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por Rodrigo Vianna

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24 de novembro de 2011, 13h03

Egito: depois da primavera, o pesadelo árabe?

Do Operamundi: A revolução no Egito não acabou. Ela mal começou. A queda do presidente Hosni Mubarak, cujo julgamento muitos egípcios viram como um golpe de relações públicas, não fez nada para alterar a influência que o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF, na sigla inglesa) tem no poder, na economia e no processo político.

A Primavera Árabe do Egito irá se tornar um Pesadelo Árabe?
Por Omneya El Naggar, do Operamundi
Artigo originalmente publicado no The Nation,  tradução de Lucas Morais

A revolução no Egito não acabou. Ela mal começou. A queda do presidente Hosni Mubarak, cujo julgamento muitos egípcios viram como um golpe de relações públicas, não fez nada para alterar a influência que o Conselho Supremo das Forças Armadas (SCAF, na sigla inglesa) tem no poder, na economia e no processo político.

Aqueles que se uniram contra o regime de Mubarak, em frustração e raiva, se fragmentaram em campos antagônicos. Os islamistas de diversas matizes estão contra os secularistas em confrontos de ruas virulentos. A confiança e euforia que antes marcaram o levante estão caminhando para a desconfiança e a paranóia. E aqueles que buscam mudanças fundamentais e uma sociedade aberta chegaram à triste conclusão que nós temos um longo, um longo caminho a percorrer.

As tensões sectárias e religiosas que então fervilharam sobre a superfície da sociedade egípcia, mantidas  por um sistema de repressão brutal, incluindo a tortura e eleições fraudulentas, estouraram com fúria sobre o corpo político. Onde essas correntes nos levarão é o que qualquer um se pergunta. Mas a frustração crescente com o lento ritmo de reforma é uma dinamite política. Quanto mais o conselho militar usa ferramentas familiares de fraude, força e repressão para dominar a crescente dissidência, mais radical e antagonísticas a oposição será.

O SCAF, que tomou o controle em fevereiro com a queda de Mubarak, não conseguiu cumprir sua promessa de agendar as eleições parlamentares dentro de seis meses. Isso desviou o descontentamento público contra a performance do governo de transição do primeiro-ministro Essam Sharaf, bem como o descontentamento sobre sua decisão de meramente emendar a Constituição ao invés de esboçar uma nova antes das eleições, propagando temores alarmistas sobre ameaças à estabilidade do país.

As eleições parlamentares, agora agendadas para começar no dia 28 de novembro, não sinalizam qualquer esperança de estabilidade. O SCAF adiou as eleições presidenciais até que o novo Parlamento redija a Constituição, um processo que pode demorar um ano ou mais. E o cabeça de facto do país, Marechal Mohamed Hussein Tantawi, trocou seu uniforme militar por trajes de negócios e começou a falar como um candidato para o cargo, apesar de a liderança militar assegurar aos egípcios que não apresentaria um candidato presidencial.

Se as eleições são livres e justas – algo que permanece muito em dúvida – elas irão quase certamente mostrar a Irmandade Muçulmana ganhando pluralidade, talvez a maioria, dos assentos no Parlamento. Os militares sabem e temem isso. Entretanto, a Irmandade é demonizada por egípcios secularistas e países como Israel e os Estados Unidos, isto é, de fato, uma das alternativas mais moderadas e domáveis dentro do movimento islâmico.

Desde sua fundação em 1928, a Irmandade promoveu o da’wa, reformas sociais e participação política. Sua abordagem declarada é a não-violência (com raras exceções como a resistência à ocupação britânica e a tentativa de assassinar o presidente Gamal Abdel Nasser em 1954). A Irmandade tem perseguido esses objetivos secretamente, durante momento de repressão sob regimes militares, bem como abertamente, durante períodos de abertura política. Mobilizaram milhões de seguidores através de caridades, sindicatos e trabalhos sociais, e foram bem sucedidos especialmente nas áreas rurais. Nos últimos anos a Irmandade moderou algumas de suas reivindicações de longo prazo, como a aplicação da lei da Sharia, na tentativa de chegarem aos secularistas.

A Irmandade se apresentou logo após a queda de Mubarak como uma potencial força estabilizadora abrangendo o governo civil e os ideais democráticos e louvando o modelo de políticas islâmicas moderadas praticado na Turquia pelo partido que está no poder, o AKP [partido islâmico moderado e conservador, defensor de uma economia de livre mercado e do acesso da Turquia à União Europeia – N.T.].

Mas os militares, protegidos por Washington, parecem destinados a evitar que a Irmandade logre poderes políticos significativos, um movimento que pode não apenas desacreditar seu chamado pela não-violência, mas também dar poder a alguns grupos bastante perturbadores que têm aumentado em notoriedade desde a queda de Mubarak.

A liberação prematura da prisão de jihadistas proeminentes e outras figuras islâmicas radicais é lida agora como um movimento tático do SCAF para minar o poder da Irmandade, para dividir os eleitores islamistas e enviar uma mensagem aos secularistas que os militares precisam manter a estabilidade.

