quinta-feira, 24 set 2020
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Os pernambucanos vão acompanhar a orientação do PSB?

“Dilma tem todas as condições de abocanhar a maior parte dos votos de Marina Silva em Pernambuco, principalmente nas classes populares e médias baixas, aumentando sua vantagem”

Por Jonatas Campos, de Recife, especial para o Escrevinhador

Agora é oficial: a executiva do Partido Socialista Brasileiro (PSB) prestou apoio à candidatura de Aécio Neves no segundo turno dessas eleições. Mais ainda, ao que parece, essa decisão teve forte influência do PSB pernambucano e da família do falecido governador Eduardo Campos.

A vitória acachapante de Paulo Câmara (PSB) para o governo do Estado colocou o partido no centro do debate sobre as futuras adesões. Alguns colunistas políticos, inclusive, especularam que as condições impostas ao PSDB para o apoio em 2014 passou por uma aliança em torno do nome do atual prefeito da capital, Geraldo Júlio (PSB), em 2016.

Paulo Câmara já assume funções de liderança ao anunciar o apoio do seu partido à candidatura de Aécio, ao pedir “alternância de poder”, mesmo sendo o terceiro governador do PSB em Pernambuco em menos de oito anos.

Como bom “eduardista”, Câmara não deixou de criticar Dilma ao mesmo tempo em que elogia o ex-presidente Lula. O candidato vitorioso a senador Fernando Bezerra Coelho, pelo PSB, um ex-ministro da presidenta Dilma até pouco menos de um ano, manteve-se discreto nos últimos dias.

Mesmo depois de vitimado pela tragédia que ceivou sua vida, Eduardo Campos exerce forte influência no Estado, junto com o ex-presidente Lula, que é poupado de qualquer crítica, mesmo que os socialistas repitam que querem “tirar o PT do poder”.

No entanto, a adesão do PSB ao palanque de Aécio Neves configuraria, de fato, uma transferência do desempenho eleitoral de Marina Silva para o tucano? Em Pernambuco ,Marina Silva obteve 48,05% dos votos, em torno de 2,3 milhões de eleitores. Dilma Rousseff recebeu 44,22% dos votos, que representa 2,12 milhões de eleitores. Aécio Neves ficou com 5,92%, a escolha de apenas 284.7701 eleitores.

No segundo turno, não existe nenhum fator que justifique qualquer redução do voto de Dilma na maioria dos pequenos municípios em Pernambuco, com até 20 mil habitantes. Em alguns deles, a presidenta obteve resultados de 84%, como foi o caso dos municípios de Solidão e Carnaubeira da Penha. Nessas cidades, Marina Silva obteve votações entre 10 a 13%. E Aécio Neves ficou na casa dos 4%.

Nas cidades médias pernambucanas, a influência dos programas de Pandora Silver Charms desenvolvimento do governo federal e das obras de infraestrutura, muitas delas inauguradas por Lula, Dilma e Eduardo Campos, também dão uma dianteira para Dilma, mesmo que em menor proporção que nos municípios pequenos.

Salgueiro, no sertão central, e Palmares, na Mata Sul, têm prefeitos do PSB que lograram votações expressivas para seu candidato a governador, mas que amargaram uma vitória de Dilma por 65,6% e 58,7%, contra 25,6% e 38,2% de Marina Silva, respectivamente. Aécio permaneceu com índices de 8,3% e 4,6%.

Na Região Metropolitana do Recife, a hegemonia do PSB garantiu ampla vitória de sua candidata. Na capital, em Jaboatão dos Guararapes e em Olinda, as cidades mais populosas, Marina Silva sagrou-se com uma média de 60% dos votos, enquanto Dilma pontuou na casa dos 26% a 30%. Essa larga vantagem deu a Marina Silva uma vitória em Pernambuco, com brecha de 184 mil votos à frente de Dilma.

Nestes segundo turno, a campanha eleitoral do PT vai usar a influência de Lula e de sua militância para tentar reverter esse quadro desfavorável na Região Metropolitana contra Aécio.

Tampouco é unanimidade esse recente apoio do PSB a Aécio Neves. Além de vozes nacionais dissonantes, como as da deputada federal Luiza Erundina e do presidente do nacional da legenda, Roberto Amaral, que advogaram a neutralidade do partido, velhos seguidores do ex-governador Miguel Arraes tendem a permanecer no campo da esquerda, com o voto em Dilma.

O Arraesismo tem perdido influência no partido para a nova geração de “técnicos” e amigos de Eduardo Campos, ao lado da ex-primeira dama Renata Campos, que se constituem como as novas lideranças do PSB no Estado.

O PSOL de Pernambuco, assim como o do Rio de Janeiro, já prega a campanha “Nenhum voto para Aécio” e é majoritariamente a favor a um apoio crítico a Dilma no segundo turno.

Apesar de pequeno em Pernambuco, o PSOL elegeu um deputado estadual e conquistou um importante espaço nos movimentos urbanos e de juventude no Estado, principalmente por ter dado apoio integral à ocupação de uma área que foi vendida para grandes construtoras, o que ficou conhecido nacionalmente como o movimento #OcupeEstelita.

Na vizinha Paraíba, o governador Ricardo Coutinho (PSB) já confirmou sua participação na campanha de Dilma, que se encontram nesta semana.

Pode ser bastante imprevisível a reação da população pernambucana ao ver o tradicional aliado do PT, juntos em campanhas eleitorais nos últimos 20 anos, pedindo votos para um adversário comum, configurado na antítese do que pregou Lula e Eduardo Campos no Estado.

Dilma tem todas as condições de abocanhar a maior parte dos votos de Marina Silva em Pernambuco, principalmente nas classes populares e médias baixas, aumentando sua vantagem. Além disso, mais de 1,5 milhão de pernambucanos se abstiveram ou votaram branco ou nulo no primeiro turno, sendo alvos de ambas as campanhas.