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por Rodrigo Vianna

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05 de março de 2012, 12h14

O amor (e a moral) nos tempos do bicho

Do Correio Braziliense: O bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) conversaram por telefone 298 vezes entre fevereiro e agosto de 2011, como mostram as transcrições feitas pela Polícia Federal (PF) para a Operação Monte Carlo. O empresário da jogatina e o senador trocaram, em média, 1,4 ligação por dia no período. Falavam-se diariamente, até mais de uma vez por dia.

O amor nos tempos do bicho
Por Vinicius Sassine, no Correio Braziliense
Via Clipping MP

O bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) conversaram por telefone 298 vezes entre fevereiro e agosto de 2011, como mostram as transcrições feitas pela Polícia Federal (PF) para a Operação Monte Carlo. O empresário da jogatina e o senador trocaram, em média, 1,4 ligação por dia no período. Falavam-se diariamente, até mais de uma vez por dia. Ao Correio, Demóstenes deu uma justificativa de cunho sentimental para a proximidade ao empresário — ou “professor”, conforme expressão usada pelo parlamentar para se referir ao contraventor: “A mulher do meu suplente (Wilder Pedro de Morais) o deixou e passou a viver com Cachoeira. Eu e minha mulher tivemos de resolver esse problema. Por isso houve tantas ligações e encontros”.

Os policiais federais que fizeram as transcrições das conversas telefônicas, cuja quebra de sigilo foi autorizada pela Justiça Federal de Goiás, encontraram referências aos presentes dados por Cachoeira ao senador e ao prefeito de Águas Lindas de Goiás, Geraldo Messias (PP). Demóstenes ganhou do bicheiro uma cozinha importada dos Estados Unidos, com fogão e geladeira, avaliada em US$ 27 mil (R$ 46,7 mil, pela cotação do dólar de sexta-feira). A constatação do presente aparece numa fala de Cachoeira, dizendo ao senador que enviaria a cozinha. “Minha mulher é advogada e boa cozinheira. Nos casamos em 13 de julho do ano passado, e a mulher de Cachoeira nos prometeu um bom presente”, justifica o senador. O prefeito de Águas Lindas foi agraciado com uma viagem a Las Vegas, nos Estados Unidos, conforme as transcrições feitas pela PF. Geraldo Messias confirmou ao Correio que fez a viagem, em maio de 2011, com a mulher, e disse que o hotel foi pago pelo bicheiro. “Ele não pagou a viagem, mas deu para nós a estadia. O hotel é de uma pessoa ligada a ele.”

O deputado Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) também foi beneficiado pelo bicheiro: obteve vagas de emprego para eleitores. Dos deputados que aparecem nos grampos, Leréia é um dos mais frequentes. A investigação detectou 70 contatos telefônicos entre o deputado e o bicheiro. Em outros 20 diálogos, o empresário da jogatina cita Leréia nas conversas.

Policiais federais transcrevem da seguinte forma um desses diálogos: “Carlinhos solicita a Cida que explique para Maria José como faz para ela tomar posse na cota de Leréia”. O deputado disse ao Correio que não se recorda de Cida ou de Maria José. “Podem ser pessoas que pediram emprego. Conheço atitudes de generosidade de Carlinhos. Ele já me fez favores, como arrumar estágio num laboratório de pesquisa em Anápolis”, conta Leréia. Anápolis, a 50km de Goiânia, é a cidade de Cachoeira.

Boa parte das conversas entre o bicheiro e Demóstenes é para marcar jantares. Os dois evitam estender a conversa pelo telefone. Em um desses diálogos, o “doutor” Demóstenes diz ao “professor” Cachoeira que precisa falar com ele com “urgência urgentíssima”. Como o senador tem foro privilegiado e só pode ser investigado pela última instância — Supremo Tribunal Federal (STF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) —, o teor desses encontros não foi investigado. Os diálogos serão remetidos à PGR.

Demóstenes é líder do DEM no Senado e referência da oposição na Casa. Quando, em 2004, estourou o escândalo envolvendo Carlos Cachoeira e Waldomiro Diniz, então subchefe da Casa Civil e aliado direto do petista José Dirceu, Demóstenes engrossou as críticas ao primeiro escândalo do governo Lula. Waldomiro apareceu num vídeo cobrando propina de Cachoeira. “Continuo trabalhando da mesma forma”, diz o parlamentar.

O senador goiano diz que subirá à tribuna no plenário, nesta semana, para se explicar aos colegas. “Vou dizer que os jogos de azar foram banidos somente em 2005.” Ele nega ter recebido doações de campanha do bicheiro e diz não ver problemas em ter participado de 298 ligações com Cachoeira em sete meses. “Devo ter conversado 5 mil vezes com (o governador de Goiás) Marconi (Perillo), 10 mil vezes com minha mulher. Não estou ligado a nenhuma atividade criminosa”, assegura. Ainda segundo o senador, não há “vedação legal ou ética” por ter recebido presentes de “uma pessoa considerada limpa”. “Descobri que ele era contraventor nesta última semana”, surpreende-se.

Cautela
O PT adotou uma postura de cautela diante da divulgação das relações de amizade entre Demóstenes e Cachoeira. O líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA), disse que o partido “não vai fazer com eles o que eles fazem com a gente”. O senador diz ter certeza de que, pelo perfil de Demóstenes, ele vai à tribuna se posicionar e explicar todos os fatos. “Claro que uma ligação com o Cachoeira nunca é uma boa asa, mas temos de aguardar”, pondera Pinheiro. Cachoeira continua preso no presídio de segurança máxima de Mossoró (RN). Até o início da noite de ontem, não havia decisão do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região sobre o pedido de habeas corpus formulado pela defesa do bicheiro. Além de Cachoeira, a Operação Monte Carlo, deflagrada na última quarta-feira, resultou na prisão de 30 pessoas, entre policiais militares e delegados da PF de Goiás.


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