escrevinhador

por Rodrigo Vianna

Seja #sóciofórum. Clique aqui e saiba como
15 de julho de 2014, 09h45

Só com radicalização Padilha terá chances em SP

Para romper a longa hegemonia tucana, o PT teria que mostrar à classe média o que pode fazer por ela e, simultaneamente descobrir como contrapô-la não aos de baixo, mas sim aos muito ricos. O que exigiria (pasme!) radicalização programática.


Por Lincoln Secco, no Viomundo

A campanha  eleitoral no Estado de São Paulo esteve adormecida sob o espetáculo midiático da Copa e Alexandre Padilha ainda  está muito abaixo do padrão histórico de voto do seu partido. Mas se as eleições fossem hoje, o governador Alckmin seria reeleito no primeiro turno ou teria um segundo contra Skaf. O PT ficaria fora.

Não seria a primeira vez. As eleições no interior paulista têm sido um desafio histórico muito maior do que a capital para o PT. Nas grandes e médias cidades em que tem força eleitoral, o PT enfrentou historicamente a direita popular e não a direita “moderna” representada pelo PSDB.

A  direita popular, herdeira do ademarismo, janismo e malufismo, tem forte enraizamento nas periferias e centros conservadores espalhados pelas cidades. Quando logra polarizar com ela, o PT vence se mantém suas bases nas periferias e avança em parte do eleitorado da direita moderna. Quando enfrenta o PSDB, as dificuldades do PT são maiores porque os tucanos têm apelo junto ao eleitorado conservador tradicional e obtêm apoio da direita popular.

Nas eleições de 2014 as três forças estarão representadas. Lembremos que em São Paulo, como no Brasil, não haverá candidatura de esquerda radical eleitoralmente visível. E é evidente que para o movimento popular a eleição é um aspecto que não deve interferir em  sua organização e independência, embora seja necessário ter em conta quais governos permitem espaços democráticos para a luta de classes e quais os fecham.

Skaf não tem carisma, mas possui características que permitem seu crescimento: o discurso da competência empresarial destina-se à direita conservadora, aos pequenos comerciantes e a todos os que aspiram ao próprio negócio. Além desta pequena burguesia clássica, o discurso contra os impostos alcança a classe média tradicional.

Skaf não carrega consigo o peso do antilulismo. Ao contrário: ele é um dos candidatos da presidenta Dilma Rousseff em São Paulo e tem o apoio de Paulo Maluf, para sacramentar sua posição na direita popular. Por fim, ao contrário de candidatos “bolhas” do passado, como Rossi e Russomano, Skaf tem um partido solidamente instalado no interior paulista: o PMDB,  ainda que seja um partido sem a expressão eleitoral que o PT tem na Grande São Paulo.

Influência de Lula

Na capital, Lula teve o dom de eleger o prefeito Haddad. Mas as circunstâncias eram muito diferentes. Decerto, Lula vai elevar o patamar de apoio ao candidato petista, mas não será suficiente.

O candidato Padilha se livrou das acusações de corrupção em contratos do Ministério da Saúde. Elas foram desmentidas sem que a grande imprensa fizesse qualquer autocrítica, é óbvio. Como ministro ele implementou um programa (“Mais Médicos”) que atingiu a opinião pública e isolou o discurso racista de parte dos setores médios.

Padilha também possui uma rede de contatos com prefeitos e lideranças locais construída na época em que era Ministro de Lula. E diferentemente de Haddad é um militante petista antigo, proveniente do movimento estudantil de recorte nacional. Mas suas qualidades políticas, somadas ao apoio de Lula precisariam rearticular a base petista. Padilha teria que polarizar com Alckmin antes que Skaf o faça pelo caminho mais fácil: o do discurso da competência, que é sempre de direita.

Contra um adversário com força, logística e tradição, só uma tática de “guerrilha eleitoral” pode desagregar molecularmente as bases de apoio do PSDB. Caberia atacá-lo por todos os lados, sempre concentrando as críticas num problema por vez: a questão da água, da habitação, da corrupção no Metrô, dos pedágios, da contaminação da USP Leste, da insegurança e também da violência policial.

O governador Alckmin, por exemplo, patrocina um governo de repressão pavorosa aos movimentos sociais. Perguntado recentemente sobre a desmilitarização da polícia, Padilha limitou-se a responder que é da nossa “tradição” possuir duas polícias!  Ao contrário de Lula, ele ainda não aprendeu a dar uma no cravo e outra na ferradura. Depois de criticar os black blocs, Lula disse à revista Carta Capital que era contra a lei que proibia máscaras, pois afetaria o carnaval…

Identidade e Ampliação

A defesa do Estado de Direito democrático é um ponto forte da identidade petista. Sem ela, não há ponto de partida. Sem ponto de partida, o candidato não sairá do lugar. A escolha petista no Estado de São Paulo, até hoje, tem sido a diluição de sua identidade sem a ampliação à classe média. O resultado: o isolamento.

Para romper a longa hegemonia tucana, o PT teria que mostrar à classe média o que pode fazer por ela e, simultaneamente descobrir como contrapô-la não aos de baixo, mas sim aos muito ricos. O que exigiria (pasme!) radicalização programática. Só assim resolve-se a nossa  questão meridional, em que o petismo se reforça no Nordeste, mas perde definitivamente São Paulo e Minas, onde a “sociedade civil é mais complexa”. Trata-se dos Estados mais populosos, industrializados e com uma classe média muito numerosa.

Como disse o petista Eduardo Bellandi, só um partido que não queira governar “para todos” (ou seja, também para as grandes fortunas) pode melhorar “a educação, saúde, moradia e transporte de uso popular, aproximando a classe trabalhadora da classe média, para o bem dela ( muito embora ela assim não o reconheça). Isso permitiria a eliminação da dupla tributação ocasionada pelo pagamento de serviços privados”.

Continuar apenas com o “discurso social” demonizando a classe média pode servir para confortar a própria esquerda, mas não ganha eleições em São Paulo.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum