escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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20 de dezembro de 2010, 03h50

Nassif e a esquerda que a direita adora!

De repente vejo que o Nassif se transformou no "vilão" de uma certa "esquerda". O Nassif - que enfrentou a "Veja" de peito aberto, que deu a cara a tapa tantas e tantas vezes - virou o grande inimigo? Não estou entendendo mais nada. O velho Leonel Brizola (sob inspiração de Darcy Ribeiro) costumava dizer: "essa é a esquerda que a direita gosta".

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por Rodrigo Vianna

Passei uma semana de férias. Ao voltar, descubro que o grande problema do Brasil é o Nassif ter publicado um post horroroso – que eu não publicaria – chamando feministas de “feminazi”. Atenção: o texto não era do Nassif, mas ele publicou – e apanhou (merecidamente) das feministas. Foi criticado – também – por quem não é feminista mas não gostou nada dessa história.

Ok. Até aí nada demais. Os blogs – que fazem críticas e mais críticas à “velha mídia” – precisam estar preparados para receber  críticas contundentes. Todo mundo aqui na internet deve estar preparado pra isso. É o jogo. A crítica é sempre benvinda.

Mas de repente vejo que o Nassif se transformou no “vilão” de uma certa “esquerda”. O Nassif – que enfrentou a “Veja” de peito aberto, que deu a cara a tapa tantas e tantas vezes – virou o grande inimigo? Não estou entendendo mais nada. Deve ser o excesso de vinho que consumi durante minha semana de folga no Uruguai… 

Em ocasiões desse tipo – quando a extrema-esquerda transformava outros combatentes próximos em inimigos, deixando a avenida aberta para os conservadores de verdade – o velho Leonel Brizola (sob inspiração do grande Darcy Ribeiro) costumava dizer: “essa é a esquerda que a direita gosta”.

Atenção: não estou falando das feministas, não estou a dizer que Nassif não pode ser criticado só porque tem uma história correta e de bom combate. O Nassif, aliás, nem precisa que eu – um escrevinhador relativamente novato na internet – venha defendê-lo. E nem é o caso de fazer defesa nenhuma. Ele já reconheceu que errou duplamente: ao publicar o tal texto das “feminazi”, e ao não acolher as primeiras críticas feitas por várias militantes feministas.

O estranho é que a história se prolongue. Parece que há gente querendo aproveitar o caso para fazer algum acerto de contas. Não falo das feministas. Falo de certos blogueiros e twitteiros que aproveitaram o erro do Nassif e saíram a atacar todo o movimento de blogueiros progressistas.

Falo, por exemplo, do Idelber Avelar  – responsável pelo “O Biscoito Fino e a Massa”. No melhor estilo sofista, o Idelber fez a seguinte associação em um texto recente: Nassif é sexista (o que já não me parece justo); Nassif participou do encontro de blogueiros progressistas; portanto, os blogueiros progressistas (de uma forma geral) são sexistas. É o que o Idelber (que deu pra recomendar psicanálise ao que ele chama de “progressismo blogueiro”) escreveu aqui.

Fiz psicanálise durante 9 anos. O que me ajuda a viver com um pouco menos de sofrimento, mas não me transformou (pobre de minha analista) num sábio. Por isso, costumo ler os textos do Idelber. Ele escreve bem, apesar do tom um pouco professoral. Dizem-me que ele é mesmo professor. Ok. O Idelber está na blogosfera há muito tempo. Dizem que ele já organizou encontros de blogueiros. Talvez por isso ele se sinta incomodado: não gostou de ver  o Encontro de Blogueiros Progressistas de 2010 ser chamado de “primeiro encontro”…

É isso, Idelber? O pessoal de repente pode mudar o nome pra deixá-lo mais tranquilo. Quando fizermos o próximo encontro, chamaremos de Terceiro Encontro de Blogueiros (sem o termo “progressista”, que eu também não aprecio tanto) – e ainda poderíamos oferecer uma medalha de honra ao mérito ao professor Idelber pelos relevantes serviços prestados à blogosfera.

He, he…

Idelber, meu velho: só o conheço por telefone e pelo twitter. Durante a campanha eleitoral, você me procurou. Lembra-se? Na época, não me pareceu que estivesse nada incomodado com os “blogueiros progressistas” – a quem agora você ataca e ironiza, generalizando e acusando a todos de “sexistas”.

