escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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23 de Maio de 2011, 11h20

O paradoxal caminho da história

A difícil arte de pensar o mundo é fruto de uma caminhada árdua da humanidade, com os naturais avanços e recuos, teses e antíteses que permeiam toda e qualquer atividade do homem. Tais reflexões as faço movido pelo desejo sincero de compreender algumas nuances do atual momento político brasileiro, em particular o sutil, mas nem sempre, jogo de esgrima entre parte da esquerda brasileira e os governos do presidente Lula e agora o da presidenta Dilma Roussef.

O paradoxal caminho da história (*)
Por Izaías Almada

O pensamento reflexivo, a pesquisa e a investigação científicas, a análise sociológica apurada e cuidadosa, a sistematização de determinada teoria a partir de sua práxis, a catalogação histórica do conhecimento humano, a sustentação de uma doutrina econômica são – ao lado de tantas outras que poderiam ser aqui nomeadas – atividades intelectuais exercidas pelo homem e que necessitam de tempo, por vezes anos, para que possam ser validadas, eventualmente aceitas e incorporadas ao nosso conhecimento.

Esse tem sido, grosso modo, o caminho percorrido pelo saber acumulado e também o leito natural das ideologias que se constroem nos vários campos do saber. Portanto, essa difícil arte de pensar o mundo é fruto de uma caminhada árdua da humanidade, com os naturais avanços e recuos, teses e antíteses que permeiam toda e qualquer atividade do homem.

Tais reflexões as faço movido pelo desejo sincero de compreender algumas nuances do atual momento político brasileiro, em particular o sutil, mas nem sempre, jogo de esgrima entre parte da esquerda brasileira e os governos do presidente Lula e agora o da presidenta Dilma Roussef. Já me explico.

Com o final dos anos de chumbo e o bipartidarismo artificial imposto pela ditadura civil/militar de 64/68, o país pareceu respirar novos ventos democráticos com a perspectiva de um Congresso não cerceado e manipulado, o fim à censura, a volta da livre organização partidária, da liberdade de imprensa, da anistia concedida aos opositores do regime que chegaram até a luta armada, a reorganização dos sindicatos de trabalhadores, a volta da UNE, o surgimento dos novos movimentos sociais etc., etc.

Até então, e estamos falando da segunda metade da década de 80, o mapa político brasileiro pós 64/68 mostrava a direita e os apoiadores do golpe de um lado e os democratas e progressistas do outro. Entre esses últimos, integrantes de uma esquerda ainda desarticulada e procurando se organizar após 21 anos de opressão, censura na imprensa, nas artes e nas universidades, prisões, mortes, desaparecimentos, faltas de garantias constitucionais, de liberdade de expressão, de livre manifestação do pensamento.

A perspectiva de se reorganizar o país a partir do movimento das Diretas Já e da eleição ainda indireta de Tancredo Neves, apenas para estabelecermos uma data, ao mesmo tempo em que fazia renovar a esperança de milhões de brasileiros, empurrava para a lateral do campo outros milhares não muito satisfeitos com as regalias das quais teriam que abrir mão enquanto beneficiários de um regime opressor, concentrador de riquezas e alinhado aos interesses do capitalismo internacional e seus eternos vigilantes externos e internos.

Mas a História caminha e o seu caminhar é, por vezes, surpreendente, enigmático e até mesmo paradoxal. O que, aliás, não deveria surpreender aos que continuam a ler as transformações dos últimos anos através das lentes da dialética. A complexidade das relações econômicas do mundo contemporâneo e a sua influência sobre as relações sociais e humanas, na medida em que o avanço da ciência e da tecnologia coloca à disposição de todos nós, mortais, um número cada vez maior de possibilidades de sobrevivência e de grandes descobertas em todos os campos do saber, cria novas necessidades, novos intercâmbios comerciais e culturais… e novas contradições. Como cria também a síntese e a superação dessas contradições. E, porque não dizer, pode criar ao mesmo tempo desvios, incompreensões e até aquilo a que muitos não irão se privar de considerar como traições políticas. Algumas incontestáveis até, outras improváveis.

A cortina de fumaça provocada pelo neoliberalismo econômico que vigorou e reinou nos anos 80 e 90 do século passado criou certezas e ilusões, falsas ou não, equilibrou-se em meias verdades, manteve expectativas de uma nova era avançada do capitalismo, em particular do financeiro e improdutivo, e fez – em várias ocasiões – vacilar o pensamento alternativo de esquerda, pelo menos nos seus matizes clássicos de rupturas, uma vez que os movimentos em países como a Venezuela, o Equador e a Bolívia, nossos vizinhos, indicaram e indicam rupturas não convencionais e de modelo tradicional aos cânones dos que propõem saídas mais radicais.

