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por Rodrigo Vianna

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24 de março de 2011, 11h04

Para norte-americanos, Serra é nacionalista

Em fevereiro de 2009, o consulado americano de São Paulo se dedicou a fazer um perfil de José Serra, então governador paulista e possível candidato presidencial em 2010. O tucano é descrito como alguém de personalidade complexa, características peculiares e focado no trabalho. Além disso, em diversos momentos é ponderado que Serra tem um viés nacionalista – que não agrada tanto aos diplomatas – mas pode ser um bom parceiro.

por Juliana Sada

Em fevereiro de 2009, o consulado americano de São Paulo se dedicou a fazer um perfil de José Serra, então governador paulista e possível candidato presidencial em 2010. O tucano é descrito como alguém de personalidade complexa, características peculiares e focado no trabalho. Além disso, em diversos momentos é ponderado que Serra tem um viés nacionalista – que não agrada tanto aos diplomatas – mas pode ser um bom parceiro.

O perfil foi construído a partir de conversas com diferentes tucanos e analistas. O documento confidencial assinado pelo Cônsul Geral Thomas J. White foi revelado pelo Wikileaks, em sua parceria com a blogosfera progressista.

Nacionalista e independente

Uma das características do Serra, que é diversas vezes citada, é sua “forte inclinação nacionalista”.  O documento analisa que se eleito, Serra assumiria a presidência em um continente polarizado mas provavelmente teria “pouca paciência, e pouco em comum, para as palhaçadas dos caudilhos (Evo Morales, Hugo Chavez), que agora lideram a esquerda anti-Wahington da América do Sul”. Além disso, continua o telegrama, “o nacionalismo de Serra levaria ele a lidar com um problema cada vez mais reconhecido pelos especialistas em política externa: a crescente instabilidade dos vizinhos e suas possíveis repercussões para o Brasil”.

White afirma que Serra foi “claramente influenciado pelas correntes antirregime militar que circularam pela América Latina”. Ainda assim, ele nunca teria caído em uma crítica simplista dos Estados Unidos ou do capitalismo. Para o Cônsul Geral, Serra manteria uma postura independente em relação aos EUA mas “poderia funcionar como um interlocutor positivo”.

Entretanto, White já identifica um “potencial conflito”: “o evidente nacionalismo do Serra na área de energia”. O Cônsul se refere às críticas feitas pelo tucano à política dos Estados Unidos na Conferência de Biocombustíveis, ocorrida em São Paulo. De acordo com o telegrama, Serra teria chamado de “ineficiente e prejudicial” a política de apoio ao etanol de milho, que teria contribuído para o aumento dos preços dos alimentos.

Figura complexa

O telegrama também relata as curiosidades da personalidade de Serra, “um político atípico com peculiaridades particulares”. O Cônsul cita sua insônia, aparente estilo antissocial, introversão e  dificuldade de acesso e confirmação de compromissos –  “até seus amigos concordam que ele é difícil.”

De acordo com o perfil do consulado, Serra “fica desconfortável em ambientes sociais descontraídos e interações pessoais, nas quais a maioria dos políticos se sobressaem”.

Educação básica

O telegrama aponta como um “interesse peculiar” do governador a “paixão pela educação elementar”. O texto relata que uma vez por semana o então governador visitava alguma escola pública para conhecer as condições do local e dar uma aula aos alunos, em geral de matemática. “Serra, que tem grandes problemas em lidar com outros adultos, rapidamente estabelece um laço com as crianças”.

Saldo positivo
Apesar das ressalvas à postura de Serra e a sua personalidade complexa, o Cônsul crê que o tucano pode ser uma bom parceiro para os Estados Unidos: “suas características podem parecer desagradáveis mas, se tratadas cuidadosamente, podem também se transforma nos tijolos na construção de uma relação positiva”.

Nas relações internacionais, acredita-se que Serra utilizará uma tática similar à do presidente Lula: “abordando temas domésticos e de interesse regional, talvez empregando uma retórica de esquerda, ao mesmo tempo que se engaja ativa e responsavelmente com os Estados Unidos, de maneira bi e multilateral”.

Para White, Serra seria um interlocutor complicado mas que poderia ser “um bom amigo funcional dos Estados Unidos, provendo uma liderança competente ao maior país da América Latina e desenhando um contraste positivo entre seu estilo baseado em resultados e o de seus vizinhos populistas”.


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