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por Rodrigo Vianna

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09 de julho de 2014, 12h06

Goleada escancara crise e abre janela para reforma do futebol brasileiro

A Alemanha reformou seu futebol depois da derrota para o Brasil em 2002. Se depender dos nossos dirigentes, porém, o futebol brasileiro mudará não mudando. Mas o Bom Senso discute há um ano “um futebol melhor para todos”.

Por Daniel Cassol, em Impedimento

A Alemanha entendeu o Brasil. Ficou na praia, interagiu com as pessoas, vestiu Flamengo, publicou mensagens em português. Tanto entendeu que compreendeu que a goleada inapelável era a única forma de nos tirar da Copa.

Jogou limpo, para que não tivéssemos do que reclamar. Não nos venceu no fim da partida, para que não lamentássemos a derrota pelos próximos 64 anos. Foi um atropelamento amplo, geral e irrestrito. Que não culpa ninguém e nos obriga a tudo.

As derrotas de 1950 e de 2014 são acontecimentos diferentes. O Maracanazo foi uma tragédia, que doeu, pelo que se sabe. A goleada de 7 a 1 para a Alemanha é um vexame. Barbosa pagou pelo resto da vida por causa de um gol. A Alemanha nos deu logo sete. O que fazer com eles?

Em sua entrevista coletiva após a partida, Luiz Felipe Scolari não negou que a goleada tenha sido um vexame, assumiu a responsabilidade e declarou que este era o pior dia de sua vida, mas tentou limitar ao jogo todas as explicações para o fracasso. Quase ao mesmo tempo, em São Paulo, o técnico argentino Alejandro Sabella afirmava que a goleada sofrida pelo Brasil não tinha lógica e que o futebol é o esporte mais ilógico de todos.

O que aconteceu no Mineirão faz parte do futebol, no que ele tem de lógico e no que ele tem de absurdo. O Brasil montou uma estratégia errada, entrou perdido em campo, foi surpreendido por um gol e, atônito, foi atropelado. A Alemanha sabia o que fazer e, vendo que era possível, foi lá e fez. É do jogo. Ainda tentamos entender o que aconteceu e buscar explicações. Chegamos em casa e encontramos a porta arrombada e as coisas reviradas. Deveríamos ter deixado a luz ligada e chaveado a grade. A convocação foi ruim. O Brasil treinou pouco. Não se preparou para enfrentar a Alemanha. Esteve toda a Copa descontrolado emocionalmente. Tudo isso é verdade. E não importa mais.

O diagnóstico mais amplo já está sendo feito, embora ainda estejamos na fase de contemplar a tragédia sem saber exatamente o que pensar. A falta de ideias novas entre nossos treinadores. Categorias de base da seleção que funcionam ao sabor dos interesses empresarias e políticos. Um campeonato nacional de má qualidade. Uma confederação dirigida pelo que existe de mais arcaico no nosso futebol – e não há símbolo maior desse atraso do que a exposição da figura do presidente José Maria Marin.

Antes do começo da Copa, quando algumas figuras referentes do futebol tentavam se descolar de um eventual fracasso do evento, Carlos Alberto Parreira disse uma frase que sempre vai lhe acompanhar: “A CBF é um exemplo para o Brasil. É o Brasil que deu certo, que dá certo.” Não deu. E se olharmos para trás, veremos que o time do Brasil era o que menos estava pronto para a Copa do Mundo, em função de uma ideia e de uma estrutura que estão erradas.

A própria Alemanha reformou seu futebol depois da derrota para o Brasil em 2002. Se depender dos nossos dirigentes, porém, o futebol brasileiro mudará não mudando. Do Bom Senso FC costuma-se cobrar posicionamentos que o movimento não é obrigado a ter. Mas os jogadores discutem há um ano “um futebol melhor para todos”. Em maio deste ano, eles foram recebidos por Dilma Rousseff no contexto da rusga entre a presidente e a CBF. Dilma afirmou que um dos legados da Copa seria “a modernização da nossa estrutura do futebol e das relações que regem nosso esporte”. No momento, o Bom Senso FC é a principal articulação de ideias sobre a necessidade de reformar o futebol brasileiro. Algum protagonismo devem assumir agora.

Os sete gols da Alemanha servem para entendermos que não adianta apontar culpados específicos ou buscar explicações circunstanciais. Que a goleada histórica seja encarada como uma oportunidade de mudar tudo.


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