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por Rodrigo Vianna

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01 de outubro de 2014, 10h54

Distrito Federal: novela mexicana ou ‘nova política’?

Uma novela mexicana, com capítulos dramáticos e personagens clichês. As eleições para o governo do Distrito Federal (DF) são permeadas por narrativas de fazer inveja a qualquer roteirista de folhetim, com espetaculares reviravoltas.

Por Maria Mello, de Brasília, especial para Escrevinhador

Uma novela mexicana, com capítulos dramáticos e personagens clichês. As eleições para o governo do Distrito Federal (DF) são permeadas por narrativas de fazer inveja a qualquer roteirista de folhetim, dadas as suas espetaculares reviravoltas e arranjos que podem ser considerados pouco ortodoxos para processos políticos.

Menos de um mês antes das eleições, José Roberto Arruda (PR), então franco favorito nas pesquisas, teve o registro de sua candidatura negado pela Justiça Eleitoral, com base na Lei da Ficha Limpa. Em 2010, quando era governador, foi preso após a divulgação de um vídeo em que recebia maços de dinheiro a serem distribuídos a correligionários, na operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal.

Naquele ano mesmo ano de 2010, Joaquim Roriz (PSC) também teve o registro da sua candidatura negado pela Justiça. Em 2007, renunciara ao cargo de senador para evitar a sua cassação, após a divulgação da ligação telefônica em que negociava a partilha de um cheque de dois milhões de reais, de Nenê Constantino, dono da Gol, na esteira da Operação Aquarela, da Polícia Civil do Distrito Federal. No momento em que desistiu de sua candidatura ao governo do DF, as pesquisas o colocavam logo atrás do primeiro colocado, em um cenário simulado da disputa do segundo turno.

A alternativa de Roriz, à época, foi lançar a candidatura de sua esposa, Weslian, que seria derrotada por Agnelo Queiroz (PT) no segundo turno. Antes, ela havia obtido notoriedade nacional pela sua absoluta falta de traquejo para debater política, como no debate em que declarou querer defender “toda aquela corrupção”.

Ao sair da disputa em 2014, Arruda deixou no seu lugar Jofran Frejat (PR), seu vice, político experiente que participara da Constituinte e colaborara em muitos governos de Joaquim Roriz. Como vice, foi indicada a esposa de Arruda, Flávia, sem experiência anterior em eleições. Assim como no caso de Weslian, sua presença visa garantir o poder do marido num eventual governo, caso a sua coligação saia vitoriosa nos pleitos de outubro.PSB cresce na esteira de Marina

A saída de Arruda da cena eleitoral pulverizou as intenções de voto entre as candidaturas de Rodrigo Rollemberg (PSB) e de Jofran Frejat. O candidato do PSB, que tinha 18% no dia 10, pulou para 31%, segundo pesquisa Ibope divulgada no último dia 24. Frejat ocupa o segundo lugar, com 21%.

Se a pesquisa da última semana estiver certa (a disparidade entre os números apresentados pelas diferentes empresas de pesquisa nos últimos dias também contribui para compor o quadro sui generis da disputa no DF), Agnelo estaria fora do páreo, em terceiro lugar, com 19% dos votos.

Rollemberg, que já foi deputado distrital e atualmente é senador por Brasília, parece crescer na esteira da adesão dos brasilienses à candidatura nacional de Marina Silva – que chega a 34% das intenções do eleitorado local. Agarrado a um discurso de portador do “novo”, o aliado histórico do PT no Distrito Federal se afastou da legenda em 2012, seguindo a diretriz nacional de fortalecimento do PSB nos estados e da figura de Eduardo Campos para a disputa presidencial, o que conferiu ao candidato pessebista a pecha, justificável, de oportunista.

Rejeição ao PT

Também salta aos olhos o altíssimo índice de rejeição ao candidato petista, que chega aos 44 pontos percentuais entre a população – o maior entre todas as candidaturas do Brasil. Embora responsável por feitos importantes para o DF, como o enfrentamento à máfia dos ônibus, que sinalizou a possibilidade de retomada da construção de uma política pública de transporte coletivo adequada às grandes necessidades da população, e o reconhecimento de Brasília, pela Unesco, como “Território Livre do Analfabetismo”, a comunicação levada a cabo durante o mandato de Agnelo Queiroz teria privilegiado relações com os jornalões locais em detrimento da estruturação de uma política que permitisse o diálogo mais direto com a população, criando um fosso de difícil superação. A rejeição ao petismo por parte das classes médias e altas, além de denúncias de superfaturamento em obras como a do estádio Mané Garrincha, antes da Copa, também podem ter influenciado a composição da assombrosa estatística.

Embora herdeira (e, em vários aspectos, mantenedora) de uma cultura política eivada de vícios e ainda em consolidação – Brasília tem 54 anos e é território de disputas fortemente marcadas, de um lado, pela relação com a terra, e, de outro, pela especulação imobiliária -, a candidatura de Queiroz é, ao menos dentre os candidatos com alguma chance de vitória, a que mais se aproxima de um projeto progressista, mas corre o grande risco de ser suplantada pela onda Rollemberg.

Ainda que o petista supere Frejat no pleito do próximo domingo, o eleitorado de Arruda (quer dizer, de Jofran), mais à direita, enxergaria em Rollemberg, no segundo turno, um governante capaz de empreender aquela política que, de nova, não tem nem a roupa. Ao contrário das tramas mexicanas, essa história, aparentemente, não vai ter final feliz.


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