Seria de sentar no chão e rir.

Idelber, a gente acaba de passar por uma batalha importante. Os tais blogs “progressistas” ou de esquerda (que são muitos, uma rede espalhada pelo Brasil) cumpriram um papel razoavelmene importante, como contraponto à cobertura nefasta de amplos setores da mídia. E você sabe disso. Mas ninguém superestima o papel dos blogs. As TVs (Globo à frente) ainda são muito mais poderosas. Nós, aqui, fazemos no máximo um contraponto à velha imprensa escrita. Fazemos uma guerrilha modesta. Já é alguma coisa, não acha? 

Suamos muito nos últimos meses. Acho que você acompanhou o combate – apesar de viver fora do Brasil. Por isso, não entendo: rapaz, você que é um aliado desse campo, em vez de vir ao Brasil nas férias (parece que agora você está por aqui, né?) pra tomar um café com alguns desses blogueiros com quem manteve interlocução durante a campanha, prefere atacar todo mundo? 

Você cunhou uma expressão estranha para se referir a um movimento que (na dura tarefa de organizar o Encontro de Blogueiros ocorrido em São Paulo) incluiu – sim – muitas mulheres: “jornalismo masculino progressista”! Idelber, na boa, acho que você está querendo acertar contas com algo que o incomodou nos últimos tempos.

Você falou de Freud em seu último post. Achei muito apropriado. Freud – e os que vieram depois dele, no movimento psicanalítico – nos ensinam que quando alguém aponta o dedo de forma obsessiva contra os outros (por exemplo: “você é gay”, ou “você é sexista”) talvez queira esconder questões mal resolvidas que lhe afligem. Não digo que seja seu caso. Mas Idelber, meu velho, você precisa virar a página e enxergar onde estão os adversários.

De minha parte, mantenho o convite para um café ou chopp; convite que lhe fiz quando você – no auge da campanha eleitoral –  me procurou para trocar informações (se é que entendi bem na época). Naquele contato, em outubro, você não me avisou que eu era “sexista” ou representante do perigoso grupo do “progressismo blogueiro formado por homens jornalistas oriundos da grande mídia ou pautados por ela”.

He, he.

Vamos lá, Idelber. Os leitores não querem isso. Querem, sim, que sejam apontados eventuais escorregões machistas a que todos estamos sujeitos (homens e mulheres; mais homens que mulheres, como sabemos). Mas não querem que se divida – de forma tola – um campo que a duras penas procura se unificar, respeitadas as diferenças.

 A pauta que interessa ao Brasil é o ministério da Dilma, é a integração latino-americana, é o novo papel de Lula fora do governo, é o Wikileaks, é a mudança nas leis de comunicação e na banda larga, é a Reforma Agrária, é a forma como a enxurrada de dólares pode seguir destruindo nossa indústria… 

Promover a cizânia agora, Idelber,  é (além de tudo) burrice – perdoe-me a franqueza. Ganhamos (ou ajudamos a ganhar, de forma modesta) uma batalha em 2010. Essa troca de chumbo na blogosfera – que você parece estar fomentando – lembra-me a desagregação das forças republicanas na Guerra Civil Espanhola: Franco vinha com tudo pra cima – enquanto os socialistas, comunistas e “progressistas” em geral ficavam a discutir quem era a “verdadeira esquerda”. Acabaram todos fuzilados pelos franquistas.

Não acho que você, Idelber, queira cumprir esse papel da “esquerda que a direita gosta”. Não acho mesmo. Falo com toda a sinceridade. E nem pretendo prolongar essa polêmica. Só peço (se é que tenho o direito de fazê-lo) que você mantenha a calma, Idelber. Não faça do seu biscoito fino um biscoito ressequido…

Esqueça possíveis mágoas: só elas podem explicar o que você está fazendo (de forma inconsciente, tenho certeza – mas desagregadora). E acredite: muitos de nós reconhecemos seu papel fundamental na história da blogosfera. Você é importante pra todos nós, Idelber. Tão importante quanto o Nassif e vários outros blogueiros e blogueiras.

Viremos essa página, e bola pra frente!


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