escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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19 de março de 2011, 15h33

Dilma, Obama e o pêndulo entre China e EUA

Sei que muita gente, na esquerda, incomoda-se com a presença de Obama. E há razões pra isso. Mas na economia há justificativas racionais para essa aproximação, que não significa alinhamento - como mostra o voto do Brasil na questão da Líbia.

Acompanho de perto a visita de Obama, como repórter da TV Record: estou em Brasília desde sexta, e nesse sábado à noite sigo para o Rio. Na capital federal, conversei ontem com o ministro Mantega e com especialistas em relações internacionais. E colhi algumas informações que gostaria de dividir com vocês.

Sei que muita gente, na esquerda, incomoda-se com a presença de Obama – o comandante em chefe de um país que, agora, ameaça invadir a Líbia. Mas acho que precisamos separar um pouco as coisas.

Estou entre aqueles que considerava descabido abrir a Cinelândia para um discurso de chefe de estado estrangeiro. A praça é um dos símbolos da democracia. E a democracia é brasileira. Nós respeitamos Obama, mas não votamos em Obama. Ele não é “nosso”  líder. Imaginem se o Brasil abrisse a praça da Sé para um discurso de Hugo Chavez? Seria uma escândalo na “Veja”, na “Folha”, um exemplo de submissão ao bolivarianismo. Mas com Obama estava todo mundo contente na velha mídia: dizem que o Luciano Huck ia ser o mestre de cerimônias. Tenham dó. Dilma não deveria ter permitido isso. Ainda bem que o discurso acabou cancelado, por decisão dos americanos – temerosos com a segurança.

Também me parecem descabidas algumas providências de segurança – desrespeitosas até. Como o caso da banca de jornal que os caras do FBI queriam tirar da Cinelândia. Ou a revista a que empresários brasileiros foram submetidos em Brasilia- detalhe, revista feita por agentes americanos, em território brasileiro!

Isso posto, queria falar da economia.

O Brasil hoje exporta mais pra China (30 bilhões em 2010) do que para os EUA (19 bilhões em 2010). Além disso, nossa balança comercial é deficitária com os EUA ( – 8 bilhões de dólares) e superavitária com a China (+ 5 bilhões de dólares). Conclusão: devíamos deixar os “imperalistas americanos” pra lá e nos aproximar cada vez mais dos chineses, certo?

Não!

O Brasil vende basicamente produtos primários para a Chiha (ferro, alimentos etc). E compra deles produtos industrializados. Essa parceria ajudou a economia brasileira a escapar da crise – enquanto EUA e Europa se afundavam na recessão – em 2008. Mas, a longo prazo, contar só com a China é uma cilada perigosa.

A tal “reaproximação” Brasil/EUA na gestão Dilma – vendida por parte da mídia como um “enterro” da suposta política terceiromundista de Lula –   nada mais é do que pragmatismo econômico.

Para a China não conseguimos vender bens industrializados. Nossa indústria não consegue concorrer com os preços chineses. Mas podemos vender bens industrias para os EUA. Precisamos dessa parceria, para não ver nossa indústria engolida pela chinesa.

EUA e Brasil podem ser – em alguns momentos – parceiros diante do avanço chinês. Por que não?

O Brasil deve utilizar com habilidade a rivalidade (econômica) entre EUA e China. Aliás, essa é a tradição da diplomacia brasileira. Mesmo nos governos militares, Geisel fez acordos com Alemanha. Sem dizer que Vargas ameaçou aderir ao Eixo para arrancar concessões dos EUA na industrialização dos anos 40/50. 

Lula pôs o Brasil em novo patamar. Não precisamos temer proximidade com os EUA. Viramos gente grande.

Até porque proximidade comercial não significa adesismo político – como mostrou o voto brasileiro na questão da Líbia (o Brasil se absteve, não seguiu a posição dos EUA, não chancelou o ataque à Líbia – e isso às vésperas da chegada de Obama ao Brasil).

No passado recente, nossa diplomacia (e nossa elite) tirou os sapatos para os EUA. Seria um erro tirar os sapatos para os chineses. Devemos utilizar as contradições entre as grandes potências, a nosso favor. No início do governo Lula, a hora era de aproximação com China. Agora, a hora talvez seja para um movimento pendular rumo aos EUA. Pode ser um movimento fundamental, para preservar nossa indústria da concorrência  predatória dos chineses.


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