escrevinhador

por Rodrigo Vianna

Fórumcast, o podcast da Fórum
22 de outubro de 2018, 10h12

Ditadura e cerco militar: de salto alto, Bolsonaro abre o jogo antes da hora e gera reações no STF e na mídia

Avaliação geral é de que Bolsonaro errou a mão. Ao anunciar que planeja prender e exilar opositores, pretendia espalhar medo e desorganizar o outro lado. Gerar pânico. Mas subiu no salto alto, ao falar cedo demais. Deixou claro, didaticamente, que o programa bolsonariano é a ditadura. Foi um tapa na cara dos iludidos: acordem! A reação de FHC, a fala do jornalista conservador William Waack, e a declaração do ministro do STF Celso de Melo - todos indignados com o avanço autoritário - são indicadores de que Bolsonaro abriu uma brecha para sensibilizar mais gente a votar contra o desastre.

Desde que a Lava-Jato adotou medidas ilegais para desconstruir o PT (conduções coercitivas fora da lei, grampos no gabinete da presidenta da República, escutas clandestinas em escritórios de advogados), estava claro que ingressávamos numa fase de Democracia tutelada, ou semi-Democracia – em que as regras valem para uns e não para outros.

Os juristas mais sérios e os liberais mais atentos somaram-se à denúncia – feita pela esquerda e os movimentos sociais – de que era preciso reagir aos abusos. A maioria, no entanto, deu de ombros.

Agora, ingressamos numa fase muito mais perigosa: nossa sociedade vive, já, sob tutela militar. Há um cerco militar contra as instituições. Cerco que pode receber a chancela do voto no dia 28. Quando o ministro Toffoli nomeia um assessor militar para o STF, esse cerco fica explícito. Quando a ministra Rosa Weber dá uma coletiva no TSE tutelada pelo general Etchegoyen, esse cerco fica escancarado.

Mais uma vez, muitos (na mídia, nos setores médios, no Judiciário e na universidade) davam de ombros diante do avanço claro do regime autoritário que tenta se impor com a chancela do voto: “Bolsonaro exagera, mas não poderá fazer nada fora do normal, porque terá que negociar com Congresso e respeitar o Judiciário”.

Opa, opa…

Os vídeos que surgiram neste último fim de semana antes do segundo turno deixam claro que o risco de um desastre é iminente. Bolsonaro filho (também conhecido como SubCoiso) diz que, para fechar o STF e destituir ministros do Supremo, “basta mandar um soldado e um cabo”. Bolsonaro pai avança mais em direção ao abismo e avisa num vídeo – gravado para apoiadores, neste domingo – que vai promover uma “limpeza nunca vista no país”, e que os “bandidos vermelhos” num governo dele irão para a cadeia ou para o exílio.

O candidato do PSL pode ter cometido um grande erro com a fala tresloucada.

A avaliação geral é de que Bolsonaro errou a mão. Era uma fala para espalhar medo e desorganizar os que a ele se opõem. Surtiria, de fato, forte efeito se tivesse vindo um dia após eventual vitória dele. Mas o salto alto fez com que Bolsonaro falasse agora o que só deveria dizer (na lógica autoritária dele) depois de eleito…

Deixou claro, didaticamente, que o programa bolsonariano é a ditadura (mais ou menos) escancarada. Foi um tapa na cara dos iludidos: acordem!

Ele nos abriu uma brecha. A reação indignada de FHC, a fala do jornalista conservador William Waack (mais detalhes aqui), e a declaração do ministro do STF Celso de Melo (mais detalhes aqui) são indicadores de que temos mais chance de sensibilizar setores arredios a um voto no 13. E que iam anular.

O desafio é, a partir desse horror que já se espraia nos setores médios “liberais”, transpor a indignação para o povão que ganha até dois salários mínimos.

Pode ser que não dê tempo…
Mas temos que fazer essa ofensiva agora para, ganhando ou perdendo, não nos encolher.

A tática dele é “tempestade no deserto”.
Deixar nosso lado atônito, amortecido diante do horror.

Temos que reagir.
Agora.

E nos próximos anos.

Ele nos abriu uma brecha.


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