Mas o exército está jogando um perigoso jogo ao abrir espaço político para grupos radicais salafistas e jihadistas, que promoveram atos de violência no passado, incluindo uma rebelião nos anos 1990 na qual mais de mil pessoas foram mortas. Tais grupos receberam foram duramente golpeados no regime anterior. Quanto mais os militares se apegarem ao poder, mais esses extremistas, que se justificam erguendo seus muitos mártires, ganham em estatura e popularidade. Eles carecem da sofisticação e das habilidades organizacionais da Irmandade, mas eles desprezam o compromisso da Irmandade de uma mudança pacífica e sua chamada por uma coalizão ampla que incluiria os secularistas.

Mas os salafistas, que carregam bandeiras egípcias na qual eles acrescentam os símbolos de um governo islâmico, são disciplinados, firmes e resolutos. E eles aumentaram seu apelo para a maioria frustrada, especialmente dezenas de milhões que vivem em áreas rurais, subúrbios periféricos e cidades miseráveis, que esperavam que a remoção de Mubarak iria trazer um rápido fim ao desemprego, à fome e ao sofrimento.

Ao mesmo tempo, forças não-islâmicas estão perdendo bases em função de sua falta de organização e divisões internas. Muitos esquerdistas, secularistas e facções jovens de partidos políticos tradicionais, incluindo democratas pró-Ocidente, acreditam falsamente que eles possuem a revolução, talvez por serem tão proeminentes nos primeiros dias na Praça Tahrir. Eles estão abertamente desconfiados de todos os grupos islâmicos, incluindo a Irmandade, e sua arrogância e sentimento de presunção tem arruinado a possibilidade de coalizões.

O referendo nacional feito no dia 19 de março resultou em um sério golpe para a credibilidade desses grupos secularistas. Eles patrocinaram o “não”, rejeitando a proposta do referendo de eleições parlamentares imediatas, ao invés de apoiarem o estabelecimento de um conselho presidencial para tomar o poder dos militares e pavimentar o caminho para a criação de uma nova Constituição, seguida pelas eleições presidenciais e parlamentares. Mas apenas 23% do público votou “não”. Isso foi uma medida prematura da falta de unidade e visão comum dos secularistas e sua inabilidade para atrair o público egípcio.

Fragmentação
O Egito está se fragmentando. O Conselho Supremo das Forças Armadas; o governo de Essam Sharaf, que uma vez foi apoiado pelos manifestantes de Tahrir; a Irmandade Muçulmana; os Salafistas; os grupos Sufi; o Movimento 6 de Abril, que organizou milhares de jovens egípcios desde sua formação em 2008; as várias coalizões de jovens revolucionários, que foram criados após a revolução para dar voz às demandas da Praça Tahrir; os partidos de oposição do regime anterior; os partidos recém-estabelecidos – estes são peças em um mosaico político putrefato com deficiências e agendas oportunistas.

O país está tomado de teorias de conspiração, incluindo rumores persistentes de um golpe militar. O frágil entendimento de cristãos cópticos e muçulmanos está em cacos, quando radicais islâmicos incendiaram santuários cópticos e atacaram indivíduos cristãos. No dia 9 de outubro, confrontos entre o exército e manifestantes cópticos deixaram ao menos duas dúzias de moros e mais de 200 feridos.

O saque à Embaixada de Israel em setembro, quando os vândalos acharam documentos que confirmam a colaboração egípcia no endurecimento do cerco a Gaza, já havia desacreditado os militares. Mas a resposta do SCAF foi talvez mais arrepiante: imediatamente reintegraram leis de segurança emergenciais e levaram milhares de dissidentes suspeitos aos tribunais militares, onde longas sentenças de prisão são dispensadas rapidamente e sem o devido processo.

Aos olhos de muitos egípcios, é o velho regime de Mubarak sem Mubarak. O servilismo dos militares em relação a Washington, e estendendo-se a Israel, foi posteriormente exposto ao público egípcio quanto o conselho militar anunciou que iriam levantar o bloqueio a Gaza no fim de maio, mas sob pressão da administração de Obama continuou restringindo a passagem através da fronteira de Rafah. Há um pequeno apoio remanescente ao conselho militar, e é duvidoso que qualquer candidato aprovado pelos militares tenha alguma chance de vencer em eleições justas.

Ingerência dos EUA
O crescente desconforto de Washington com a revolução, à qual se opôs no passado e nunca empolgou os EUA, foi explicitado com a ajuda dada ao Egito pelos EUA de $1.3 bilhão por ano. O orçamento estipula que o fundo pode ser processado apenas se “o Secretário de Estado se certificar que o governo do Egito não é controlado por uma organização terrorista estrangeira”.

O secretário deve também afirmar que o Egito está “seguindo os passos para detectar e destruir a rede de contrabando e os túneis entre o Egito e a Faixa de Gaza” e insiste na continuidade de “programas de proteção fronteiriços e atividades no Sinai, com a expectativa de que os militares egípcios continuarão aderindo e implementando o Tratado de Paz de Egito-Israel.”

A decisão da administração Obama de distribuir espantosos $120 milhões para “promoção da democracia” no Egito e na Tunísia também deixa claro para os egípcios que, se os militares não forem bem sucedidos na administração das eleições para manter todos os grupos islâmicos longe do poder, Washington irá puxar o plugue dos bilhões em assistência estrangeira.


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