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por Rodrigo Vianna

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26 de abril de 2011, 09h57

Dúvidas na política externa brasileira

Por Sergio Leo: É difícil falar com segurança que houve uma guinada sensível na política externa brasileira. A mudança de estilo é inegável: o gosto pelo improviso e aparições públicas de Luiz Inácio Lula da Silva deu lugar à dosagem homeopática de pronunciamentos da sucessora, Dilma Rousseff, o empenho elétrico em abrir frentes de ação nas esferas internacionais, puxado pelo ex-chanceler Celso Amorim, foi substituído pela ação discreta e comedida do novo ministro, Antonio Patriota, nas instâncias desbravadas pelo antecessor.

Dúvidas na política externa brasileira
por Sergio Leo, do Valor Econômico

É difícil falar com segurança que houve uma guinada sensível na política externa brasileira. A mudança de estilo é inegável: o gosto pelo improviso e aparições públicas de Luiz Inácio Lula da Silva deu lugar à dosagem homeopática de pronunciamentos da sucessora, Dilma Rousseff, o empenho elétrico em abrir frentes de ação nas esferas internacionais, puxado pelo ex-chanceler Celso Amorim, foi substituído pela ação discreta e comedida do novo ministro, Antonio Patriota, nas instâncias desbravadas pelo antecessor.

Houve, é claro, a nova ênfase em direitos humanos, provocada pessoalmente pela presidente ex-militante nos movimentos armados de esquerda durante a ditadura militar, presa e torturada pelos agentes de repressão política. A novidade traduziu-se em uma votação, na qual foi nomeado um relator para verificar possíveis abusos no Irã dos aiatolás. A determinação de Dilma levou o Itamaraty a uma reavaliação do modus operandi diplomático, que resistia a um engajamento brasileiro em condenações individualizadas e seletivas de países-problemas na comunidade internacional.

Não há ainda, porém, uma nova linha de ação nem disposição do governo em pautar as relações internacionais por ações sistemáticas em direitos humanos. Dilma visita a China a partir de hoje sem planos de mencionar a prisão e isolamento, há uma semana, do artista Ai Weiwei – um dos expoentes da vanguarda chinesa, crítico severo do regime, colaborador na concepção do estádio Ninho de Pássaro para a Olimpíada na China. Weiwei foi destaque da última Bienal de São Paulo, com a obra “Cabeças do Zodíaco”, uma crítica cifrada ao colonialismo ocidental, que será exibida em maio, em Nova York.

As autoridades chinesas, alvo de campanha de militantes de direitos humanos e governos ocidentais, acusaram o artista de “crimes econômicos”, após mantê-lo preso por quatro dias, sem informar seu paradeiro. Diferentemente do que houve em casos como o de Sakineh Ashtiani, no Irã, o governo nem reservadamente cogitou tratar do tema com autoridades da China.

“Por que Líbia, e não Bahrein?”, perguntava, em seminário da semana passada promovido pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e pela britânica Chatham House, o ministro de Defesa, Nelson Jobim. O ministro respondia a comentários sobre a abstenção brasileira na votação do bloqueio ao espaço aéreo líbio, citando outro país árabe onde governantes autoritários massacram a própria população – com a diferença de que, além de não ter o passado de apoio ao terrorismo do líbio Muammar Gadafi, os governantes do Bahrein hospedam a esquadra militar dos EUA no golfo Pérsico.

Aponta-se como indício de mudança na política externa o esforço de aproximação com os EUA. Declarações como a de Jobim, que ecoam outras feitas mais reservadamente no Itamaraty e no Planalto, mostram que a aliança com o governo americano é mais condicional do que se apreciaria em Washington. Afinal, os reparos a ações como as guerras no Iraque e no Afeganistão e a resistência a ações armadas não são, no Brasil, exclusivas dos partidos no poder.

Permanece na prioridade diplomática a política de “paciência estratégica” com arroubos protecionistas da Argentina, e de atenção generosa a vizinhos como o Paraguai, para quem se concedeu aumento em uma parcela dos pagamentos por Itaipu. Saíram apenas de cena as manifestações públicas de carinho a líderes polêmicos como Hugo Chávez. Mas o governo continua empenhado em inserir a Venezuela no Mercosul.

O Brasil conseguiu ter reconhecido seu papel de protagonista em decisões mundiais, em temas como finanças, comércio e ambiente, e não há dúvidas sobre o aumento do peso do país na economia mundial, como grande mercado, alvo estratégico de investimentos e gigantesco fornecedor de matéria-prima. Com a campanha ativa por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas o Brasil passou a receber cobranças para se engajar mais ativamente em ações como as da Líbia, ou o cerco diplomático ao regime iraniano.

É frequente entre diplomatas e autoridades estrangeiras uma pergunta ouvida no seminário de que participou Jobim: conquistada a cadeira nos centros de decisões mundiais, qual será a contribuição do Brasil? O país não fará o que as potências mundiais querem que faça, mas o que considerar correto, respondeu o embaixador Roberto Jaguaribe, atualmente na representação do Brasil em Londres.

O desafio do Brasil é concentrar-se em agendas nas quais “a competência do país na articulação de consensos pode desempenhar um papel”, comentou o ex-ministro de Relações Exteriores Celso Lafer, sugerindo prioridade para as agendas econômica e ambiental, após lembrar a tradição brasileira contrária a ações militares e em favor de solução negociada para conflitos.

Muitos sucessos na exportação de commodities brasileiras, um de seus trunfos na cena internacional, estão ligados a centros importantes de geração de tecnologia, como a Petrobras e a Embrapa, lembrou, no mesmo seminário, o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Carlos Márcio Cozendey. Um desafio para aumentar os recursos de poder do Brasil é aproveitar a demanda pelos recursos naturais para desenvolver tecnologias de ponta associadas a eles.

Não apenas na economia, ainda faltam ao Brasil instrumentos para assumir todas as responsabilidades que vêm com a maior presença do país nos centros de decisão mundial, apontou Cozendey. O país ganhou ingresso no clube das elites, mas ainda depende, para legitimar sua atuação, de pertencer à turma dos países em desenvolvimento, com os quais se assemelha em vários aspectos. Esse paradoxo será, ainda, fonte de muita crítica à política externa brasileira.


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