E mais: concretamente acabou-se por arrefecer parte da luta por um mundo diferente e a possibilidade de uma alternativa socialista como novo, desejável e salutar caminho para a humanidade. Socialismo ou barbárie foi o que começamos a nos indagar. Alternativa, alías, antevista e sistematizada por vários pensadores já lá na segunda metade do século XIX a aprofundada no século XX. Nenhuma novidade, portanto.

A novidade, contudo, e acreditamos ser ela inegável, está no fato de que, mesmo considerando as duas guerras mundiais eclodidas na Europa, onde se disputava, entre outras questões, a hegemonia econômica do planeta, as lutas anticolonialistas e algumas vitórias socialistas, o século XX criou – através de uma produção industrial cada vez mais poderosa e avassaladora, com os meios de comunicação e de transportes marítimos e aéreos oferecendo oportunidades de trocas comerciais cada vez mais rápidas, com destaque para uma renovada e agressiva indústria armamentista, uma poderosa indústria automobilística e uma inescrupulosa indústria farmacêutica; com o advento do rádio, da televisão, de um cinema cada vez mais pujante, de uma indústria de comunicação cada vez mais abrangente e por último, mesmo não sendo o mais importante, com o recente milagre da informática e seus periféricos e derivados – o século XX criou, repito, um novo patamar, uma nova dimensão social e temporal para as transformações da humanidade. Dimensão esta que, por sua característica, está umbilicalmente ligada à rapidez com que se dão as próprias transformações dentro do sistema. E que são cada vez mais necessárias para a própria sobrevivência do capitalismo.

Avanço científico e tecnológico rápido, organização e tentativa também rápida de massificação de um pensamento único que respalde esse avanço, disseminado e sustentado por um poderoso aparato mediático mundial; paulatina destruição das grandes conquistas dos trabalhadores ao longo das duas últimas décadas do século XX e a primeira do século XXI; a elitização do ensino e a criação do saber ou do conhecimento especializado, paradoxalmente aumentando em larga escala o desconhecimento do homem sobre si próprio e do meio em que vive; a despolitização programada dos cidadãos através de uma produção cultural dirigida, sensacionalista, melodramática e alienante são alguns dos grandes e não poucos desafios do homem contemporâneo.

Mudar esse estado de coisas usando as armas tradicionais da análise sedimentada no estudo abrangente, sistematizado e verticalizado da realidade em que vivemos, conforme alinhamos no início desse artigo é tarefa que se torna arriscada e por vezes até infrutífera, colocando os pensadores de esquerda, por vezes, numa sinuca de bico, transformando-os em verdadeiros Sísifos da contemporaneidade.

Não adianta tamparmos o sol com a peneira. A realidade brasileira dos últimos oito anos, seja para o bem ou para o mal, mudou com enorme rapidez. Esse é um dado concreto. E uma parte da esquerda parece que não conseguiu acompanhar algumas dessas mudanças, isso quando não torce o nariz para algumas delas. Muitas dessas mudanças, aliás, senão a maioria ainda se dá no campo do próprio sistema. O governo Lula da Silva não se propôs a uma revolução socialista no Brasil, mas dos últimos governos republicanos foi o que mais benefícios trouxe às populações de baixa renda, criando o aumento do emprego formal, diminuindo a pobreza e preparando o país para um modelo desenvolvimentista endógeno e voltado para a soberania da nação.

O Brasil do século XXI dificilmente poderá ser construído apenas a partir de concepções conflitantes que permearam a nossa história política e econômica do pós guerra e da fase mais aguda da guerra fria dos anos 60 do século XX envolvendo o capitalismo e a alternativa socialista. Esse conflito permanece, mas requer por parte da esquerda e dos democratas progressistas flexibilidade, maleabilidade e urgência nas suas proposições e idéias. Até por que será sempre mais fácil rápido e aliciante defender as maravilhas de um sistema que usa o poder econômico e o sucesso pessoal como arma de propaganda e alienação, ao contrário daqueles que defendem na contra corrente as idéias que podem substituir esse mesmo sistema por outro mais humano e igualitário

* Publicado originalmente no site Carta Maior.


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