Danuza tem saudade do Rio sem túnel nem pobre

A Danuza Leão tem medo. Medo de pobre. Vejam o que ela escreveu, num jornal paulista, sobre as mudanças ocorridas no Rio de Janeiro nas últimas décadas: “(…) os carros se multiplicaram nas ruas, os ônibus também, foi aberta a linha vermelha, depois a linha amarela, os túneis se alargaram e foi aberto o Rebouças. […]

A Danuza Leão tem medo. Medo de pobre.

Vejam o que ela escreveu, num jornal paulista, sobre as mudanças ocorridas no Rio de Janeiro nas últimas décadas:

“(…) os carros se multiplicaram nas ruas, os ônibus também, foi aberta a linha vermelha, depois a linha amarela, os túneis se alargaram e foi aberto o Rebouças. Com isso a população itinerante da zona sul cresceu loucamente, e nos dias de hoje quem mora em Copacabana ou Ipanema não ousa dar um mergulho aos sábados e domingos por não ter lugar para passar, e por medo dos arrastões. A baixada da zona norte nas praias democratizou a cidade.
A tal ponto que sair para comprar um botão hoje dá medo, pois pode-se levar uma bala perdida na Visconde de Pirajá ou encontrar um “presunto” na porta de sua casa.
E quando as linhas do metrô chegarem a Ipanema e ao Leblon, o Rio vai ficar mais democrático ainda. E aí vai ser preciso mudar para o mato, pois não vai ter espaço para tanta gente.”

A Danuza Leão tem saudade. Saudade de quando o Rio (a zona sul, diga-se) era só da “turma” dela. Saudade de quando o Brasil era só da turma dela.

Guimarães Rosa dizia que “toda saudade é uma espécie de velhice”.

Há quem saiba ficar velho. E há os que resistem, plastificados e ranzinzas.

Os velhinhos e velhinhas da zona sul são uma das atrações do Rio. Há as senhoras enrugadas que seguem a frequentar a praia, sem medo de esconder o corpo. E há os senhores que se juntam nas redes de vôlei, já meio barrigudos: sabem rir das limitações físicas que a idade lhes impõe.

Mas, a Danuza não. A Danuza tem medo.

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Medo de comprar um botão. “Bala perdida na Visconde de Pirajá” (pra quem não sabe, trata-se da principal rua comercial de Ipanema) é culpa da turma da zona norte, é isso?

Danuza diz que o Rio ficou mais “democrático”. Democracia, pra ela, deve ser algo terrível.

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Acabo de publicar um texto sobre um velho sábio: Mario Benedetti, escritor uruguaio. Contei que o sorriso e a simplicidade do texto de Benedetti me cativaram – http://www.rodrigovianna.com.br/sopa-de-letras/a-prosa-comovente-do-uruguaio-mario-benedetti.

Quanto à Danuza, não sei o que me assusta mais: os artigos ou o sorriso dela.

São Paulo, quinta-feira, 09 de abril de 2009
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DANUZA LEÃO

O Rio sempre foi lindo, mas mudou COLUNISTA DA FOLHA

Até o início dos anos 50 a cidade era dividida entre as zonas sul e norte, ligadas só por dois túneis estreitos, que davam mão para um carro que ia e outro que vinha. E é preciso lembrar que os automóveis eram pouquíssimos, naquela época.
A classe média alta e os ricos moravam na zona sul, e dizer que morava na zona norte já dizia tudo. Havia um grande preconceito entre os dois lados da cidade, que aliás ainda existe.
Afinal, era na zona sul que estavam todas as praias, os cinemas, as meninas mais bonitas. E pegar um bonde para vir passear em Copacabana não passava pela cabeça de quem morava do outro lado da cidade (ônibus quase não havia).
Era bom morar na zona sul; além dos cinemas Metro e Rian – os únicos refrigerados -, depois do jantar as famílias saíam para dar um “giro” na calçada da praia, de braços dados, e atrás iam as filhas, de olho nos rapazes que ficavam de pé, em grupo, também de olho nelas.
Nesse tempo quem tinha carro deixava ele aberto, alguns até com a chave, e não havia perigo de nada acontecer. Quando as meninas saíam à noite tinham que chegar às 22h, nem um minuto a mais. E não podiam sair sozinhas, claro.
Mas o mundo se modernizou; os carros se multiplicaram nas ruas, os ônibus também, foi aberta a linha vermelha, depois a linha amarela, os túneis se alargaram e foi aberto o Rebouças. Com isso a população itinerante da zona sul cresceu loucamente, e nos dias de hoje quem mora em Copacabana ou Ipanema não ousa dar um mergulho aos sábados e domingos por não ter lugar para passar, e por medo dos arrastões. A baixada da zona norte nas praias democratizou a cidade.
A tal ponto que sair para comprar um botão hoje dá medo, pois pode-se levar uma bala perdida na Visconde de Pirajá ou encontrar um “presunto” na porta de sua casa.
E quando as linhas do metrô chegarem a Ipanema e ao Leblon, o Rio vai ficar mais democrático ainda. E aí vai ser preciso mudar para o mato, pois não vai ter espaço para tanta gente.