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por Rodrigo Vianna

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01 de setembro de 2014, 16h33

Movimentos sutis: Marina gera dúvidas

No último fim-de-semana, pela primeira vez, Marina sofreu um bombardeio nas redes sociais. As citações negativas à candidata passaram de 80%. Ela quer ser a candidata de "todos", mas terá que fazer escolhas...

por Rodrigo Vianna

Marina (como escrevi aqui) surfou sozinha – durante 15 dias – na onda do “novo”. Surfou, entre outras coisas, porque a campanha de Dilma não se mexeu: seguiu a priorizar os programas de TV – como se não estivéssemos no mundo das redes sociais.

Acontece que algo se moveu no último fim-de-semana. Parece um movimento ainda incipiente. Explico: ao mesmo tempo em que Marina Silva atingia 34%, empatando com Dilma no primeiro turno (DataFolha de sexta – 28/agosto), a candidata do PSB virou vitrine pela primeira vez. Não foi o PT quem reagiu (esse continua dormindo em sonho esplêndido). Não. Foram setores da sociedade que começaram a questionar a candidata, por suas escolhas e posições contraditórias e opacas.

O movimento desastrado de Marina em relação ao mundo LGBT, cedendo à pressão do pastor Malafaia e mudando de posição em menos de 24 horas, provocou algo realmente “novo” para a candidata do “novo”: pela primeira vez, Marina sofreu um bombardeio nas redes sociais. As citações negativas à candidata passaram de 80% no fim-de-semana. Número assombroso. A posição corajosa de Jean Willys lançou – no mínimo – dúvidas fortes em relação ao verdadeiro compromisso de Marina com o “novo”. Disse ele: “Marina, você mentiu e não merece a confiança do povo brasileiro.”

Dilma/PT e Aécio/PSDB também seguem com preponderância de citações negativas nas redes. Geralmente, políticos mais apanham do que são elogiados nas redes; com Marina, acontecia o contrário até agora. A maré mudou. E o nível de questionamentos a Marina foi muito acima do “normal” no fim-de-semana. Quem acompanha as redes de perto compara o que aconteceu com ela a certos movimentos que atingiram Russomano na campanha de 2012 em São Paulo.

Isso não significa que Marina “despencou”. Longe disso. Marina tem o apoio mais multifacetado possível: ambientalistas/progressistas, religiosos/conservadores, anti-PT, anti-política. Tudo isso se mistura num caldo difícil de entender. O ataque contra ela no fim-de-semana (motivado não por Aécio, nem por Dilma) parece ter minado a primeira fatia de eleitores (mais progressistas). E também gerou a impressão de que ela é capaz de falar qualquer coisa, sem muita consistência. 

Começa a surgir um movimento de retirada de apoio a Marina em meios intelectuais. Algo que não pode ser medido em votos. Mas significa que a candidata – submetida a um escrutínio mais duro – não é uma rainha previamente escolhida por deus.

A reportagem da “Folha” nesta segunda, mostrando que Marina tomaria decisões com base numa bizarra “roleta bíblica” (ela escolheria aleatoriamente versículos da Bíblia, e assim conseguiria sair de impasses decisórios) indica a face obscura de uma candidata, faceta que pode assustar o eleitorado tradicional de clase média, e também os jovens da chamada classe “C”.

Fora isso, levantamentos internos de campanhas mostram que Marina parou de crescer. Um desses levantamentos mostraria Dilma no mesmo patamar do DataFolha (cerca de 35%, que parece ser o piso da petista), enquanto Marina encontra-se alguns pontos abaixo – teria recuado levemente, mas segue com o dobro das intenções de voto do PSDB.

Nos bastidores, aposta-se que Aécio Neves não desistiu. E que pode sim encurtar um pouco a distância para Marina nas próximas duas semanas. Se isso acontecer, aumentaria a pressão sobre os grupos de mídia, para que ajudassem a desconstruir a candidata do PSB na reta final do primeiro turno.

No meio do caminho, no entanto, há uma nova pesquisa DataFolha, que deve ser divulgada na próxima quinta. Ela provavelmente mostrará Marina ainda muito à frente de Aécio – o que cria uma dificuldade para que ele amarre fidelidades e cobre reação, mesmo entre os grupos de mídia mais comprometidos com o tucanato (aliás, fica claro nessa campanha que os grupos de comunicação – sediados em São Paulo, com exceção da Globo – não devotam a Aécio a mesma fidelidade que demonstram em relação a Serra). 

Marina é favorita a essa altura para virar presidente. Mas o movimento do fim-de-semana mostra que há espaço para atuar. E que essa atuação nada tem a ver com programas milionários no horário de TV.

De resto, a ideia de que a elite conservadora já se bandeou para Marina é em parte falsa. Os empresários, a turma realmente da grana, não gosta do PT, mas está longe – muito longe – de confiar em Marina. Nesse ponto, ela é um fenômeno ainda mais obscuro do que Collor (que, ao menos tinha pontes lançadas na direção do grande capital e da Globo). E isso gera ruídos e contradições.

 

 


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