que o cita pelos mais variados motivos. Outro fato a ser considerado é o sucesso dos chamados círculos bolivarianos. Estes são grupos organizados, formados sempre por um número entre sete e onze pessoas, que se reúnem para discutir os problemas da sua comunidade, canalizando-os para o órgão competente a fim de buscar soluções. Funcionam como pequenas assembleias populares em que se discutem problemas de interesse local e do dia a dia e a prestação de serviços comunitários. Eles foram criados para dar capilaridade à revolução, criando agentes de difusão que alcançam os pequenos recantos da sociedade”.

E, para dar capilaridade à revolução, “o único requisito para conformar um círculo bolivariano é compartilhar os ideias de Bolívar, sem importar sexo, nacionalidade, raça, religião, cor, estado civil, profissão ou ocupação”.


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