terça-feira, 29 set 2020
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Rio Grande do Sul opta entre século 19 e 21 na disputa entre Ana Amélia e Tarso

Por Miguel Enrique, de Veranópolis,
especial para o Escrevinhador

Dois episódios estiveram no centro dos debates no Rio Grande do Sul nas últimas semanas: as manifestações racistas de torcedores do Grêmio contra o goleiro santista Aranha e as objeções à realização de um casamento homoafetivo em um Centro de Tradições Gaúchas (CTG).

Sem vínculos diretos com partidos ou com candidatos, os dois casos são ilustrativos do verdadeiro debate que está colocado nas eleições para o governo gaúcho.

No caso do racismo, após os primeiros protestos e o expurgo literal da torcedora, do seu emprego e do clube, ganhou espaço nos meios de comunicação um discurso em que agressora passou a vítima. Com direito a choro na televisão, apelou para se tornar símbolo anti-racista e finalmente ganhou um emprego na Central Única das Favelas (CUFA).

Já os protestos contra o casamento homoafetivo deixaram a retórica e ganharam a forma de um coquetel molotov jogado contra o Centro de Tradições poucos dias antes da cerimônia, obrigando a sua transferência para o fórum local.

Logo, surgiu o discurso relativista do “não é bem assim”, “não é que a gente seja contra o casamento gay…” a ponto de um Promotor de Justiça publicar um artigo onde afirma textualmente que se os homossexuais querem respeitar seus direitos “que respeitem o espaço e as tradições dos demais”.

No ano passado, o filósofo Vladimir Safatle já havia alertado para a prática de inversão que racistas e preconceituosos operavam, ao alegar que eles, sim, eram “perseguidos pela implacável polícia do politicamente correto”. A “nova moda” é travestir racismo e preconceito de “afirmação rebelde da liberdade”.

Pois bem, o conservadorismo que não tem vergonha de dizer seu nome e que justifica suas ideias como a defesa da liberdade (do mercado, diga-se) encontra-se bem encarnado na candidatura que lidera as pesquisas no estado, a senadora Ana Amélia Lemos (PP).

Ex-editora da sucursal de Brasília do grupo RBS, braço da Globo no sul do país, a senadora é considerada porta-voz legítima dos interesses do agronegócio, não apenas gaúcho. Portanto, sua candidatura apoia-se em duas mais poderosas forças do estado, o maior grupo de comunicação da região e um dos setores economicamente mais ricos.

A plataforma de governo de Ana Amélia é simples: liberalização absoluta e retirada do Estado de todos os setores. Em bom português: Estado mínimo e privatizações. No entanto, sua candidatura não é alavancada por suas ideias, mas pela popularidade obtida pela presença diária na televisão e no rádio por décadas. Neste sentido, ainda que não seja seu colega de chapa, sua candidatura equivale ao candidato ao senado Lasier Martins (PDT), também apresentador do jornal diário do grupo RBS.

Dessa forma, os rompantes de sinceridade de sua chapa cabem ao deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP), candidato à reeleição, conhecido por um vídeo que circulou na internet no ano passado onde declarava que o gabinete do ministro Gilberto Carvalho reunia “quilombolas, índios, gays, lésbicas, tudo o que não presta” (veja aqui). No lançamento da candidatura de Ana Amélia, Heinze não resistiu e abriu o coração: “bom mesmo era na ditadura militar, quando nós da Arena é que mandávamos”.

Não custa lembrar que esses episódios têm como cenário o mesmo Estado que já foi referência internacional em políticas sociais e de participação popular, com Porto Alegre como um modelo internacional, sendo escolhida inclusive como sede da principal articulação anti-neoliberal, o Fórum Social Mundial.

É a essa outra vertente que pertence a candidatura à reeleição do governador Tarso Genro (PT), candidato à reeleição. O governo do petista foi uma combinação de uma aliança de coalizão com partidos de centro – experiência que conhecia bem como ministro do chamado “Conselhão” do governo Lula – com o desprezo generalizado pelo governo anterior de Yeda Crusius (PSDB), que aumentou a dívida do Estado na mesma proporção em que reduziu a ação estatal, desde o fechamento de escolas à denúncias de corrupção em serviços públicos.

Herdeiro de um cofre raspado, Tarso viu muitas de suas propostas inviabilizadas, inclusive algumas que eram muito significativas, como a garantia do piso salarial nacional aos professores, medida que o próprio criara como ministro da Educação.

Sem recursos, apelou para o que era possível, como a criação de novos canais de participação popular. O fato mais marcante de seu governo foi o fim dos pedágios nas estradas e a criação de uma empresa estatal para rodovias, aproveitando o fim das concessões realizadas nos anos neoliberais pelo governador Antônio Britto.

Intelectual rigoroso, Tarso já defendia a necessidade de ampliação das conquistas sociais nos governos do PT, muito antes das manifestações de junho do ano passado, às quais, aliás, recebeu de braços abertos e instituiu o Passe Livre estadual em regiões metropolitanas do Rio Grande do Sul.

Preocupado com a subordinação da política e do Estado ao capital financeiro, Tarso tem insistido na aliança da política partidária institucional com os movimentos sociais. Nesse contexto, construiu com a Via Campesina e sindicatos urbanos um ousado plano camponês de produção de alimentos saudáveis e distribuição nos centros urbanos. Finalmente, a busca pela reeleição tem como escudeiro a candidatura ao Senado de Olívio Dutra, ícone da honestidade política.

O candidato do PMDB José Ivo Sartori, que corre por fora, tem a seu favor ter sido prefeito da segunda maior cidade gaúcha, Caxias do Sul. O município é um importante polo metal-mecânico, de onde também se origina seu candidato ao Senado, Pedro Simon, que busca o quinto mandato consecutivo.

Sartori, porém, apostou na polarização errada na campanha e se apresenta como o “anti-PT”. O problema do peemedebista é como justificar isso quando o presidente nacional do seu partido, Michel Temer, é o candidato à vice-presidente de Dilma Rousseff…

Certamente, os rumos da eleição gaúcha não possuem peso suficiente para alterar significativamente o cenário político nacional. Porém, uma vitória do conservadorismo joga mais água no moinho de projetos de intolerância e de liberalização econômica. Um passo atrás em direção ao século 19.

Por outro lado, um governo que amplia a participação e dialoga permanentemente com os movimentos sociais oxigena a esquerda e pode ser, novamente, laboratório de novas práticas e políticas sociais. Um passo a frente no século 21, para a esquerda e para o país.