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por Rodrigo Vianna

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12 de setembro de 2014, 13h18

Marina Silva, do velho poder colonial ao capitalismo verde

Marina, com essa trajetória, identificada com a matriz do capitalismo verde e com o domínio colonial subjacente, se for eleita tentará conduzir as políticas de governo de forma mais submissa ao imperialismo comandado pelos Estados Unidos da América e seus aliados.

Por Elder Andrade de Paula, no blog Lindomar Padilha*

Ao deparar-me com essa fotografia em que Marina Silva escuta Walter Feldman (SP) lembrei-me  imediatamente   do livro de Frantz Fanon intitulado   Pele negra máscaras brancas.  Particularmente da introdução feita por Samir Amin em uma edição de 2009 intitulada Piel negra máscaras blancas (Ediciones Akal, Madrid, España). Ao tratar das relações entre colonialismo interno e externo, Samir Amin afirmava o seguinte: “Os fenômenos de colonialismo interno se produzem pelas combinações particulares da colonização da população, por uma parte, e a lógica da expansão imperialista, por outra” (Amin, 2009; 5).

Considero Marina Silva uma representação de “tipo ideal” desse amalgama de colonialismos interno e externo. O circulo de poder que a envolve opera nessa dupla dimensão. Deve-se considerar que sua formação foi fortemente influenciada pelo ambiente politico e ideológico que permeou a “modernização”  capitalista no estado do Acre nas quatro ultimas décadas.

Após a expansão do colonialismo interno capitaneado pela ditadura militar aconteceu a transição para um capitalismo verde que reciclou o colonialismo externo, valendo-se, sobretudo, da instrumentalização dos conceitos de “mudanças climáticas”, “desenvolvimento sustentável” e “governança ambiental” como versículos  da nova catequese da “sociedade civil”. O indevido uso da  imagem de Chico Mendes tem servido para legitimar essa “pregação”.

A trajetória de Marina deve ser entendida nesse contexto. Num primeiro momento, na condição de atingida diretamente pela expansão colonial interna, participa das lutas de resistência como militante da esquerda revolucionária (Partido Revolucionário Comunista-PRC). Naquele período, além desse tema do colonialismo interno não aparecer como relevante em boa parte dessa esquerda, ele acabava sendo reproduzido nas suas práticas politicas.

As relações com a “intelligentsia” do Sudeste e Sul do Brasil eram também marcadas por certo sentimento de inferiorizacão. Em síntese: no momento em que teve maior proximidade com o pensamento crítico, Marina não teve a oportunidade de estudar e compreender o colonialismo interno como fenômeno marcante da formação social dos países periféricos em especial os latino americanos. Ou o que pode ser ainda pior: assimilou pela esquerda o que potencializaria posteriormente pela direita.

No momento seguinte, após dois mandatos parlamentares (vereadora de Rio Branco e deputada estadual), aproximou-se do poder oligárquico regional capitaneado por Jorge Viana e chegou ao Senado (1995) onde completou sua adesão ao establishment.

Na condição de senadora e em seguida na de ministra do Meio Ambiente transitou com mais intensidade e desenvoltura em redes transnacionais vinculadas aos “negócios ambientais” e ao mundo das finanças, bem como aquelas ligadas à esfera religiosa. A conversão ao Neopentecostalismo parece decisiva na assunção do papel que passou a cumprir na reprodução do velho poder colonial.

No exercício do primeiro mandato de senadora (1995-2002), o seu gabinete teve papel ativo nas estratégias de atuação do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais(PPG7) junto a “sociedade civil” na Amazônia.

O seu marido, Fabio Vaz, foi coordenador (1996-99) do Grupo de Trabalho Amazônia (GTA) , ONG criada por iniciativa do Banco Mundial para servir de mediadora,  como representante da  “sociedade civil” nesse Programa gerenciado pelo referido Banco.

Entre outros feitos, o GTA articulado com grandes ONGs ambientalistas internacionais, atuou decisivamente na  cooptação do Conselho Nacional dos Seringueiros e outras centenas de organizações sindicais e não sindicais atuantes na esfera da sociedade civil.  Os resultados dessa política são bastante conhecidos, conforme mostramos em diversas publicações, como a indicada neste link.

Nos seis anos que ocupou o cargo de ministra do Meio Ambiente, Marina não mediu esforços para institucionalizar a agenda do capitalismo verde.  O Ministério do Meio Ambiente (MMA) foi transformado em uma “trincheira institucional” por grandes ONGs internacionais, como a WWF e promoveu avanços consideráveis na atualização dos colonialismos interno e externo na Amazônia, como ilustra a arquitetura do Plano Amazônia Sustentável (PAS), acalentado carinhosamente por Marina como “sua criação”.

Sob a gestão de Marina no MMA, os servidores do IBAMA conheceram de perto sua “nova política”, quando realizaram uma greve contra o desmonte do órgão levado a cabo via Medida Provisória. As intenções com essa medida foram claramente facilitar o licenciamento para os grandes projetos e potencializar as politicas de privatização dos bens comuns.

O caso mais emblemático dessa privatização dos bens comuns foi a iniciativa de encaminhar para o Congresso e aprovar em tempo recorde (um ano)a Lei 11284/2006 que instituiu o regime de concessão de florestas públicas para fins de exploração privada. Estamos tratando de algo em torno de 50 milhões de hectares de florestas na Amazônia.

Além desse presente para as corporações ligadas ao comercio internacional de madeiras tropicais, incentivou-se a exploração madeireira dita “sustentável” com o argumento de que combateria a “exploração ilegal”.

Bom para a WWF que, em seis anos, teve o salto da área de exploração certificada com o selo do FSC (vinculado a WWF) de aproximadamente 400 mil para 3 milhões de hectares de florestas (Relatório de Gestão do MMA 2003-2006; p. 54).

Na mesma página do referido Relatório informa-se que as “florestas plantadas” (nome pomposo para designar monocultivo de eucalipto) saltaram de 300 mil para 600 mil há/ano. Basta.

O que não foi possível concretizar no MMA avançou bastante no estado do Acre, graças ao empenho das oligarquias aliadas de Marina e também de seu marido Fabio Vaz que participou do “governo da Frente Popular” até agosto do corrente.

Nesse estado – apresentado por grandes ONGs ambientalistas internacionais como “modelo de economia verde”– está em curso um processo acelerado de desregulamentação para intensificar a mercantilização e financeirização da natureza. Os resultados preliminares dessa mega espoliação podem ser vistos no Dossiê: O Acre que os mercadores da natureza escondem (clique aqui)

Enfim, procuramos mostrar que Marina não é uma incógnita como insistem em repetir os grandes meios de comunicação.  Eles a tratam assim não por “desconhecimento” mas por convencimento de sua eficácia para ocultar os  interesses das grandes corporações capitalistas envolvidas também na sua candidatura.

Marina, com essa trajetória, identificada com a matriz do capitalismo verde e com o domínio colonial subjacente,  se for eleita tentará conduzir as políticas de governo de forma mais submissa ao imperialismo comandado pelos Estados Unidos da América e seus aliados. Tudo indica que as repercussões negativas desse fato nas lutas emancipatórias no Brasil e na América Latina seriam muito fortes….

*  Professor Associado do CFCH/Universidade Federal do Acre.


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