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por Rodrigo Vianna

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19 de março de 2014, 11h04

O crescimento da direita e a marcha da família

É fundamental entender o processo de “reacionarização”. Existem dois tipos básicos de sentimentos a serem combatidos: o reacionarismo de valores e o sentimento anti-Estado, que se alimenta das inúmeras deficiências da administração pública brasileira.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, de 1964

Por Rodrigo Salgado, em seu blog

Tenho reparado que de um tempo pra cá, ronda certo espanto nas redes sociais. Dentro de todo o campo progressista (que considero como sendo da centro-esquerda até os mais revolucionários, partidários ou não), não é incomum ver textos, tuítes e posts indignados com o reacionarismo crescente que pulula na internet e fora dela. Das redes sociais às ruas, passando por canais de televisão, cresce rapidamente a presença de ideias homofóbicas, racistas, classistas, antipetistas, contra a esquerda em geral, conservadoras e antiestatais.

Para contribuir com o debate e organizar as ideias, tento pontuar alguns fatores que penso ser relevantes para a reflexão.

1. Fim da quarentena

Oficialmente, a ditadura militar acabou em 1985. Independentemente dos motivos que levaram ao seu fim, o fato é que os derrotados foram – ao menos no que diz respeito ao controle estatal – os militares e a direita. Basicamente, toda ditadura se organiza em torno dos discursos do medo, da ordem e dos “valores do homem de bem”, notadamente aqueles ligados ao conservadorismo religioso.

Com a queda do regime, é natural que o discurso contrário cresça. E não só. Junto com a derrota, vem a vergonha dos valores apregoados. Por mais que a transição tenha sido negociada e efetivamente tenha protegido o terrorismo de Estado, no campo “moral” houve um inegável silêncio por parte dos conservadores. Hoje, 29 anos depois do fim do golpe, a quarentena da vergonha reacionária acabou.

Em outras palavras, havia um contingente razoável de pessoas que sempre acreditou nestes discursos e por medo ou vergonha, estava calado. Com a distância dos anos de chumbo, a vergonha rareou e eles saíram da toca.

2. Derrocada do desenvolvimentismo

A marca do pensamento latino americano do século passado foi sem sombra de dúvidas a escola estruturalista, em suas inúmeras formas. Aqui, desde 1930, discutimos o modelo de desenvolvimento a ser adotado. O golpe militar enterrou o modelo nacionalista, baseado em investimento estatal para empresas brasileiras, públicas ou privadas. O fim da ditadura enterrou a outra grande vertente, baseado no investimento externo com foco em multinacionais.

A ascensão do main stream monetarista desde Collor ventilou por aqui novos ares em velhas ideias. Com o neoliberalismo ressuscitou-se o sentimento privatista anti-Estado. Juntando-se com o velho lacerdismo e o próximo item, cria-se mais caldo para a cultura conservadora. Cresce então a figura de quem é conservador nos valores (moralismo anticorrupção) e liberal na economia (anti-Estado).

3. 12 anos de PT

Por mais petista que você seja, é impossível não achar que depois de 12 anos o partido que governa o país não tenha cometido toda espécie de erro. Assim, como não se agrada todo mundo nem quando morto, é normal que o sentimento antipetista cresça. Como citei acima, os inevitáveis erros de ser gestão e as escolhas do governo se agravam na somatória dos pontos 1 e 2.

4.  Redes sociais

Outro fator importante, plataformas como Facebook, Twitter e afins, se não são a tão sonhada democratização do acesso à informação, ajudaram em muito na proliferação de ideias. Boas ou não. O efeito delas é tão forte que não é nada incomum que os maiores jornais televisivos pautem discussões virtuais em suas edições. Acho que o “efeito novidade” também contribui para o peso que as redes têm sobre o noticiário, passando a falsa impressão de que qualquer linha de pensamento é muito maior do que realmente é.

5. Jornadas de junho/13

Por conta do item 1, durante anos quem monopolizou a pauta de reivindicações no país foi a esquerda e em especial, o PT. Com a vitória eleitoral de 2002, os movimentos sociais “de grande porte” entraram em compasso de espera. Odeio a ideia de cooptação (até porque boa parte dos movimentos nasceu do PT), mas independentemente da análise que façamos, o fato é que junho destampou a panela das manifestações.

