terça-feira, 29 set 2020
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Antonio David: Marina Silva e a convergência de interesses antagônicos

Por Antônio David*, na Revista Brasileiros

Com a inesperada reentrada em cena de Marina Silva (PSB), o eleitor cansado da polarização entre PT e PSDB parece, enfim, vislumbrar a real possibilidade do triunfo eleitoral de uma “terceira via”, independentemente do que isso signifique.

Mas, se Marina Silva é cotada para disputar o segundo turno contra Dilma Rousseff (PT), não é o fato em si que merece interesse, mas seu significado. O que a força dessa candidatura revela? Que conflitos sociais e econômicos atravessam o pleito presidencial e, em particular, a candidatura de Marina?

A maior parte dos cientistas políticos e jornalistas especializados em política e eleições tende a analisar o quadro como se o pleito fosse um fim em si mesmo. Eles se esquecem de que em uma eleição presidencial expressam-se tensões sociais latentes. É para a sociedade que devemos olhar.

REALINHAMENTO

Segundo o cientista político André Singer (Os Sentidos do Lulismo, Companhia das Letras, 2012), em 2006 teria havido um realinhamento eleitoral no qual a fração mais pobre dos eleitores, com renda familiar até dois salários mínimos e que até 1998 votara contra Lula, teria aderido em massa à candidatura Lula ainda no primeiro turno, isso graças às políticas redistributivas. Ainda segundo Singer, esse eleitor quer mudanças, mas teme a radicalização política. É compreensível, visto ser ele mais vulnerável à instabilidade econômica.

Essa adesão teria compensado eleitoralmente a perda de apoio do PT junto a setores com renda mais elevada. O escândalo do “mensalão” teria sido o catalisador de uma insatisfação, no fundo motivada pela relativa perda de status social, expressa em frases do tipo “esse aeroporto está virando uma rodoviária”.

A classe média teria, assim, tornado-se a base de massas da oposição ao governo. Nesses termos, uma crescente polarização social entre ricos e pobres daria o lastro social para a polarização eleitoral entre PT e PSDB.

PONTO CEGO

Há, todavia, um ponto cego nessa análise. Se em 2006 e 2010 os mais pobres votaram em peso no PT, esse eleitor só foi decisivo porque somou-se ao peso do eleitor situado um pouco acima, com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos, no qual predominou o voto no PT. Lula só venceu em 2006 porque contou com a adesão também desse setor: no segundo turno, a diferença de votos entre Lula e Alckmin nesse segmento foi de expressivos 21% de folga, segundo pesquisa Ibope realizada na véspera da eleição.

Trata-se de um segmento composto igualmente por trabalhadores, também beneficiado pelas políticas redistributivas. Esse é o segmento no qual o PT está perdendo espaço mais rapidamente. Em 2010, a diferença entre Dilma e Serra caiu drasticamente para 6% nessa faixa de renda.

Hoje, em um cenário de segundo turno entre Dilma e Aécio, haveria empate técnico entre a petista e o tucano nesse segmento: 42% para Dilma, 45% para Aécio, segundo pesquisa Datafolha de agosto. O ponto é que, sendo Marina a adversária de Dilma no segundo turno, a diferença em favor da candidata do PSB chegaria a 14%. Que fatores sociais estão na base desse fenômeno?

INQUIETUDE E ALIENAÇÃO

A considerar o perfil do eleitor de Marina, é possível desenhar hipóteses. De quem estamos falando? Jovens que vivem em grandes cidades, trabalham durante o dia e estudam à noite, têm carteira assinada, estão inseridos no mundo do consumo, estão conectados nas redes sociais e, sobretudo, nutrem enormes expectativas.

Cresceram sob o governo Lula. Não têm a memória dos anos FHC, muito menos dos anos anteriores. Não experimentaram a ascensão. Seus pais a experimentaram. São os filhos dos que ascenderam.

O sociólogo Ruy Braga tem estudado os trabalhadores do setor de telemarketing, situados nessa faixa de renda familiar (A Política do Precariado, Boitempo, 2012).

Em geral com melhores salários do que seus pais, os milhares de trabalhadores do setor, majoritariamente jovens, enfrentam jornadas de trabalho exaustivas e alta rotatividade no emprego. Estudaram, mas não conseguem ascender na carreira. Por conta das duras condições de vida, haveria entre esses jovens, segundo Braga, uma forte inquietação.

O ponto é que, diferentemente de seus pais, os mais jovens situados nessa faixa de renda estudaram e estão acostumados às redes sociais e ao mundo do consumo. Querem empregos melhores, compatíveis com sua qualificação.

A considerar a situação econômica desse segmento social e suas expectativas, há nesse setor um forte sentimento de estagnação. Ainda que o Brasil tenha experimentado um ciclo expansionista, não foram criados empregos qualificados em número suficiente. Daí a razão pela qual cresce entre esses jovens a busca por alternativas eleitorais.

TERCEIRA VIA?

Mas por que Marina Silva? Essa é uma questão que só pesquisas qualitativas poderão responder. Por ora, convém atentar para um fato: além dessa nova classe trabalhadora, a candidatura de Marina Silva atrai a classe média.

Não por acaso, os dois setores que foram em peso para as ruas em junho de 2013. Tal é a composição de seu eleitorado, unificada em torno de um nome, cujo projeto é incerto. Afinal, por detrás da superficial comunhão de interesses entre um e outro, será que há unidade no que toca às questões de fundo, em particular à política econômica? É duvidoso.

Os jovens do telemarketing almejam melhores empregos e melhores serviços públicos – ou seja, mais Estado. Já a classe média, sobretudo os mais ricos, reclamam por menos Estado. Marina pode até vir a reunir em torno de si políticos de diferentes legendas. Conseguiria ela a proeza de conciliar demandas sociais antagônicas?

A ideia de uma terceira via agrada a uma parte da sociedade cansada do que enxerga ser politicagem e do que lhe parece ser um ódio irracional entre dois partidos que teriam, no fundo, muito mais em comum do que diferenças.

Como Marina procederia em face da polêmica sobre crescimento, emprego e inflação? Trabalhadores como os do telemarketing são os que primeiro perderiam o emprego em um cenário econômico recessivo. Simbolicamente, Marina pode ser um pouco de cada: um pouco de PT, um pouco de PSDB. Poderia ela cumprir esse papel como presidenta?

Enquanto afirma sua candidatura como de centro, paradoxalmente Marina atrai setores da sociedade que não só almejam direções opostas para o Estado, como parecem ser os mais inclinados à radicalização política numa conjuntura de agudização das polarizações sociais.

Nesse cenário, alimentando exatamente aquilo que ela pretende evitar, não será difícil vermos diante de nossos olhos a terceira via subitamente metamorfoseando-se no seu exato oposto. Eis o paradoxo de Marina.

*Bacharel em Filosofia pela USP, pesquisa o pensamento político do filósofo Baruch Espinosa (1632-1677) em tese de doutorado na mesma universidade.