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por Rodrigo Vianna

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05 de dezembro de 2014, 12h31

Dilma e o mau exemplo de Hollande na França

Ao governar com o programa do candidato derrotado, Dilma põe em xeque seu mandato, o seu partido e a esquerda, asfaltando a volta triunfante dos detentores do projeto original do conservadorismo.

Por Miguel Stédile, especial para Escrevinhador

Por trás de tanto marketing e de uma polarização muito mais simbólica e emocional, as eleições presidenciais deste ano tiveram poucos debates programáticos.

Na verdade, apenas dois: a autonomia do Banco Central (no primeiro turno) e a política de ajuste fiscal. Essencialmente, a questão era: para onde vai a economia brasileira diante de uma recessão internacional que se aprofunda?

Um caminho é garantir que, mesmo com a crise, o capital financeiro vai manter suas estratosféricas taxas de lucro. O outro caminho aposta que o desenvolvimento não pode retirar direitos nem rebaixar conquistas sociais.

A disputa na campanha passou a aparência de que a segunda opção havia vencido as eleições. Porém, o anúncio da nova equipe econômica e os ajustes – ou melhor, arrocho – sob sua responsabilidade demonstram que, independente do resultado eleitoral, o projeto conservador é quem governará os próximos quatro anos.

O último esperançoso poderia – pensando em Nicolau Maquiavel – agarrar-se à ideia de que Dilma despejará de uma só vez o “saco de maldades” para distribuir gradativamente as bondades adiante. Mas essa opção não é possível.

Os dois mandatos de Lula combinaram uma política econômica ortodoxa com ganhos sociais, porque havia tanta liquidez internacional, atraída pela taxa de juros, que mesmo destinando uma parte desses recursos para programas sociais, os rendimentos do capital financeiro ainda eram altíssimos.

A conjuntura econômica mundial mudou, a voracidade do capital internacional aumentou e as margens de manobra diminuíram. Só é possível garantir a taxa de lucro do capital internacional se houver redução no investimento social.

É uma coisa ou outra.

Dessa forma, Dilma parece escolher o mesmo caminho do presidente francês François Hollande, sem aprender com as amargas consequências que o gabinete socialista tem enfrentado.

Hollande foi eleito com um discurso de oposição às medidas neoliberais do conservador Nicolás Sarkozy. Empossado, anunciou reformas de cortes de gastos públicos na ordem de 50 bilhões de euros, outros 100 bilhões em cortes trabalhistas e renúncia fiscal como vantagens para as empresas.

O prêmio Nobel de economia Paul Krugmann definiu a postura de Hollande como “rendição intelectual” e o classificou como parte dos “políticos molengas e confusos da esquerda moderada”, “cúmplices dos conservadores teimosos e desapiedados”. A ex-ministra de Sarkozy, Valérie Pecresse, decretou: “A direita ganhou a batalha das ideias”.

A opção conservadora de Hollande foi desastrosa. Conseguiu dividir seu próprio partido, expurgando três ministros contrários às reformas conservadoras e enfrentando a rebelião de um terço dos deputados do Partido Socialista desfavorável à política presidencial.

Com isso, o Partido Socialista foi atropelado nas eleições municipais deste ano, perdendo 151 cidades, enquanto a centro-direita conquistou 142 municípios e a extrema-direita vencia em 11.

Por fim, o governo já acumula dois índices vergonhosos: um recorde no número de desempregados – 3,3 milhões de pessoas economicamente ativas – e o pior índice de popularidade de um presidente na 5ª República, iniciada em 1958.

Os analistas franceses apontam que, na melhor das hipóteses, a centro-direita vencerá as próximas eleições presidenciais.

Não é exagero estabelecer um paralelo e imaginar que o segundo mandato de Dilma Rousseff possa desembocar no mesmo cenário. O candidato derrotado Aécio Neves já declarou que a opção conservadora demonstra que a oposição estava correta no diagnóstico e no medicamento.

Uma parte da população – seja de esquerda ou direita – já não havia identificado na candidata a capacidade de avançar nas mudanças necessárias.

Ao escolher o caminho conservador, Dilma afetará a credibilidade do PT e, por consequência, da esquerda, onde o seu partido ainda hegemoniza parte do imaginário popular.

O pior é que, ao se afastar do campo popular, se torna vítima da própria armadilha, cada vez mais refém do fisiologismo do PMDB e das exigências infinitas do capital financeiro. É possível que as ruas chamem a presidenta a prestar contas em novas manifestações ou nas próximas eleições.

A repetição da surdez teimosa de Hollande asfaltará o caminho para a volta triunfante dos detentores do projeto original do conservadorismo.


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