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por Rodrigo Vianna

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02 de junho de 2015, 10h10

Remoção do nome de Marin da fachada da CBF é a parte mais fácil. E daqui pra frente?

Por Gerardo Lissardy, da BBC Mundo

A pomposa sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, perdeu seu nome nos últimos dias.

Até quarta-feira passada batizada de “José Maria Marin”, homenageava seu ex-presidente e atual vice, naquele dia preso em Zurique, na Suíça, junto com outros altos dirigentes da Fifa, todos acusados de corrupção.

Depois do escândalo, as letras prateadas que adornavam a moderna fachada do edifício foram removidas no início da manhã de quinta-feira e Marin, de 83 anos, foi afastado de seu cargo na CBF.

Agora que ele e outros pesos-pesados do futebol na América Latina parecem ter caído em desgraça, uma mudança de postura parece obrigatória na cúpula do esporte mais popular na região.

Mas uma pergunta surge em meio à alegria de quem comemora a prisão de figuras que outrora pareciam intocáveis: quem vai mandar no lugar deles?

Corrupção
Além de Marin, foi preso em Zurique o presidente da Confederação de Futebol das Américas do Norte, Central e do Caribe (Concacaf) e vice-presidente da Fifa, Jeffrey Webb, das Ilhas Cayman.

Também foram presos o uruguaio Eugenio Figueredo, vice-presidente da Fifa e presidente interino da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol), e os chefes das federações de futebol da Venezuela, Rafael Esquivel, e da Costa Rica, Eduardo Li.

Eles enfrentam várias acusações de corrupção apresentadas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e aguardam extradição àquele país.

O escândalo vem à tona menos de um ano após a morte do homem mais poderoso do futebol argentino e, possivelmente, da América do Sul, o vice-presidente da Fifa Julio Grondona.
As prisões geraram para muitos a esperança de uma transformação sem precedentes na liderança do futebol latino-americano.

A presidente Dilma Rousseff disse que a investigação Fifa irá “beneficiar o Brasil” e contribuir para a profissionalização do futebol. Seu governo anunciou na quinta-feira que a Polícia Federal havia aberto sua própria investigação sobre corrupção no futebol.

E o ex-artilheiro da seleção e senador Romário pediu a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Congresso.

Já o atual presidente da CBF, Marco Polo del Nero, voltou rapidamente da Suíça para o Brasil e após as prisões negou a possibilidade de renunciar ao cargo. “Não existe nenhuma razão (para fazer isso)”, disse ele.

No restante da região, editoriais de jornais e comentaristas destacaram a oportunidade que surgiu para limpar as estruturas do futebol.

“Hoje, o futebol ganha. Basta de negociatas, basta de mentiras. Já estão velhinhos e já não têm mais direito de controlar todo o mundo. Isso (o escândalo de corrupção) vai mudar tudo”, disse o ex-jogador argentina Diego Maradona na última quarta-feira.

A esperança é que novos ventos soprem também no campo do marketing do futebol, já que também foram acusados executivos de três empresas líderes do setor na região: a brasileira Traffic e as argentinas Full Play Group e Torneos y Competencias.

“O mercado se recompõe facilmente porque já existe uma estrutura consolidada que não depende dessas empresas”, disse à BBC Mundo Pedro Trengrouse, professor de marketing esportivo da Fundação Getúlio Vargas.

No entanto, alguns especialistas alertam que pouco se pode esperar se não houver uma reforma radical da forma como o futebol latino-americano é governado.

“A saída dos homens mais poderosos do futebol das Américas de seus cargos não vem provocando necessariamente uma ruptura das estruturas institucionais”, opina Christopher Gaffney, professor da Universidade de Zurique especializado em futebol e crítico da Fifa.

Ele lembra que o próprio Marin substituiu Ricardo Teixeira como presidente da CBF, quando este deixou o cargo em meio a acusações de corrupção.

A nomeação de Marin ocorreu apesar das críticas a seu apoio à ditadura militar (1964-1985). Ex-governador de São Paulo nesse período, ele foi acusado de denunciar opositores do regime.

Na Conmebol, algo semelhante ocorreu. Em 2013, Figueredo substituiu o paraguaio Nicolás Leoz, que deixou o cargo após ser acusado de irregularidades. Leoz também enfrenta um mandado de prisão e extradição para os Estados Unidos.

Agora, a Conmebol é presidida por outro paraguaio, Juan Ángel Napout, que não foi acusado pelo Departamento de Justiça americano.

Mas o suposto esquema de propina na Copa América espirra na Conmebol e nos presidentes de várias federações nacionais de futebol sul-americano.

A própria secretária de Justiça dos Estados Unidos, Loretta Lynch, alertou na quarta-feira que as prisões eram apenas “o começo”, sugerindo que no futuro novas acusações podem ser feitas.

Após as prisões, a Conmebol emitiu uma declaração comprometendo-se a “trabalhar de forma aberta e forte com as investigações”.

Ainda há incerteza sobre quem vai mandar no futebol da região nos próximos anos, ou sobre até que ponto seu sistema de governabilidade será transformado, que, segundo Gaffney, precisa de abertura e forte presença da sociedade civil.

“O mundo do futebol foi marcado pela impunidade e irresponsabilidade por tanto tempo que serão necessárias uma crise generalizada e uma intervenção do governo para provocar uma mudança significativa”, diz ele.

Tudo indica que a remoção do nome de uma fachada é a parte mais fácil desse processo.


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