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por Rodrigo Vianna

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10 de abril de 2011, 21h37

Na fronteira, o Peru vota em Ollanta Humala

Enquanto o Brasil se contorcia de dor pela matança pavorosa em Realengo, eu estava longe de casa e da internet. Passei os últimos dias na Amazônia (acompanhado pelos colegas jornalistas Gilberto Nascimento e Gilson Dias), apurando uma reportagem para a TV Record. Hoje, o movimento era intenso na fronteira do Javari: apesar da chuva, muitos peruanos que moram no Brasil cruzaram o rio pra votar na eleição presidencial.

por Rodrigo Vianna, de Tabatinga (AM)

Enquanto o Brasil se contorcia de dor pela matança pavorosa em Realengo, eu estava longe de casa e da internet. Passei os últimos dias na Amazônia (acompanhado pelos colegas jornalistas Gilberto Nascimento e Gilson Dias), apurando uma reportagem para a TV Record.

De Manaus, voamos para Tabatinga, na “Tríplice Fronteira” (Brasil, Colômbia e Peru). Hoje, tomamos uma lancha rápida no porto de Tabatinga, rumo a Benjamim Constant, e dali seguimos para aldeias indígenas às margens do rio Javari. É um Brasil feito de água e floresta. Um Brasil indígena, e que se mistura aos vizinhos numa fronteira porosa.

Do cais de Benjamim Constant é possível avistar, na outra margem do Javari, um pequeno povoado peruano, de nome curioso: Islândia. É lá que os barqueiros brasileiros preferem comprar combustível, porque a gasolina peruana é mais barata. Hoje, o movimento era intenso na fronteira do Javari: apesar da chuva, muitos peruanos que moram no Brasil cruzaram o rio pra votar na eleição presidencial.

De tarde, no barco que nos trouxe de volta (de Benjamim Constant para Tabatinga), encontramos Yeni e Pedro. Ela peruana, ele brasileiro. O casal vive em Tabatinga e viajou até Islândia só para que Yeni pudesse escolher seu candidato. Percebi que ela tinha votado porque trazia nos dedos a marca de tinta (recurso usado pela justiça eleitoral em vários países da América do Sul, para evitar fraudes). No barco ainda, puxei assunto: votou em quem? E ela, desconfiada: “no Humala, mas acho que você nem sabe quem ele é”.

Quando me mostrei interessado no assunto, Yeni falou mais. Disse que na Amazônia peruana a maioria do povo prefere Ollanta Humala (candidato nacionalista, apontado como chavista e detestado pela elite peruana, ele saiu atrás nas pesquisas, mas disparou nas últimas semanas, como você pode ler aqui).

“A Keiko, filha do Fujimori, também tem apoio; muita gente acha que é preciso dar chance a uma mulher, como a Dilma no Brasil”, diz Yeni. Pergunto o que ela (jovem mãe de três filhos, um deles adormecido no colo de Yeni durante a travessia entre Benjamim Constant e Tabatinga) acha de Keiko. Yeni franze a testa: “olha, ela é filha do Fujimori, né…” E não diz mais.

Quero saber por que ela escolheu Humala. “Ele pode fazer algo diferente pelo povo pobre, ele não é igual aos outros; dizem que ele é violento, que já se meteu em rebeliões, mas isso foi no passado, ele precisa ter uma chance”.

Aí, chega a parte mais curiosa da conversa. Yeni me diz que muita gente critica Humala porque ele tem assessoria de brasileiros na campanha. “Não entendo essa gente. O Lula fez um ótimo governo no Brasil em 8 anos, se o Humala tem ajuda de brasileiros ligados ao Lula, eu acho ótimo; significa que Humalla pode fazer um governo que atenda os mais pobres”, diz a peruana, num português cheio de sotaque e recheado com palavras em espanhol.

A pesquisa de boca de urna mostra que Humala deve mesmo chegar em primeiro. Keiko Fujimori deve disputar com ele o segundo turno. Mas como a disputa pela segunda vaga é apertada, podem ocorrer surpresas.

Alejandro Toledo (ex-presidente) e Pedro Kuczynski (que foi ministro de Toledo e tem apoio da classe média liberal) seriam adversários mais complicados para Humala, porque poderiam atrair apoio da grande mídia e do empresariado. Keiko deve ter mais dificuldades (pela rejeição que o sobrenome dela gera entre a maior parte dos peruanos).

A pesquisa da Ipsos Apoyo aponta:

Ollanta Humala – 31,6%

Keiko Fujimori – 21,4%

Pedro Kuczynski – 19,2%

Alejandro Toledo – 16,2%

A vitória de Humala seria mais uma derrota para os Estados Unidos na América do Sul. O Peru assinou tratados de comércio com os EUA, mas Humala pode dar mais ênfase às parcerias com os vizinhos do sul. Isso apesar de ele ter moderado o discurso durante a campanha.

Humala talvez tenha que fazer mesmo um movimento rumo ao centro, para não se isolar no segundo turno. A imagem de “chavista” poderia impedir a vitória (em 2006, ele foi ao segundo turno, mas acabou derrotado por Alan Garcia, atual presidente). Mas a proximidade com Lula (há de fato gente próxima ao PT ajudando na campanha, inclusive profissionalmente) pode ajudar. E muito. Como mostra o depoimento da Yeni – que vive no Brasil, mas tem orgulho da nacionalidade peruana.


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