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por Rodrigo Vianna

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01 de novembro de 2011, 19h47

Enquanto isso, na pequena Islândia…

Por Flavio Aguiar: Era uma vez um país pequeno, chamado Islândia. Ninguém conhecia muito do país mas de uma hora para outra o país ficou famoso. Porque se tornara a bola da vez, a menina dos olhos do ideário neoliberal. Foi uma festa, e uma glória! Quando as finanças internacionais derreteram em 2008, o país foi para o brejo...

Por Flavio Aguiar, da Rede Brasil Atual

Era uma vez um país pequeno, chamado Islândia. Ninguém conhecia muito do país, a não ser que ficava no círculo polar, tinha vulcões cujas cinzas de vez em quando fechavam o tráfego aéreo na Europa, e tinha muito pouca gente (uns 300 mil habitantes, menos do que quase todas as capitais brasileiras). Mas de uma hora para outra o país ficou famoso. Saiu em tudo o que é jornal. Por quê? Porque se tornara a bola da vez, a menina dos olhos do ideário neoliberal. Desregulara tudo na economia, sobretudo no setor financeiro. Foi uma festa, e uma glória! “Como a Islândia acertou”, cantavam todos os sabichões (pundits, em inglês) da mídia e da economia. Isso porque no nosso recanto, na América Latina, vicejavam aqueles “mofados” herdeiros do decrépito terceiro-mundismo, os nostálgicos do socialismo, os Lulas, Chavez, depois Evos, Correias, Kirchners, Tabarés, Mujicas, etc.

E o capital rolava, cantava e tocava a música para todos dançarem. Na Europa, então, foi uma correria: todos queriam ir trabalhar na Islândia. Não havia garantias, but who cares? Quem se importa? Tinham emprego, tinha din-din rolando para os bolsos…

Ocorre que assim como o sistema financeiro desregulado tragava dinheiro de todos os lados, ele acabou tragado também por todos os lados. Os três maiores bancos islandeses movimentavam números – em créditos e débitos – muito maiores do que a economia do país. Quando as finanças internacionais derreteram em 2008, os bancos islandeses viraram (ou fizeram) água, porque o Banco Central Islandês não teve como garanti-los diante da fuga de capitais dos bancos internacionais. O país foi para o brejo. Milhares de pessoas dormiram empregadas e acordaram desempregadas, assim, do dia para a noite e da noite para o dia. Sem direito a nada. Aí a frase ficou assim: era uma vez a Islândia…

A Islândia, de novo, era a bola da vez. Primeiro, veio o socorro do FMI. Com a receita habitual: arrocho, “austeridade”, coisas assim. O governo adotou. Em conseqüência, caiu. O novo governo, social-democrata (o primeiro em décadas) não rompeu com o FMI, mas recauchutou as medidas. Adotou seguranças para o novo sistema bancário. Fez uma devassa no setor, o que resultou até em processos e algumas detenções. Nada muito grave, mas serviu para mostrar que agora havia disciplina no pedaço. Além do FMI, a Islândia negociou novos empréstimos com uma pluralidade de países, Holanda, Rússia, França, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Polônia, Alemanha, Noruega. Recuperou o fluxo de capitais, mas de modo mais disciplinado. Com isso, a economia voltou a rolar. A dívida pública foi estabilizada em torno de 90% do PIB (antes da farândula financeira era de 30% do PIB; logo depois passou a mais de 120%). Mas a dívida externa total da Islândia, em 2008, incluindo o setor privado, era de 50 bilhões de euros (para efeitos de cálculo, porque a Islândia não pertence à Zona do Euro), sendo que seu PIB anual era de 8,5 bilhões… A Islândia se inscreveu para entrar na U. E. – mas não na Zona do Euro. A crise da dívida pública dos países dessa Zona, a partir de 2010, praticamente não a afetou. Ao contrário, a favoreceu. A economia islandesa está se recuperando. Segundo Paul Krugman no NY Times, em vez de encolher a rede de proteção social, a Islândia ampliou-a, mesmo com cortes na despesa pública. Sustentou o poder aquisitivo da população. Não fez, como a Zona do Euro força os gregos a fazer, os mais desvalidos pagarem a conta. Os empregos estão voltando. Gente que fugira com uma mão na frente e outra atrás em 2008 voltou com as duas mãos para a frente em 2011. Os três bancos que quebraram em 2008 foram estatizados, e parte de suas dívidas congeladas (é verdade que parte de seus ativos depositados fora, em particular na Holanda e no Reino Unido também foram congelados). Dois deles foram reprivatizados, mas o terceiro segue sob controle estatal. Todo o setor foi redisciplinado.

Por quê tudo isso? Porque a Islândia tem soberania sobre a própria moeda, entre outras razões. Porque seu Banco Central, ao contrário do Banco Central Europeu, tem um Tesouro que emite letras, toma e faz empréstimos, enfim, age como um banco. Em 2011 a economia islandesa é considerada, inclusive pelo FMI, como renascida. Já a da Grécia só vai renascer, se deixarem, em 2020, quando sua dívida pública vai ser reduzida a 120% do PIB, e está com uma economia moribunda.

Palavras de David Oddson, do BC islandês: “Se estivéssemos amarrados ao euro (…) teríamos de sucumbir às leis ditadas pela França e pela Alemanha”.

Como a Grécia, que amargou um ano e meio de desmazelo, e vai amargar mais dez de recessão “austera”, porque perdeu sua soberania (não só porque entrou na Zona do Euro, é verdade).

Mas agora a imprensa convencional não fala mais da Islândia. Afinal, ela não é mais a menina dos olhos do seu ideário. A Islândia ficou sem vez. Só tem, quando algum vulcão entra de novo no cenário.


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