escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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09 de setembro de 2011, 11h48

Memórias: complô anti-Gorbachev de 1991

Por Bridget Kendall: O presidente soviético Mikhail Gorbachev estava descansando em sua vila na Criméia, o parlamento soviético estava em recesso e eu tinha marcado uma partida de tênis. Londres, comunicando alguma história obscura, era um inconveniente que pressentia algo. Na linha estava o editor chefe que lia um enunciado provindo da Tass, a agência estatal de notícias soviéticas. Soava ameaçadoramente – o vice-presidente declarou estado de emergência e Gorbachev, ainda na Criméia, tinha alegado estar doente.

Nova luz lançada no complô anti-Gorbachev de 1991
Por Bridget Kendall, correspondente da BBC Moscou entre 1989-1993
Tradução por Gabriel Shimizu Bassi, do Controversia


Na segunda-feira, 19 de agosto de 1991, fui acordada cedo pelo telefone tocando. Suspirei profundamente

Eu estava ciente das tensões políticas, preocupantes porém silenciosas. Mas aconteceu naquele preguiçoso sono de agosto em Moscou quando nada aparenteremente aconteceria.

O presidente soviético Mikhail Gorbachev estava descansando em sua vila na Criméia, o parlamento soviético estava em recesso e eu tinha marcado uma partida de tênis. Londres, comunicando alguma história obscura, era um inconveniente que pressentia algo.

De qualquer maneira estava claro que não se tratava de uma história trivial.

Na linha estava o editor chefe que lia um enunciado provindo da Tass, a agência estatal de notícias soviéticas. Soava ameaçadoramente – o vice-presidente declarou estado de emergência e Gorbachev, ainda na Criméia, tinha alegado estar doente.

Pus uma roupa de corrida e agarrei um par de tênis – não havia tempo para se arrumar apropriadamente – e corri para nosso escritório da rádio BBC, a menos de um minuto de onde me encontrava.

Lá dentro as fotocopiadoras estavam funcionando ruidosamente. Não tínhamos computadores nesses dias. A máquina da Tass estava vomitando o decreto na íntegra dos líderes do complô, juntamente com uma confirmação provinda do líder do parlamento soviético.

Lago dos Cisnes
Lembro-me de pensar que se tratava somente de uma revolta no papel. As autoridades centrais cada vez mais fracas dessa atrasada era soviética estavam sempre fazendo pronunciamentos que aparentemente pareciam ilusões.

Em meu primeiro relato disse cautelosamente: “Isso possui todas as características de um golpe soviético”, sem confirmar se era verdade.

Peguei um dos nossos telefones de discagem direta para ligar à Lituânia – todos os outros telefones no escritório estavam restritos a números locais, e isso era antes do surgimento de telefones celulares ou e-mails.

Considerei que se isso era realmente um golpe, tanto as comunicações com as repúblicas bálticas rebeldes estariam cortadas como os tanques e tropas soviéticos já estariam nas ruas agora. Além disso, já havíamos tido uma tentativa abortada de utilizar a força militar soviética para endireitar a Lituânia em janeiro. Será que agora haveria um endurecimento real?

Porém uma sonolenta voz em Vilnius respondeu minha ligação com surpresa. Não, tudo estava quieto na Lituânia.

Então liguei a televisão. Programações do horário televisivo foram substituídas pelo balé Lagoa dos Cisnes, entremeadas com notícias de última hora lidas num pedaço de papel por um desajeitado homem de óculos sem teleprompter.

Eu era tipicamente soviética, tal como o clichê, eu mal podia acreditar.

Nos velhos anos de Brezhnev, músicas sombrias e declarações de notícias lacônicas sempre eram o sinal de que o líder do Kremlin havia morrido e um novo regime estava para começar. Era como se os comadantes do golpe acreditassem que, se se deixassem levar e se comportassem como na União Soviética anterior, alguém magicamente voltaria o relógio para essa época prévia.

Condenados

Depois de muito tempo recebi um telefonema de um amigo de Kutuzovsky, a oeste do centro da cidade, dizendo-me que tanques estavam nas ruas indo em direção ao Kremlin. Três dias de eventos surreais e bizarros estavam para se desdobrar.

Meus colegas da BBC chegaram ao escritório. Um correspondente correu à Casa Branca, o prédio do parlamento russo e o centro da resistência de Boris Yeltsin ao golpe.

Fora do nosso quarteirão encontramos um jovem soldado que tinha estacionado seu tanque próximo a uma passarela subterrânea. Ele se sentou e observou confuso, incapaz de ou refutante em responder às nossas perguntas. Nossa idosa senhora, Masha, castigou-o gentilmente, dizendo-o para ir para a casa de sua mãe.

Havia um ar teatral nisso tudo: a demonstração de força militar, os anúncios lacônicos na TV, o momento quando Boris Yeltsin entrou num tanque para desafiar os líderes do golpe e declarar sua ação ilegal, e o drama das pessoas comuns agarrando suas maletas e comprando bolsas, correndo para a Casa Branca para ter uma visão dos acontecimentos.

De qualquer maneira, sentiu-se que o golpe, mal pensado e somente executado pela metade, estava condenado desde o início.

De surpresa, não podemos esquecer, havia algo muito importante – o futuro da democracia na Rússia e sua relação com o mundo externo. E na primeira noite, quando já imaginávamos se iríamos ter uma batalha campal com muitas fatalidades, três jovens foram mortos.

Lojas vazias

O que é mais impressionante, tudo parecia muito mais deteriorado nas províncias.

Em anos subseqüentes encontrei um bom número de oficiais soviéticos que observaram os acontecimentos ocorridos fora de Moscou, dizendo que, em seus pontos-de-vista, tudo isso era mais sincronizado que parecia na época.

O país estava se chacoalhando para a anarquia econômica. As relações de comércio entre as repúblicas estavam se pulverizando. Muitas pessoas perderam a paciência com as reformas. Os oficiais dos partidos locais e até mesmo alguns líderes republicanos estavam no meio do muro, esperando por ordens ou observando quais eventos poderiam surgir.

Se os líderes do golpe tivessem levado seu plano em frente e prendido Yeltsin, se eles tivessem inundado as lojas vazias com alimentos – o que alguns dizem ter sido seus planos – e se eles mantivessem os nervos e convencessem a população que trariam a ordem e a estabilidade… quem sabe, o complô poderia, talvez, por um momento, ter obtido sucesso?

Era verdade que após seis anos de perestroika muitas pessoas, especialmente na capital, perderam seu medo do antigo regime e não eram persuadidas com facilidade à submissão.

Gorbachev admite nesse dia que, encarando a oposição popular, os líderes da revolta foram covardes e incompetentes demais para deixá-la acontecer. E havia muitas outras indicações que o sistema comunista antigo estava se implodindo e não duraria.

Mas pense nas confusas lições vindas de revoltas nesse ano no Oriente Médio.

Mesmo no século XXI, quando as mídias sociais podem alimentar e unir uma massa revoltosa, conseguindo um levante de sucesso para derrubar um ditador ou abater um golpe, é muitas vezes algo que envolve sorte e jogo de nervos – e as consequências não são nem sempre previsíveis.


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