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por Rodrigo Vianna

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21 de março de 2011, 12h19

Chefe dos cruzados vai ao Redentor

Era meia-noite de sábado pra domingo quando um gringo ligou no meu celular e - com um sotaque carregado mas de forma muito polida - avisou: "senhor Rodrigo, aqui é o Eric, do consulado [não disse qual consulado, acho que pra ele só existe um "Consulado"], o presidente [qual presidente, de que país? ele também não disse] não vai mais ao Cristo Redentor domingo pela manhã; programação mudou, ele vai à noite."

por Rodrigo Vianna

Era meia-noite de sábado pra domingo quando um gringo ligou no meu celular e – com um sotaque carregado mas de forma muito polida – avisou: “senhor Rodrigo, aqui é o Eric, do consulado [não disse qual consulado, acho que pra ele só existe um “Consulado“], o presidente [qual presidente, de que país? ele também não disse] não vai mais ao Cristo Redentor domingo pela manhã; programação mudou, ele vai à noite.”

Logo entendi: Obama, que chegava de Brasilia, precisava de um tempo domingo de manhã pra tratar de assuntos de governo, para articular a guerra com a Líbia. Ok. Ganhei algumas horinhas de sono domingo cedo, mas trabalhei o dia todo na cobertura dos outros eventos, e à noite ainda tinha a visita ao Cristo.

Vocês pensam que subimos até o Cristo por nossos próprios meios? Não. As instruções eram claras: pouco antes das seis da tarde de ontem, devíamos nos apresentar na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde nos aguardavam funcionários do governo dos Estados Unidos. O grupo de jornalistas entrou num microônibus alugado pel Consulado dos EUA, e subiu serpenteando pela Floresta da Tijuca. Chegamos a Cristo às 19h, e já não havia vestígio de Brasil por lá. O maior símbolo brasileiro tinha sido entregue aos cuidados da segurança dos Estados Unidos.

Mas nem tudo é política. Nenhum dos jornalistas brasileiros ali presentes nunca havia subido ao Cristo durante a noite. Lado a lado com os colegas vindos dos EUA, ficamos embasbacados com a vista noturna. Do alto, vê-se tudo iluminado, de maneire feérica: a Lagoa, os navios fundeados na baía, a ponte Rio-Niterói, e os maciços montanhosos que desenham uma das paisagens urbanas mais lindas do Planeta (do que já conheci, só a Cidade do Cabo rivaliza com a beleza do Rio). E isso não é (só) um clichê. É a realidade, confirmada ontem mais uma vez.

Tiramos fotos, e como qualquer turista ficamos ali do alto tentando advinhar onde estavam ruas, bairros, casas. Posicionamos câmeras onde a segurança da Casa Branca determinou. E aí, mais uma surpresa: “agora vocês deixem aí os equipamentos e desçam, porque tudo será revistado”. Ou seja: eles revistaram câmeras, bolsas, tudo… Sem a nossa presença. E sem a presença de nenhum brasileiro.

Quando voltamos para nossos “postos”, sempre sob comando de um baixinho norte-americano, ainda havia um cão farejador (de nacionalidade estadunidense, porque cães brasileiros são suspeitos) por ali. Aliás, fez um xixi desavisadamente justo no trajeto por onde a família Obama passaria. Mas era xixi de cachorro gringo. Permitido. Jogaram uma aguinha em cima, e não se falou mais nisso.

Às 21 horas veio o aviso: Obama está chegando.

Ajeita  tripé, ajusta a câmera e, lá vem ele, simpático, com a família toda. Todos agasalhados – porque havia um ventinho àquela hora da noite.

O cinegrafista fazia as imagens, e eu comecei a fazer a narração, a “passagem” (aquela hora em que o repórter dá seu testemunho, contando o que vê). Um gringo que nem sei quem era começou a dizer “psh, psh”. Não era jornalista, mas funcionário da Casa Branca. “Please, let´s enjoy this moment”. Deu a entender que eu precisava calar a boca para que  o presidente pudesse desfrutar da vista, e do momento de espiritualidade. “Tenho que fazer meu trabalho”, respondi. E tasquei a segunda vez. Consegui, mas o cara continuava “psh, psh”.

Não cheguei a tirar os sapatos pra eles. Mas confesso que ver o Cristo dominado daquela forma pela segurança dos EUA, e ainda levar um “psh, psh” de um moleque da Casa Branca me deixou bastante irritado. Ainda mais que, na hora de fazer as imagens, os jornalistas brasileiros cumpriram tudo que estava combinado (não avançar além de determinado ponto etc), enquanto a turma dos EUA invadiu, entrou na nossa frente – assim como os seguranças.

Claro que isso tudo é detalhe. O que importa nos jornais e telejornais é a imagem de Obama aos pés do Cristo. Imagem que tem um enorme peso simbólico no momento em que os EUA comandam mais um ataque a país de maioria muçulmana: “o líder do mundo cristão ocidental vai buscar energia espiritual aos pés do redentor, antes de comandar mais uma cruzada contra o mundo muçulmano.”

É um símbolo. Muito mais importante, eu diria, do que o moleque da Casa Branca cantando de galo na casa dos outros e  dizendo “psh, psh” pra um jornalista brasileiro…

Depois de tanta irritação, só havia um jeito de terminar bem o dia: chopp e sanduíche de pernil, no bom e velho Cervantes. Saí do hotel no Leme, desviei de algumas moças mais afoitas na Prado Junior, e debrucei-me sobre a refeição altamente calórica, já no início da madrugada: “Aha-uhu, o Cervantes é nosso.”


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