escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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16 de março de 2014, 20h09

Líquido e certo: #vaiterCopa, e vai faltar água em SP

A velha imprensa fez tanta política que esqueceu de fazer jornalismo. E agora estamos às portas de um drama. Este sim líquido e certo: a falta d´água em São Paulo.

A velha imprensa brasileira – com sua rede de interesses mesquinhos – gastou páginas e páginas para prever o “fracasso” da Copa. Uma revista, editada às margens fétidas da marginal Pinheiros em São Paulo, chegou a prever que os estádios não ficariam prontos – só em 2038. Os estádios estão aí. Com um ou outro problema. Mas estão aí.

Ao longo dos últimos anos, a velha imprensa também previu que a Petrobrás quebraria, que a inflação sairia do controle, que a crise bateria às portas dos lares brasileiros. A Globo transmitiu o “mensalão”, feito novela, ao vivo do STF. Comentaristas da rádio mantida pela Globo chegaram a perder tempo apostando, no ar, vinho francês pra comemorar a prisão de lideranças petistas.

Tudo isso foi feito, o ambiente no país ficou mais e mais envenenado (apesar da economia seguir razoavelmente bem, sem desemprego). A imprensa fez tanta política que esqueceu de fazer jornalismo. E agora estamos às portas de um drama. Este sim líquido e certo: a falta d´água em São Paulo.

O paulista e o paulistano médios serão pegos de surpresa com a falta d´água? Não viram manchetes nem previsões sérias ao longo dos últimos anos. Nada. E agora já não é mais questão de saber “se” haverá racionamento. Mas “quando” Alckmin terá coragem de assumir que ou São Paulo fecha as torneiras, ou viverá uma tragédia ainda mais séria no segundo semestre deste ano.

Ou seja: a Copa vai acontecer, sim! Mas São Paulo (com sua imprensa provinciana e servil ao tucanato) vai passar vergonha. Durante a Copa, visitantes do mundo inteiro talvez encontrem apenas ar quando resolverem abrir as torneiras. A classe média achava que a “vergonha” da Copa seriam os aeroportos, os estádios etc. Mas o fracasso talvez venha de outro lugar.

Claro: há um problemas climático. Tem chovido pouco na região do Sistema Cantareira. Mas há anos, técnicos sugerem que São Paulo busque alternativas. Nada foi feito: a Sabesp parece rendida à logica da Bolsa de Valores. Água virou mercadoria. Por menos que isso, um governo foi derrubado na Bolívia. Mas aqui no Brasil, sabe como é, o risco é o “comunismo” e a “ditadura” petista.

Paulistano de classe média, eu estou acostumado a ouvir há anos comentários lemantáveis, depreciativos, em relação aos bravos nordestinos que convivem com a seca. Agora são os paulistas que podem viver na pele o drama da seca.

Pior: a Copa passará, mas as consequências da falta de planejamento podem persistir. E aí quem sofre não é o turista. Mas o cidadão. Mal informado, atônito, ele talvez pergunte: por que não fui avisado que a situação era tão séria? Tomara que chova, muito! E que isso não aconteça. Mas as previsões técnicas indicam que já cruzamos o limiar que indica o racionamento como inevitável. (Rodrigo Vianna)

Confiram, abaixo, a reportagem do Brasil de Fato SP, sobre a falta d´água em São Paulo.   

Rodízio no abastecimento de água é inevitável em São Paulo

por Mariana Desidério

Responsável pelo abastecimento de água de quase 9 milhões de pessoas na Grande São Paulo, o sistema Cantareira atingiu o nível mais baixo em toda a sua história: 15,8%. Com o recorde, especialistas afirmam que o rodízio no fornecimento de água é inevitável. Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), a causa da falta de água são as poucas chuvas. Entretanto, outro ponto de vista coloca a responsabilidade na conta da própria Sabesp e do governo estadual, que não investiram em novos mananciais nas últimas décadas.

É o que afirma o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, professor aposentado de hidráulica e saneamento da USP. “O problema de abastecimento de água na região metropolitana é muito sério. Desde que o sistema Cantareira foi inaugurado não houve investimento em novos mananciais. Isso é um absurdo total. O que aconteceu foi que o consumo começou a aumentar”, explica. O sistema Cantareira foi inaugurado entre os anos de 1970 e 1980.

Para o professor, há cerca de 20 anos a Sabesp deixou de se preocupar com sua função pública e passou a ter como foco o lucro de seus acionistas. “Desde então ela tem sido um sucesso na bolsa de Nova York. Mas ela passou a ser um balcão de negócios e não mais uma empresa com foco na saúde pública. E fazer novos mananciais não dá lucro”, diz. A Sabesp é uma empresa de economia mista que tem como principal acionista o governo do Estado, com 50,3%.

Ainda segundo Julio Cerqueira Cesar, épocas de seca como a que estamos vivendo hoje não são uma aberração. Ele lembra que há dez anos, no final de 2003, São Paulo passou pelo mesmo sufoco. Os reservatórios de água quase secaram e os moradores estiveram a um passo de ficar sem água.

Porém, o professor lembra que, naquela ocasião, fomos “salvos” pela época de chuvas, que aliviou a situação. “Agora a nossa situação é muito mais crítica. A seca está acontecendo justamente no período de chuvas. A partir de abril entraremos na estação da estiagem e estaremos com os reservatórios vazios. A próxima estação chuvosa vai começar só em outubro. A situação é gravíssima”, diz.

Fornecimento

Para Renê Vicente dos Santos, presidente do Sintaema (Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo), o rodízio no fornecimento já deveria ter começado. “O mais seguro seria terem iniciado a campanha de economia de água em dezembro, quando o reservatório estava em torno de 40%”, afirma.

A demora em iniciar esse rodízio, na opinião de Santos, tem motivação política. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) não quer assumir o ônus de uma medida tão impopular em ano de eleição.

O presidente do sindicato também critica os investimento da Sabesp no último período. Segundo ele, a prioridade da empresa tem sido a propaganda e a conquista de novos clientes. Em contrapartida, faltam recursos para a preservação dos mananciais e para evitar desperdícios no sistema.

Sabesp

Contatada pela reportagem, a Sabesp afirmou que tem reduzido as perdas de água – segundo a empresa, o desperdício no caminho até o consumidor era de 32% em 2006; hoje é de 25,6%. A empresa afirma ainda que, até 2016, tem como meta trocar 1,6 milhão de hidrômetros e 600 quilômetros de rede de água. Parte do desperdício ocorre por conta de equipamentos e tubulação antigos, diz a empresa.

A Sabesp também afirma que tem investido para aumentar a oferta de água. Segundo a empresa, há duas PPPs (Parcerias Público Privadas). A primeira, do Alto Tietê, foi firmada em 2009 e alcança 6,6 milhões de pessoas. A segunda, de São Lourenço, chegando a 1,5 milhões de pessoas. Entretanto, a empresa não afirma qual a previsão para que essas melhorias aconteçam.

 


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