escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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02 de Maio de 2011, 10h47

A estratégia da Fazenda e o novo contexto

Por Luis Nassif: Depois de um choque de preços agrícolas da magnitude do ocorrido, essa elevação da inflação deveria ser encarada com naturalidade, sabendo que tenderia a refluir com a entrada da safra. Mas o mercado se aproveita dessa fase de transição para açular tremendamente as expectativas, destacando apenas variáveis causais ligadas aos gastos públicos e atribuindo a deterioração das expectativas ao abandono da política focada exclusivamente nos juros.

A estratégia da Fazenda e as novas circunstâncias
Por Luis Nassif, do Luis Nassif Online

Há um conjunto de confusões acerca da questão da inflação, juros e câmbio.

Vamos primeiro às certezas:

1.A prioridade número um do governo é o combate à inflação.
2.Há uma preocupação obvia com a taxa de câmbio e juros.
3.Uma terceira prioridade é a manutenção da solidez fiscal e a meta de redução da relação dívida/PIB.

A estratégia original para perseguir esses três objetivos era:

1.Reduzir o peso dos juros no combate à inflação, devido a duas contra-indicações principais:  afeta o câmbio e a dívida pública. A compensação foram as tais medidas macro prudenciais, de atacar diretamente o canal do credito, aumentar o compulsório e retirar os incentivos fiscais ao consumo.
2.Gradativamente, ir comendo pelas beiradas os juristas – os defensores incondicionais da elevação dos juros -, na medida em que as medidas prudenciais começassem a surtir efeito.
3.Promover uma mudança gradativa no centro dinâmico da economia, do consumo das famílias (como foi nos últimos anos) para investimento. Aí passa por uma engenharia complexa, reduzindo gastos de custeio, mantendo os de investimento, preservando políticas sociais.

No meio do caminho surgiram três pedras:

1.A irresponsável expansão monetária norte-americana, injetando US$ 500 bi na economia mundial e botando fogo nos mercados de commodities e de moedas.
2.Como conseqüência, no final do ano a explosão nos preços das commodities internacionais – alimentos, minérios e combustível.
3.O terremoto no Japão, com impacto no custo da energia.

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Houve um conjunto de mudanças em relação ao cenário original.

Primeiro, a elevação na inflação anual acumulada, impedindo de mostrar plenamente os resultados das medidas macro prudenciais. O motor principal da inflação é o preço internacional dos alimentos. Mas existe também um aumento no preço dos serviços, fruto do aquecimento da economia – que não teria reflexos significativos se não houvesse essa inflação inesperada dos alimentos.

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Há vários sinais de início de desaquecimento da economia. Depois de um choque de preços agrícolas da magnitude do ocorrido, essa elevação da inflação deveria ser encarada com naturalidade, sabendo que tenderia a refluir com a entrada da safra.

Mas o mercado se aproveita dessa fase de transição para açular tremendamente as expectativas, destacando apenas variáveis causais ligadas aos gastos públicos e atribuindo a deterioração das expectativas ao abandono da política focada exclusivamente nos juros.

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O carnaval de expectativas açuladas inibe a Fazenda para tomar medidas mais drásticas contra a invasão de dólares. O BC foi obrigado a recuar da tática inicial e aumentar 0,25 ponto a taxa Selic. Enquanto isto, o dólar vai provocando um monumental estrago em toda a cadeia produtiva.

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Dia desses, demonstrei no meu Blog a lógica perversa da relação juros-câmbio. Alguns leitores indagaram se o governo não sabe disso. Claro que sabe. Ocorre que o fator inflação acaba se impondo e impedindo uma ação mais efetiva contra o câmbio apreciado e os juros pornográficos.

Fica-se em um banho maria aguardando o refluxo da inflação anual para reduzir o poder de pressão do mercado e recolocar em marcha a estratégia inicial.

Os sobreviventes agradecerão.


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