Eu mesmo presenciei cenas bizarras. Numa das maiores manifestações em São Paulo, cheguei ao ato topando com um grupo de amigos anarquistas. Após andar 5 minutos, me vi ao lado de um grupo de ultra-direita, que pregava trabalhos forçados, fim da maioridade penal, pena de morte e estultices do tipo. Andando uns 20 passos à frente, vi Nabil Bonduki, vereador do PT. Mais um minuto de caminhada, um grupo do PSOL, que caminhava lado a lado com aquele pessoal do “sem partido”. Estar no governo tirou naturalmente a capacidade do PT de aglutinar e focar as ações dos movimentos que nas décadas passadas ocuparam as ruas.

6. Crescimento econômico em descompasso com a infraestrutura

Confesso que ando meio de saco cheio com o discurso “inclusão através do consumo”. De qualquer forma, é fato que assim como o boom econômico da ditadura foi fator importante para a destruição de serviços públicos urbanos como a educação, o aumento da renda do brasileiro está provocando o colapso das estruturas de serviço, públicas ou privadas. O aumento do poder de compra e da quantidade de consumidores cria bolhas e gargalos em todos os segmentos da economia, gerando mais insatisfação, que é inflada pelo antipetismo e o ativismo nas redes sociais.

7. Nicho de mercado

Onde há público, há mercado. Pensando nisso, figuras como Silvio Santos e o grupo Abril têm especializado seus noticiários para fomentar tanto os nichos reacionários quanto os ultra-liberais. Não que eles não sejam conservadores e anti-Estado. A questão é que a ocasião faz o ladrão e nesse caso, juntou-se a fome dos neo-conservadores com a vontade de comer da imprensa. Não que seus donos nunca gostem muito do PT, apesar dos inolvidáveis esforços do partido para agradá-los. Essa retroalimentação dos meios de comunicação também passa a impressão de que o conservadorismo é maior do que efetivamente é.

É importante lembrar que não descarto a hipótese de estarmos vivenciando uma guinada conservadora. O que pontuo é que havia uma demanda reprimida que após a distensão da ditadura, normalmente voltou à superfície. Há quem se aproveite do momento para tentar inflá-la, sugerindo golpes – brancos ou não – tanto na institucionalidade quanto ao PT.

A ideia aqui é passar elementos que ajudem a desmistificar o sentimento de um “ataque total da direita” contra o PT, esquerda ou qualquer outro grupo que não seja ou conservador ou liberal (ou os dois).

Prova de que o poder de fogo é menor do que sugerem algumas análises mais histéricas é que a indignação com o discurso ultra-reacionário de certos comentaristas provoca reações institucionais e individuais. Ao que vi, a comentarista do SBT foi obrigada a se retratar e pairam possíveis processos contra a emissora e a própria jornalista.

Outra coisa que é importante é manter o foco na disputa política da sociedade. Sem nos esquecermos dos recursos judiciais e estatais para coibir comentários e práticas que flertam com o fascismo, é fundamental disputar todos os espaços políticos com política. A histeria só corrobora para dar audiência ao reacionarismo.

Outra coisa fundamental é entender o processo de “reacionarização”. Como disse, existem dois tipos básicos de sentimentos a serem combatidos. O primeiro é o reacionarismo de valores: homofobia, racismo e preconceito de classe (ou melhor, contra pobre). Ainda que de forma velada, não é muito difícil encontrar comentários homofóbicos por quem se diz progressista (ou de esquerda). Ao mesmo tempo, há o sentimento anti-Estado, que se alimenta das inúmeras deficiências da administração pública brasileira. Os anos neoliberais das últimas duas décadas – juntamente com a mãozinha das tradicionais deficiências estatais – insuflaram quem acha que “Estado é mau, mercado que é legal”.

É importante diferenciar quem é quem aqui, até porque existem pautas que são comuns à esquerda e aos ultra-liberais, como a descriminalização das drogas, a questão do aborto e afins. Mais ainda, é fundamental entender que a classe dominante muitas vezes se vale do discurso moralista para alcançar seus próprios fins, qual seja, aumentar a presença dentro do Estado. O discurso pró-privatização (que conta sempre com a ideia anticorrupção) é o melhor exemplo.

Por isso, além de compreender que há um contingente grande de pessoas – em qualquer sociedade – que é e sempre será reacionária (e ultra-liberal), é urgente que os grupos de esquerda percebam que há uma reorganização não só da direita, mas de todo o espectro político brasileiro. Se as demandas são as mesmas há séculos, as formas como se apresentam e seus interlocutores, não.

Penso que o futuro é totalmente incerto, podendo variar de um avanço no que tange aos direitos civis até um retrocesso democrático absurdo. Lógico que existem fatores importantes que não foram considerados, como o avanço do conservadorismo religioso e a crise internacional. Mas acho que isso pode ser assunto pra outro post. Por hora, é importante entender que apesar de crescente, o conservadorismo brasileiro ainda é menor do que parece.


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