escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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17 de novembro de 2014, 18h24

Dilma precisa incorporar empreendedorismo dos pobres e frações do capital industrial

Passou da hora de dotar as periferias de serviços públicos de qualidade. E, quanto à indústria, não dá mais para conviver com a estrutura de juros altos e câmbio irreal.

Por Marcelo Barbosa e Kadu Machado

Nesta eleição soou o dobre de finados para a sistemática de tutela inaugurada pelo PT e seus aliados em 2003.

Sem interrupção, por doze anos vigorou o método pelo qual governar é arbitrar os conflitos entre capital e trabalho em proveito do processo de acumulação de capital.

Um processo marcado, de igual maneira, pela inserção subalterna de demandas de setores de baixo da pirâmide social. Por muito que tal postura tenha produzidos resultados, inclusive a alguma redução dos níveis de concentração de renda, ao que tudo indica seus efeitos se acham esgotados.

Foram tantas as fissuras no bloco de forças montado para sustentar esta política, que causa surpresa o fato de a esquerda haver conseguido chegar à segunda volta do processo eleitoral este ano.

Ao final, apenas o seguimento diretamente beneficiado pelos programas sociais como bolsa família, nas classes D e E, permaneceu fiel à orientação política preconizada pelo Planalto. Curiosamente, essas áreas permaneceram imunes a qualquer efeito dos protestos de junho de 2013.

Já nas camadas sociais em vias de ascensão – novas florações da classe trabalhadora – os movimentos de junho deixaram marcas. As configurações de “empreendedorismo dos pobres” (geralmente marcadas pela proximidade com o universo confessional dos evangélicos), formaram entre os primeiros setores a recusar o sistema de arbitragem que funcionara tão bem na primeira década do século XXI.

Sua lealdade sucumbiu vitimada pela contradição entre o aumento da sua renda (estagnada a partir de 2012) e a ausência da oferta de serviços públicos nas áreas de educação, saúde e transporte.

Confrontado com as mobilizações, pais e filhos desse segmento adotaram atitudes diferentes: os jovens, fruto da criação de uma nova categoria de universitários propiciada por iniciativas como o Prouni, ocuparam as ruas nos protestos de ano atrás. Já seus pais exprimiram a sua discordância por meio da adesão ao discurso político de Marina Silva durante pelo menos todo o primeiro turno.

Outra dissidência espetacular deu-se no âmbito do capital industrial paulista. A tradicional divisão do segmento entre o fisiologismo e o oposicionismo deu um lugar a uma defesa em bloco, cheia de azedume, das candidaturas neoliberais, em particular a de Aécio Neves.

Nem a adoção de medidas por parte dos governos do PT e seus aliados como a redução de tarifas de energia, a desoneração do de IPI da indústria automotiva ou a concessão de empréstimos com taxas bem inferiores à Selic tiveram impactos sobre o humor dos industriais.

Em parte, todo esse ressentimento se explica pela tradicional posição do empresariado brasileiro, ideologicamente incapaz de subscrever um projeto de defesa dos interesses nacionais.

Os produtores de bens manufaturados, contudo, tem razão quando dizem que, nada obstante os esforços oficiais para tornar atrativa a indústria local, o câmbio e os juros praticados no país não favorecem a competição com países como os EUA, Japão ou mesmo Coréia do Sul. Ainda mais num momento de depressão generalizada do comércio exterior mundial.

As duas dissidências acima, a que se somam a inúmeras outras, receberam milhões de votos. Repita-se: quase empurraram o PT para fora do segundo turno.

O protesto flagra a insatisfação com um regime de arbitragem imposto à sociedade civil. Impõe-se uma mudança de método: a representação de partidos que dá sustentação aos governos cujo ciclo inaugurou-se em 2003 precisa abrir mão dos mecanismos de tutela sobre a cidadania e sair em campo para disputar o seu projeto (e é preciso que tenha algum).

Se não fizer isso, continuará frágil em vista da chantagem do capital financeiro e do agronegócio – que aliás, em seu escopo majoritário fazem campanha eleitoral para a oposição, qualquer uma.

A grande frente democrático-popular precisa urgentemente de ampliação. Necessita incorporar segmentos do empreendedorismo dos pobres e, pelo menos, de frações do capital industrial.

Com relação ao primeiro, passou da hora de dotar as periferias de serviços públicos de qualidade capazes de sinalizar a opção pela construção de um Estado de bem-estar. E, quanto à indústria, não dá mais para conviver com a estrutura de juros altos e câmbio irreal inaugurados durante o tucanato.

Fazer isso não é fácil, pois trata-se de criar condições para, aos poucos, com monitoramento da correlação de forças, romper com a atual política econômica, que é suicida, no médio e longo prazo. Se a regulação da mídia e reforma política são metas intermediárias para a conquista desse objetivo maior, que sejam bem-vindas.


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