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por Rodrigo Vianna

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29 de agosto de 2011, 11h40

Löwy e Frei Betto: o ecossocialismo e a espiritualidade

Por Frei Betto e Michael Löwy: A dramática crise ecológica exige alternativas radicais, mais além do capitalismo. Esta é a ambição do ecossocialismo. Se trata de uma corrente de pensamento e de ação que se reclama ao mesmo tempo da defesa ecológica do meio ambiente e da luta por uma sociedade socialista, inspirada nos valores de liberdade, igualdade e solidariedade.

Uma alternativa radical:  o ecossocialismo
Por Michael Löwy e Frei Betto, no Blog da Boitempo

O que é o ecossocialismo?  (ML)
A dramática crise ecológica exige alternativas radicais, mais além do capitalismo.  Esta é a ambição do ecossocialismo. Se trata de uma  corrente de pensamento e de ação que se reclama ao mesmo tempo da defesa ecológica do meio ambiente e da luta por uma sociedade  socialista, inspirada nos valores de liberdade,  igualdade e solidariedade.

Em ruptura com a ideologia produtivista do progresso – em sua forma capitalista e/ou burocrática – e em oposição à expansão ilimitada de um modo de produção e de consumo insustentável e incompatível com a proteção da natureza, esta corrente representa uma tentativa original de articular as ideias fundamentais do socialismo – marxista e/ou libertário – com os avanços da crítica ecológica.

A racionalidade estreita do mercado capitalista, com seu cálculo imediatista de perdas e lucros, é intrinsecamente contraditória com uma racionalidade ecológica, que toma em consideração a temporalidade longa dos ciclos naturais. Não se trata de opor os “maus” capitalistas ecocidas aos “bons” capitalistas verdes: é o próprio sistema,  baseado na concorrência impiedosa, nas exigências de rentabilidade, na corrida atrás do lucro rápido, que é destruidor do meio ambiente.

O socialismo não implica apenas a mudança das relações de produção: a própria estrutura das forças produtivas está contaminada pela lógica do capital. Marx insistia, partindo da experiência da Comuna de Paris, que os trabalhadores não podem se apoderar do aparelho de Estado (burguês) existente e colocá-lo a seu serviço: têm de quebrá-lo e construir uma outra forma, radicalmente democrática, de poder político. O mesmo vale,  mutatis mutandis,  para o aparelho produtivo: se trata de transformá-lo radicalmente e criar outros métodos de produção, que respeitem a saúde dos trabalhadores e o equilíbrio ecológico.

Por exemplo: as  fontes de energia do sistema produtivo capitalista são nocivas e perigosas; o que é perigoso para o meio-ambiente, também o é para a humanidade: quer sejam as energias fósseis, responsáveis pelo aquecimento global, quer seja a energia atômica, que é uma falsa alternativa, pois o lixo nuclear é um problema gigantesco que ninguém consegue resolver: se trata de milhões de toneladas de material radioativo, altamente tóxico, cuja duração pode se estender por séculos ou até milênios. A transformação revolucionária das forças produtivas passa pela questão das novas fontes de energia, pelas chamadas energias renováveis. No lugar do petróleo poluidor e da energia nuclear devastadora, necessita-se buscar energias compatíveis com o equilíbrio ecológico, como o vento, a água e, sobretudo, a energia solar.

Outro desafio é transformar o padrão de  consumo existente no capitalismo e, em particular, nos países industrializados, que é totalmente insustentável. Se o conjunto da humanidade vivesse segundo o modelo do consumismo estadunidense, seriam necessários cinco planetas para assegurar a produção… O tipo de consumo das sociedades capitalistas está baseado na acumulação obsessiva de bens, na aquisição compulsória de pseudo-novidades impostas pela “moda”, no fetichismo da mercadoria das elites,  enquanto a massa dos pobres não tem acesso ao mínimo indispensável. Uma nova sociedade orientará a produção para a satisfação das verdadeiras necessidades, a começar por aquelas que podem ser designadas como “bíblicas” – água, comida, roupa, moradia – mas incluindo também os serviços básicos: saneamento, saúde,  educação, transporte, cultura. Como distinguir as necessidades autênticas das falsas e artificiais?  Estas últimas são fabricadas pela manipulação mental,  pela ideologia dominante, pelo fetichismo da mercadoria e, em particular, pela publicidade. Com o desaparecimento da publicidade, as necessidades artificiais – Coca Cola, Pepsi Cola! – perderão, pouco a pouco, seu domínio, permitindo assim o surgimento paulatino de um padrão de consumo sustentável.

Do ponto de vista ecossocialista, uma reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo é necessária, baseada em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isto significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população – e não as “leis do mercado” ou um Birô Político autoritário – decide, democraticamente, as prioridades e os investimentos.

Esta transição conduziria, não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias inúteis.

Ecossocialismo e espiritualidade: novos valores para uma nova civilização (FB)

As alternativas ao neoliberalismo e à construção do ecossocialismo engendram-se na prática social, através das lutas populares, dos movimentos sindicais, camponeses, indígenas, ambientais, das comunidades de base, das comunidades negras.

Encontrar alternativas é um trabalho coletivo. Elas não surgem da cabeça de intelectuais iluminados ou de gurus ideológicos. Daí a importância de se dar consistência organizativa a todos os setores da sociedade que esperam outra coisa diferente disso que se vê na realidade atual: desde agricultores que sonham em lavrar sua própria terra a jovens interessados na preservação do meio ambiente.

Sem utopias não há mobilizações motivadas pela esperança. Nem possibilidade de visualizar um mundo diferente, novo e melhor.

A esperança favorece a emergência de novas utopias, que devem ser traduzidas em projetos políticos e culturais que sinalizem a nova sociedade e, nela, os novos homem e mulher. Isso implica o resgate dos valores éticos, do senso de justiça, das práticas de solidariedade e partilha, e do respeito à natureza. Em suma, trata-se de um desafio também de ordem espiritual, na linha do que apregoava o professor Milton Santos, de que devemos priorizar os “bens infinitos” e não os “bens finitos”.

Este projeto é o de uma sociedade ecossocialista, alternativa ao neoliberalismo: capaz de incorporar conceito e práticas de igualdade social e desenvolvimento sustentável, a partir das experiências dos movimentos sociais e ecológicos, assim como da Revolução Cubana,  do levante zapatista do Chiapas,  dos assentamentos do MST… Temos que incluir em nossa utopia, nosso projeto e nosso programa os paradigmas ora emergentes, como ecologia, indigenismo, ética comunitária, formação de subjetividades solidárias, espiritualidade, feminismo, holística.

Este sonho, esta utopia, esta esperança que chamamos de ecossocialismo, não é senão a continuação das esperanças daqueles que lutaram pela defesa da vida,  aqueles que,  como Chico Mendes e Dorothy Stang, dois lutadores cristãos,  deram sua vida pela causa dos pobres,  dos explorados,  dos indígenas, dos trabalhadores da terra e  dos povos da floresta.


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