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por Rodrigo Vianna

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08 de abril de 2014, 10h42

“Trabalhadores rodam e voltam com salários mais baixos”

Para Maria das Graças Costa, secretária de relações de trabalho da CUT (Central Única dos Trabalhadores), uma das consequências da rotatividade em nosso mercado é o barateamento da mão de obra, especialmente nas empresas terceirizadas.

Por Mariana Desidério, do Brasil de Fato

A situação econômica do brasileiro melhorou na última década. De 2002 a 2012, o país gerou 20 milhões de novos empregos e o salário mínimo aumentou 70%. Com um cenário assim, era de se esperar que a rotatividade no mercado de trabalho diminuísse, mas não foi o que aconteceu.

Estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) divulgado no mês passado mostrou que a rotatividade aumentou entre 2002 e 2012 – foi de 54% (índice já alto) para 64%. A maior parte deste montante (na casa dos 40%) é de responsabilidade das empresas e corresponde a demissões sem justa causa ou encerramentos de contrato.

Para Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, os dados contrariam o discurso dos empresários de que o mercado de trabalho do país é muito rígido, com contratos e leis trabalhistas sólidos que protegem o funcionário. “Diferente do que os empresários dizem, o mercado de trabalho brasileiro é muito flexível. Os dados mostram que as empresas têm total liberdade para demitir o trabalhador na hora que quiserem”, afirma.

Os trabalhadores mais afetados por essa flexibilidade, segundo Lúcio, são justamente os mais vulneráveis: aqueles com baixa qualificação profissional, jovens e, dentre esses, as mulheres, principalmente as negras. “É uma situação perversa em que a baixa qualificação estimula um tipo de relação de trabalho mais precarizado”, afirma. De acordo com o estudo do Dieese, os setores da economia com maior rotatividade são construção civil, agricultura, comércio e serviços.

Baixos salários

Para Maria das Graças Costa, secretária de relações de trabalho da CUT (Central Única dos Trabalhadores), uma das consequências da rotatividade em nosso mercado é o barateamento da mão de obra, especialmente nas empresas terceirizadas. “Os trabalhadores rodam e voltam para o mercado com salários mais baixos”, afirma.

Ela dá um exemplo: “No caso de um serviço terceirizado de limpeza, quando o contrato entre as empresas acaba, os trabalhadores da terceirizada são demitidos. Logo depois, outra empresa assumirá aquele serviço. Muitas vezes, o empresário responsável é o mesmo, apenas com uma empresa diferente. E ele contrata os mesmos funcionários, só que agora com condições de trabalho piores”.

Para combater essa situação, uma solução importante para o problema é que o Brasil adote a convenção 158 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), afirma Maria das Graças. “Pela convenção, as empresas teriam que justificar as demissões, diferente do que ocorre hoje.” Outra medida seria garantir prioridade a empresas com baixa rotatividade na prestação de serviços ao poder público.

Pedidos de dispensa revelam empregos ruins

Os dados do Dieese sobre rotatividade no mercado de trabalho também mostraram um aumento nos pedidos de demissão em uma década. Em 2002, o fator era responsável por 16% da rotatividade; em 2012, respondia por 25%.

Para Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese, os números evidenciam que nosso mercado tem empregos ruins. “O dado revela condições de trabalho e de salário que não são boas e que fazem com que o trabalhador busque outras oportunidades”, afirma.

O operador de telemarketing Roberto Pires, 37, conhece bem essa realidade. Há dez anos na área, ele conta que já passou por oito empresas. Na maioria das vezes, saiu por iniciativa própria, porém, recentemente foi demitido. “Aqui em São Paulo, é comum ver colegas que ficam duas semanas, um mês no trabalho e logo saem”, diz.

Segundo Pires, as grandes dificuldades na sua área – que apresenta grande rotatividade – são falta de regulamentação da profissão, falta de treinamento para os funcionários, metas abusivas e o assédio moral dentro das empresas.

“É uma área em que as pessoas entram muito jovens, se deparam com essas barreiras e muitas vezes vão buscar outros empregos”, aponta. A regulamentação da profissão é uma das principais reivindicações do Sintratel (Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing).

Se a baixa qualidade das vagas é um problema, a alta nos pedidos de demissão revela um ponto positivo, ressalta Ganz Lúcio. “Mostra que o mercado está oferecendo um ambiente favorável para o trabalhador sair desses empregos e buscar algo melhor”, diz.


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