sexta-feira, 18 set 2020
Publicidade

Relato de um manifestante no Centro Cívico de Curitiba: “Foi um massacre”

Por Luciano Egidio Palagano*

O confronto começou no meio da tarde. Segundo algumas informações, servidores mais exaltados teriam tentado individualmente abrir a primeira barreira de contenção para a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).  O que poderia ser impedido sem violência se transformou no catalisador de uma verdadeira “batalha”. Se é que se pode chamar de “batalha” um confronto onde existe uma diferença gritante de força entre os lados envolvidos.

Estamos falando de uma “batalha” onde um dos lados, os servidores, portava bandeiras, pedras, paus, objetos como cadeiras de plástico e a voz. Do outro lado, os soldados da Polícia Militar tinham a disposição dois helicópteros, escopetas, escudos, máscaras de gás, capacetes, um estoque enorme de bombas de gás lacrimogêneo, de efeito moral e pimenta, carro de choque, esguicho do corpo de bombeiros. E resolução de cumprir as ordens: dispersar os servidores para que a sessão na Assembleia pudesse ocorrer.

Não tivemos uma “batalha” em Curitiba. O Centro Cívico se transformou em uma zona de guerra, mas não houve “batalha”. Foi um massacre. O canto de palavras de ordem de alguns servidores incentivava a resistência dos colegas, que tentavam se desviar das bombas de gás lacrimogêneo à medida que recuavam e, por mais que as pessoas recuassem, as bombas continuavam a cair.

Sim. O termo é este: cair! Por que as bombas não vinham só do chão, lançadas com granadeiros, caíam do alto dos prédios e apartamentos, até mesmo de helicópteros que sobrevoavam o Centro Cívico.

No momento em que eu tecia as palavras que dariam origem a este texto, fazia ao som de bombas e ouvia alguns repórteres dizerem que alguns servidores estavam lançando pedras na direção do pátio da Assembleia… Mas o que são algumas pedras face do bombardeio que estávamos vendo ocorrer naquele momento? Nada!

Até por que as pedras estavam sendo lançadas em revide, ou seja, como defesa e não como ataque. Vários servidores ficaram feridos e perdidos em meio ao gás das bombas. Até mesmo um cadeirante não conseguia sair do local. Os demais servidores tentavam resgatar pessoas com dificuldades, mas eram impedidos pelo choque. A cada passo dos servidores em direção aos feridos, mais bombas eram lançadas.

Enquanto todos esses fatos ocorriam, os deputados, isolados e protegidos dentro da Assembleia, votavam o ataque à Previdência dos servidores. O ataque continuava, o ataque de dentro e o ataque de fora. O ataque da lei e o ataque das bombas!

Sequer a presença de uma senadora no caminhão do sindicato dos professores impediu a continuidade da violência. O caminhão de Choque avançava conforme os soldados arremessavam bombas e atiravam na multidão.

Os dirigentes do sindicato gritavam exasperados com a violência das ações.
-Vai atacar a Prefeitura? O Governo do Estado vai atacar a prefeitura de Curitiba?, questionavam, uma vez que muitos feridos estavam alojados dentro da prefeitura recebendo atendimento.

O som das bombas vibrava nos tímpanos, a fumaça do gás lacrimogêneo levada pelo vento se espalhava por todo o Centro Cívico, sem fazer distinção entre manifestantes, PMs, repórteres, a população que passava e as crianças da creche ao lado. Assim, impregnava os olhos e invadia as narinas de todos, com exceção do choque que usava máscaras.

Enquanto isso, os deputados (os da oposição em uma situação similar ao cárcere privado) continuavam a sessão. Nos dois espaços, os ecos de um ataque reverberavam, dentro da Alep causado por vozes inflamadas e fora por bombas e tiros.

Saldo do Massacre dos Professores do Centro Cívico:
-Mais de 200 servidores atendidos com ferimentos (faço questão de colocar o termo atendidos, por que muitos nem sequer foram atendidos, e logo não entraram na contagem oficial),
-Um deputado da oposição ao governo do PSDB atacado por um cão policial (o deputado Rasca, do PV)
-Um cinegrafista atacado por um cão policial
-O governo insiste em 20 policiais feridos, mas esse que escreve viu apenas dois sendo atendidos no pátio da ALEP.
-Um projeto que ataca a Previdência dos Servidores aprovado com violência, truculência e atitudes dignas da ditadura.
-Uma nova data que marca mais uma etapa do histórico de violência com que o Estado do Paraná trata os trabalhadores, engendradas e executadas por governos da direita.
-O governador Beto Richa (PSDB) passa a oficializar mais uma de suas alcunhas: ditador.

O projeto, com toda a truculência utilizada, foi aprovado, mas os servidores não desistirão tão fácil, a greve continua e neste momento as direções das entidades que representam os servidores avaliam a situação. O que fazer? Quais serão os próximos passos? Essas são perguntas que estão sendo pensadas e cujas as respostas estão sendo construídas.

O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato) está convocando para o dia 5 de maio um Ato Público Estadual na praça 19 de dezembro, com caminhada até a Alep, com a realização da Assembleia Geral da categoria

O texto presente é apenas a descrição de mais uma etapa de um processo muito maior e longo. Aguardemos para ver o final dessa história, que graças ao governo do Estado do Paraná está se transformando em um conto de Terror e Drama.

* Bacharel em História, é servidor público do Paraná licenciado e membro do Comando de Greve Regional da APP-Sindicato/Núcleo de Toledo. Colaborador dos jornais Brasil de Fato e Pasquim do Oeste Online.