sábado, 26 set 2020
Publicidade

Ivan Seixas: “Tombamento é um marco”

Do Escrevinhador

O prédio do antigo DOI-Codi, localizado na Rua Tutoia, número 921, no bairro do Paraíso (SP), foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, de São Paulo (Condephaat), nesta segunda-feira (27/1).

O tombamento é considerado um triunfo para a luta dos defensores da memória, verdade e justiça pelos crimes da ditadura militar. As salas e corredores do edifício serviram de masmorra nos anos de chumbo.

Lá foram presos, interrogados, torturados e assassinados militantes que resistiram à ditadura militar. Registros do projeto “Brasil Nunca Mais” apontam que 1.843 pessoas foram torturadas no DOI-Codi entre 1969 e 1975.

Ivan Seixas, 59 anos, presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), apresentou a proposta de tombamento do local. “Não se pode apagar a história de nosso país, pois ela foi feita com muita luta e muito sangue. Derrubar prédios é a melhor forma de apagar a história”, afirma Seixas, em entrevista ao Blog Escrevinhador.

Seixas era um adolescente quando ficou preso e foi torturado no prédio da Rua Tutoia, em 16 de abril de 1971. Ele foi detido junto com o pai, Joaquim Alencar Seixas, que foi assassinado nos porões da ditadura.

Atualmente, o edifício é sede do 36º Distrito Policial, mas o projeto é criar no espaço um memorial sobre os horrores da ditadura e em homenagem à luta dos mortos.

Abaixo, leia entrevista de Seixas sobre o tombamento.

Qual o significado político do tombamento do DOI-Codi? O Presídio do Carandiru, por exemplo, foi derrubado…

Não se pode apagar a história de nosso país, pois ela foi feita com muita luta e muito sangue. Derrubar prédios é a melhor forma de apagar a história. A derrubada do Carandiru é a melhor mostra dessa tentativa de apagar a história.

A cultura do esquecimento pela destruição é mais significativa em momentos como o esquartejamento de Tiradentes e o enterro de seus restos mortais em local desconhecido até os dias de hoje. Se você não vê, você não lembra. Se não lembra, parece que nem existiu.

O tombamento do prédio da Oban, a Operação Bandeirante, depois denominado Doi-Codi, é um marco de nossa história. É afirmar que a sociedade brasileira não quer esquecer o que houve no passado, que não compactua com a impunidade e mostra o local onde aconteceram os crimes mais terríveis contra o ser humano.

Você ficou preso e foi torturado no DOI-Codi, junto com seu pai, Joaquim, que foi assassinado em 71. O que representa esse lugar para as vítimas da ditadura no país?

Esse local é representativo de uma época, de uma política de Estado ditatorial, que implantou o terrorismo contra nossa população. A preservação dos locais de memória não é importante para mim, individualmente. É importante para toda a sociedade brasileira, que quer conhecer sua história. Para as pessoas que foram atingidas diretamente pelas torturas ou seus familiares, a criação de um memorial, que lembre os horrores da ditadura, é uma forma de reverenciar a luta daqueles que morreram torturados

O golpe de 64 completa 50 anos em março. Quais medidas você propõe para avançar no processo de resgate da memória sobre a ditadura, como o tombamento?

É preciso criar muitos monumentos e memoriais que lembrem a resistência contra a opressão. É preciso mostrar que nossa história é cheia de sangue e de heróis, para fugirmos dessa besteira de dizer que o povo brasileiro é um povo cordato e cordeiro. O povo brasileiro sempre lutou pelos seus direitos e sempre conquistou mudanças com muita luta e muito sangue.

Como você avalia o papel e o andamento da Comissão da Verdade, constituída pela presidente Dilma em 2011? Está funcionando bem ou está aquém das expectativas?

Por ter sido criada tão tardiamente, a Comissão da Verdade teve que aprender rapidamente a cumprir seu papel. O brasil é o único país que criou comissões regionais e municipais da verdade. Criou também comissões em universidades, OABs e em sindicatos. Essa inovação garantiu o trabalho de apuração dos múltiplos crimes cometidos pela ditadura. Todas essas comissões realizam um trabalho complementar ao da Comissão Nacional da Verdade. Não há divergências ou contradições quanto a isso. O relatório está sendo construído num grande coletivo e será muito significativo.