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por Rodrigo Vianna

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30 de junho de 2014, 10h06

Elite branca não sabe torcer para o Brasil; seleção terá que se acostumar

Por José Antonio Lima, no blog Esporte Fino

Mineirão, oitavas de final da Copa do Mundo, Brasil x Chile. No início da prorrogação, Hulk consegue um escanteio. Olha para a torcida brasileira, bate no braço como quem diz que tem sangue naquelas veias, pede vibração. Alguns respondem, mas muitos talvez não estivessem nem vendo o lance. Esse é um dos dramas da seleção brasileira no mundial que disputa em casa. Não há vaias, o que é bom, mas não há apoio firme, o que é péssimo. Será assim enquanto o Brasil estiver na disputa do título, e os jogadores precisam se acostumar com isso.

Como ocorre em todos mundiais, milhões de brasileiros viram torcedores, mesmo que não tenham visto uma bola rolar nos quatro anos anteriores. Para muitos, a Copa do Mundo não é o torneio esportivo mais importante do planeta, mas motivo de festa e confraternização. Por isso é tão comum observar, nas aglomerações onde os jogos são vistos, pessoas tocando corneta durante as partidas ou indo embora no meio delas. Não há problema algum nisso, pois cada um “torce” do jeito que bem entende.

O problema, para a seleção brasileira, é que nos estádios esse tipo de comportamento parece ser a regra. Uma quantidade enorme de frequentadores das arenas da Copa não está lá para torcer, mas para ver e ser visto, para se divertir, e eclipsa a minoria que comprou ingresso para apoiar a seleção. É comum ver pessoas “produzidas” no estádio; outras fazendo selfies com a bola rolando, algumas levantando para comprar comida aos 43 do primeiro tempo e muitas voltando do intervalo após o reinício do jogo.

No Mineirão, isso ficou claro. Mesmo diante do dramático jogo do Brasil, houve quem desejasse tirar foto com famosos entre o tempo normal e a prorrogação, quem sorrisse e vibrasse quando aparecia no telão no meio da batalha com o Chile e até gente filmando a disputa de pênaltis. Para essas pessoas, o importante não era apoiar a seleção, mas registrar o evento e poder dizer que esteve lá. É como se cada partida da seleção fosse um espetáculo do Cirque du Soleil.

É verdade que torcedores das 32 seleções agem assim. É verdade também que o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo fora de casa e, portanto, com pouca torcida. Mas é justamente por jogar em casa que a torcida era mais necessária.

Os 23 jogadores do Brasil convivem com a expectativa do título, mas ao mesmo tempo correm um enorme risco. Eles estão na fila para se tornarem os novos Barbosas. Um deles, talvez de forma injusta como o goleiro de 1950, pode ser “eleito” o culpado por uma nova derrota do Brasil em casa, que será falada pelos próximos 64 anos. Não é uma pressão pequena, e pode ajudar a explicar a clamorosa tensão do time e a intensa choradeira vista até aqui.

Nos momentos mais nervosos, a impressão é que a “torcida” do estádio, em silêncio quando o time mais precisa, vai iniciar o massacre se o time perder. No dia seguinte a uma eventual derrota, vários ali não estarão se importando, mas atacando os jogadores.

O assunto é sensível para a comissão técnica. Tanto é que o técnico Luiz Felipe Scolari vive agradecendo o apoio do torcedor, mesmo quando este não ocorre. Por óbvio, a preocupação é manter o público ao lado da seleção. Na noite de sexta-feira 27, Felipão foi além. Aceitou participar de uma constrangedora reportagem do Jornal Nacional na qual tentava instituir um novo grito de apoio à seleção. Não deu certo, talvez porque a “torcida” do estádio seja tão alienada em termos futebolísticos que nem mesmo acompanha o noticiário para saber quão ridicularizado é o “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”.

O que temos são estádios repletos de não torcedores com ingresso. Muitos não compreendem que futebol não é diversão, mas drama, e que apoiar o time mesmo nos momentos mais sofridos é a primeira cláusula do contrato que você assina na infância quando adota um clube, e que serve também para a seleção, para quem escolhe torcer por ela, em especial em uma Copa do Mundo.

É triste, mas é a realidade. A seleção brasileira não é a prioridade da torcida e não vai ser. Os jogadores precisam entender isso e buscar motivação e confiança dentro do grupo. Das arquibancadas, isso não virá.


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