escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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01 de Maio de 2014, 00h03

E Dilma falou: tarde, mas não tarde demais

"Dizem que a valorização do salário mínimo é um erro do governo. E por isso defendem a adoção de medidas duras. Sempre contra os trabalhadores."

Dizem que a valorização do salário mínimo é um erro do governo. E por isso defendem a adoção de medidas duras. Sempre contra os trabalhadores. Nosso governo nunca será o governo do arrocho salarial, nem o governo da mão dura contra o trabalhador! (Dilma Roussef, rompendo o silêncio em rede de TV)

por Rodrigo Vianna

Dilma finalmente falou. Fez um discurso de estadista, para marcar o Primeiro de Maio. E ao mesmo tempo falou ao povo trabalhador, demarcando território com a oposição – principalmente com Aécio e os economistas tucanos que pregam o arrocho e o desemprego como medidas para “estabilizar a economia”.

O programa dos tucanos e seus parceiros midiáticos, na verdade, é retomar o Estado para controlar o Pré-Sal, reduzir direitos trabalhistas, reduzir o papel do Estado na economia, golpear programas sociais, acabar com o Mercosul, devolver Brasil à órbita de interesses dos EUA.

É a “mexicanização do Brasil”. Esse é o programa que tucanos, armínios, mervais, aécios e os locutores gagos da CBN e da Globo querem impor ao Brasil.

Em 2010, Dilma consolidou a vitória quando deixou a marquetagem de lado. E fez o debate aberto, duro, especialmente no segundo turno das eleições.

Em 2014, não é possível esperar. É preciso fazer o debate, agora. Até porque a máquina midiática está mais afiada do que nunca

Um amigo professor escreve, preocupado, pra descrever o que ouviu esta semana numa estação de rádio em São Paulo: certo blogueiro da “Veja” ocupa espaço nobre, para “entrevistar” um senador tucano sobre CPI da Petrobras. O amigo transcreve o diálogo entre blogueiro e senador (não é literal, mas vale pelo “clima” festivo e efusivo):

Aloysio – Isso mesmo, Reynaldo. Mas essa informação (sobre Petrobras) você já tinha adiantado no seu blog.

Reinaldo – Nada como ter o blog elogiado por um senador da República.

Aloysio – Gosto muito do seu blog, eu sou viciado nele.

Ah, os doces vícios… A doce convivência entre os tucanos e os blogueiros de extrema-direita. E há quem diga que os blogueiros de esquerda são chapa-branca…

Corta pra conversa com outro amigo, jornalista: “rapaz, a CBN está um escândalo; ouvi hoje à tarde o tal Sardemberg comentando a pesquisa CNT, ele comemorava. Depois entraram outros comentaristas, usaram aquilo pra levantar a bola do Aécio. Aliás, você já reparou que a oposição, os políticos de oposição, viraram segundo time? O primeiro time, que tem voz e comanda a oposição, é formado pelos colunistas e jornalistas conservadores. Já reparou?”

Sim. Eu já reparei. Sardemberg, o único locutor gago do rádio brasileiro, entrou pra essa turma há algum tempo.

A direita ocupou todos os espaços na comunicação. Disputa idéias o tempo todo. Bate, critica. Na verdade, sempre foi assim…

 Em 89, Lula sofreu esse massacre midiático. 2002 foi um ano atípico, porque a direita estava atordoada pelo fracasso de FHC. O PT, naquele início de governo, teria a chance de construir um campo alternativo de comunicação (Abril e Globo estavam às portas da falência). Não o fez. Em 2006 e 2010, o massacre midiático já havia sido retomado. Mas então havia Lula, a disputar cada centímetro no debate – pessoalmente.

Dilma fazia um governo extremamente silencioso. Permanecia calada. Sim, ela e Lula possuem estilos, escolas e qualidades muito diferentes. Mas na política não existe espaço vazio. Se Dilma não ocupa espaço, a direita ocupa – apesar de não ter projeto para a maioria dos brasileiros.

Por isso, a importância desse discurso de Primeiro de Maio!

Só que Dilma não pode falar um dia, e voltar a se encastelar em Brasília. O massacre midiático não será interrompido. É permanente. E os resultados começaram a surgir.

Há, sim, motivos concretos para alguma preocupação pelo que se passa na economia: estoques altos, juros em alta, inflação em ligeira alta. Ok. São fatos. Mas o clima de pessimismo que se espraia é absolutamente desproporcional aos indicadores principais no país: não há desemprego, a economia cresce pouco (mas cresce).

Há um “pessimismo induzido”, na definição do jornalista Janio de Freitas. Induzido pela máquina de comunicação conservadora.

A pesquisa CNT – divulgada esta semana – precisa ser vista com cuidado: ela é encomendada pela CNT, entidade que tem no comando o tal Clésio Andrade – político mineiro ligado a Aécio Neves, e acusado de envolvimento nos esquemas do valerioduto.

Mas não gosto de brigar com os números. A CNT mostra Dilma em queda (com 37% de intenções de voto). Mais grave: a popularidade da presidenta caiu abaixo dos 34% de ótimo/bom – considerado piso para quem deseja a reeleição.

Esses números estão em linha com outras pesquisas (Ibope, DataFolha, Vox Populi). O ponto fora da curva na CNT é Aécio – que surge com quase 22%. Nas outras pesquisas, o senador tucano tem 15% ou 16%. Hum…

A pesquisa cai como uma luva (não estou dizendo que tenha sido feita sob encomenda) para comentaristas e locutores da CBN – a radio a serviço de Aécio. A puxada do tucano pra 22% permite dizer que, na margem de erro, pode haver segundo turno. Ok. Todos sabemos que essa eleição é para dois turnos mesmo.

Mas o importante é observar que o massacre midiático surte efeito. E avança.

Muitos petistas parecem torcer  pra que Dilma chegue à Copa com 35% ou 36% das intenções de voto. Contam com o fato de que, durante 45 dias, o massacre seria interrompido – substituído pela bola no gramado. E depois, na campanha oficial, Dilma teria a chance de equilibrar o jogo midiático, mostrando suas realizações.

Em 2010, ao fazer a escolha por esse jogo burocrático, Dilma quase perdeu. Na primeira semana do segundo turno, pesquisas internas chegaram a apontar Serra a apenas 4 pontos de distância. Dilma consolidou a vitória quando partiu pra cima. Em 2014, isso é ainda mais urgente – repito.

Aécio tem palanques mais fortes nos Estados do que Serra tinha em 2010. E a militância petista parece menos disposta ao combate.

Dessa vez, não há margem pra errar. E Dilma já errou demais, especialmente nas escolhas para a política de Comunicação.

Por isso, o discurso de Primeiro de Maio (confira aqui, na íntegra) foi tão importante. A presidenta não pode esperar até a campanha oficial. Tem que reagir desde agora. E começou a reagir. Tarde. Mas não tarde demais.


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