escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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31 de março de 2011, 11h44

Jornal e ditadura: é melhor contar a verdade, Clarín

Do Nota de Rodapé: O diário argentino resolve reescrever a verdade ao narrar o bloqueio feito por sindicalistas a sua gráfica, e os jornais brasileiros embarcam na onda, cometendo uma falsificação indesculpável. O jornal argentino Clarín queixa-se que o governo da presidenta Cristina Kirchner incentiva ataques à imprensa ao não debelar o bloqueio feito na gráfica do diário.

É melhor contar a verdade, Clarín
por João Peres, no Blog Nota de Rodapé

O diário argentino resolve reescrever a verdade ao narrar o bloqueio feito por sindicalistas a sua gráfica, e os jornais brasileiros embarcam na onda, cometendo uma falsificação indesculpável

O jornal argentino Clarín queixa-se que o governo da presidenta Cristina Kirchner incentiva ataques à imprensa ao não debelar o bloqueio feito na gráfica do diário. O piquete foi realizado entre sábado e domingo últimos pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT) e teve a intenção, segundo a empresa, de impedir a circulação de matéria desfavorável ao presidente da CGT, Hugo Moyano.

O maior diário do país vizinho reclama que o governo não cumpriu a tempo ordem judicial que determinava que se garantisse a distribuição da edição dominical. A ministra de Segurança, Nilda Garré, afirma que deu conta do que foi solicitado pelo Judiciário e que a liberdade de expressão não foi afetada.

Até aí, difícil dar fé à versão de qualquer uma das partes, dado que a política da Argentina é das mais complexas de que se tem notícia. Independentemente do que tenha ocorrido, infeliz a declaração do editor de Clarín, Ricardo Roa, de que o jornal nunca passou por esse problema, “nem mesmo nos tempos de ditadura” – a versão de Roa é apoiada por editorial do jornal O Estado de S. Paulo desta terça-feira, 29.

Oras, Clarín, oras, Estadão, vamos falar a verdade: o jornal nunca deixou de circular nos tempos de ditaduras porque sempre as apoiou. Qualquer argentino se recorda ou viu na escola a fantástica capa de 4 de maio de 1982, que estampava “Já estamos ganhando”, numa alusão a um suposto triunfo na Guerra das Malvinas. “Porque lutamos por uma ideia grande, porque nossos soldados a estão defendendo, porque agora todos sabemos apertar os dentes”, estampava a edição daquele dia, um clássico do “jornalismo”, rapidamente desmentido pelas mortes de soldados que sequer tinham o que comer no gélido sul do país.

Antes disso, no dia do último golpe, em 24 de março de 1976, o Clarín contava em letras garrafais: “Novo governo”. Na sequência, informava que “a prolongada crise política que aflige o país começou a ter seu desenlace nesta madrugada com o afastamento de Maria Martínez de Perón como presidente da nação.” O país ficou menos aflito nos próximos sete anos: 30 mil mortes e centenas de milhares de torturados, centenas de crianças raptadas e adotadas ilegalmente. Entre essas crianças, investigam os argentinos, figuram os filhos da dona do Grupo Clarín, a Rede Globo vizinha. Então, Clarín, convém não falsear a realidade dos fatos.

Indignação seletiva
A indignação seletiva é um fenômeno interessante. A Associação Nacional de Jornais (ANJ), que deveria representar as publicações impressas brasileiras, está em polvorosa com os ataques a seu fraterno Clarín. Afirmou que a atitude dos sindicalistas é “intolerante e antidemocrática” e acusa cumplicidade de Cristina Kirchner.Em outubro passado, quando a Revista do Brasil foi impedida de circular por decisão do Judiciário a favor do PSDB, a ANJ não deu um pio a respeito de intolerância ou ataque à democracia. Não entendi.


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