escrevinhador

por Rodrigo Vianna

Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
12 de setembro de 2011, 11h07

Queda nos juros: os arrogantes injuriados

Por Delfim Netto: O “mercado” sente-se injuriado! Os arrogantes analistas que tão bem defendem os interesses dos clientes rentistas não perdoam a ousadia do Banco Central de ignorar suas avaliações “científicas” e fazer a baixaria de cortar em meio por cento a taxa básica de juro, contrariando o consenso pacientemente costurado de manter a Selic onde estava, aqueles confortáveis 12,5%.

Arrogantes injuriados
Por Delfim Netto, na CartaCapital

O “mercado” sente-se injuriado! Os arrogantes analistas que tão bem defendem os interesses dos clientes rentistas não perdoam a ousadia do Banco Central de ignorar suas avaliações “científicas” e fazer a baixaria de cortar em meio por cento a taxa básica de juro, contrariando o consenso pacientemente costurado de manter a Selic onde estava, aqueles confortáveis 12,5%.

As afirmações de que o BC abriu mão de sua “independência” ou abandonou o sistema de metas de inflação para atender o governo, além de irresponsáveis ofendem a memória alheia.

É interessante como se proclama a independência quando sobem os juros; por que a sensação de perda apenas quando os juros baixaram? A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa básica de juro talvez tenha sido a primeira demonstração em muitos anos de um BC independente perante o sistema financeiro privado, quer dizer, voltar a ser um organismo do Estado brasileiro.

Isso revela que ele observou com cuidado os problemas da economia internacional, foi profundo no exame da deterioração financeira dos países-problema para tomar uma decisão autônoma, diante da convicção que adquiriu sobre os riscos que temos pela frente. A realidade é que a economia mundial está se despedaçando a olhos vistos e o melhor que o BC tem a fazer é procurar se antecipar às consequências de uma dramática redução do crescimento na grande maioria dos países.

Essa percepção de que é melhor não esperar acontecer parece ter sido a grande mudança de postura entre o que aconteceu com o BC em 2008 e o que está se processando agora. Naquela ocasião tivemos a oportunidade de fazer um corte radical nos juros, o que teria evitado uma boa parte da queda de crescimento do nosso PIB em 2009. Não o fizemos por um excesso de prudência e também porque não tínhamos as informações que talvez orientassem melhor o BC, como está acontecendo hoje.

A surpresa que tomou conta do tal mercado e produziu a raivosa reação que estamos -vendo hoje foi simplesmente porque muitos autores das análises pretensamente científicas não imaginaram que o BC poderia não obedecer às suas conclusões. Estavam viciados em conduzir o Copom pela coleira, convencidos de que era sua a visão privilegiada do mundo e não tinha probabilidade de erro.

O BC agiu certo em não esperar mais para iniciar a redução da taxa básica de juro. As medidas de natureza fiscal e de política monetária adotadas recentemente pelo governo Dilma estão reduzindo a taxa de crescimento do PIB mais depressa do que se esperava. Que efeito se poderia tirar, então, das taxas de juro, ainda? Que controlem a inflação ou derrubem mais o crescimento? Que contenham o consumo e produzam desemprego?

Todos os bancos centrais têm obrigação de observar o nível da atividade e sabem que mudanças na política monetária têm efeitos com defasagens variáveis. Devem olhar, então, não apenas a taxa de inflação futura, mas também para o ritmo de crescimento futuro da economia. E não podem perder de vista a realidade das condições físicas objetivas, que levam ao altíssimo custo social da tentativa de correção de desajustes estruturais, reduzindo o crescimento do PIB à custa do aumento da taxa de juro real, com o que se destrói, por tabela, o equilíbrio fiscal.

Com a piora dos números externos, constatada na última semana de agosto, o Brasil precisa se concentrar em: 1. Reforçar o equilíbrio fiscal de longo prazo, buscando inclusive a aprovação no Congresso das medidas que podem ser votadas já. 2. Manter sob controle as despesas de custeio e melhorar a qualidade do financiamento da dívida pública. 3. Adotar medidas microeconômicas para corrigir os desequilíbrios do mercado de trabalho, o que obviamente não pode ser obtido com manobras de juros.

Isso possibilitará ao BC pros-seguir com persistência a necessária redução da nossa taxa de juro real, abrindo espaço para o investimento público e para a aceleração dos investimentos privados.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum