escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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13 de junho de 2014, 10h39

Valter Pomar denuncia “sequestro intelectual” de Safatle

Ao dizer que "pela primeira vez uma Copa do Mundo não trará dividendos políticos", Safatle encobre os motivos pelos quais a grande imprensa promove uma campanha cotidiana de denúncia acerca da Copa.

Por Valter Pomar, em seu blog

Já enviei dois textos acerca da Copa (um do Wladimir, outro meu e do Lício Lobo), onde está contida minha opinião sobre o conjunto da obra.

Quanto ao texto do Safatle [leia abaixo], reitero o que disse antes: ele foi “sequestrado” e seu texto “é tão inacreditável, que não deve ser dele”.

Explico.

O texto é construído a partir de um artifício literário: o “não teve Copa”.

A afirmação de que “não teve Copa” só faz sentido se for uma referência não a Copa propriamente dista, mas sim uma referência aquela Copa que alguém (o governo, o PT, quem quer que seja) queria que ocorresse.

Ou seja: o confronto entre uma intenção (cujos termos Safatle resume de forma caricata) e uma hipótese (a de que, ocorra o que ocorrer nos jogos, o resultado já pode ser contabilizado).

Óbvio que esta maneira de tratar do tema resulta no encobrimento de uma parcela importante da realidade, a começar pelo que ainda vai acontecer.

O que torna isto particularmente “inacreditável”, vindo de alguém que se considera de esquerda, é que graças a este “truque literário” Safatle encobre determinados interesses políticos.

Exemplo: ao dizer que “pela primeira vez uma Copa do Mundo não trará dividendos políticos” Safatle encobre os motivos pelos quais a grande imprensa promove uma campanha cotidiana de denúncia acerca da Copa.

Os motivos da grande imprensa, a saber: fazer com que uma derrota do Brasil e/ou um mal funcionamento das coisas durante a Copa afete negativamente a candidatura Dilma.

Acho inacreditável que alguém que se afirma de esquerda cometa este tipo de encobrimento da realidade. Aliás, quem se pretende “oposição de esquerda” deveria tomar o cuidado de se diferenciar da oposição de direita.

Por isto é que considero que Safatle foi “sequestrado”.

No seu lugar está alguém que o mesmo tipo de parâmetro dos articulistas da direita. Estes, incapazes de defender o passado neoliberal e impossibilitados de falar honestamente do futuro que almejam, dedicam-se com um afinco quase esquerdista ao trabalho de criticar “tudo isto que está aí”, atribuindo ao governo e à “esquerda governista” as responsabilidades por tudo e mais um pouco..

Observem, por exemplo, o seguinte raciocínio feito por Safatle: ” (…) apareceu uma outra imagem do país: essa da nação que se estagnou em um ponto no qual o desenvolvimento não consegue se transformar mais em qualidade efetiva de vida. Ponto no qual operários são mortos em construção (…)”.

Vejam que incrível: antes, sabe-se lá quando, tivemos um desenvolvimento que conseguia se transformar em qualidade de vida. Agora não temos mais. Agora estagnamos em um “ponto” no qual “operários são mortos em construção”.

Não tenho a menor dúvida de quem recolherá os “dividendos políticos” deste modo de expor as coisas. E não será a esquerda. Nem a ultra-esquerda.

Abraços

Valter Pomar

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Não teve Copa

Por Vladimir Safatle, na Folha
A ideia parecia perfeita. Depois de 12 anos de continuidade com programas importantes de transferência de renda, que levaram 32 milhões de brasileiros à classe média, o Brasil estaria em condições de mostrar ao mundo sua nova imagem. Seria a consagração do país diante do cenário internacional.

Mostraríamos um Brasil alegre, orgulhoso de si mesmo, onde empreiteiras e trabalhadores cantam de mãos dadas o hino nacional e se veem como sócios em um novo e radiante momento de desenvolvimento. Publicitários estariam a postos para mobilizar afetos de superação entre um gole e outro de Coca-Cola. Só sorriso no ar.

Essa era a verdadeira função da Copa do Mundo: completar a narrativa política da transformação nacional apelando ao acolhimento do olhar estrangeiro.

Bem, o problema é que não teve Copa. Houve jogos, um campeão, estádios em Brasília, Cuiabá e Manaus, mas não houve Copa. Não apenas porque apareceu uma outra imagem do país: essa da nação que se estagnou em um ponto no qual o desenvolvimento não consegue se transformar mais em qualidade efetiva de vida.

Ponto no qual operários são mortos em construção como algo que, nas palavras de Pelé, “é normal, pode acontecer”, quase como uma lei da natureza. Na verdade, não houve Copa do Mundo porque o povo brasileiro saiu do lugar.

Ele tinha um lugar previamente definido. Sua função era celebrar e aclamar. Com casas pintadas de verde e amarelo e, como se diz, com “alegria contagiante”, o povo brasileiro deveria abraçar seu novo lugar no mundo. Mas algo saiu definitivamente do lugar.

O enorme aparato policial-militar montado para impedir que o povo saia da coreografia da felicidade imposta e a brutalidade governamental contra grevistas, como vemos mais uma vez em São Paulo, tudo está aí para não deixar negar. Não, o povo brasileiro não está feliz, pois se sente como alguém que teve sua paixão usada por outros.

Sinal dos tempos. No chamado “país do futebol” pela primeira vez uma Copa do Mundo não trará dividendos políticos, mas mostrará uma população consciente da tentativa de espoliar seus sonhos. População cuja revolta pode explodir a qualquer momento, da forma mais inesperada possível, mesmo que seja governada por pessoas que nada mais tem a oferecer a não ser a polícia.
Algo mudou de maneira profunda, mas os publicitários, estrategistas e políticos não perceberam. Não há grande evento que consiga esconder o desencanto de um povo.

Por isso, nada mais honesto do que dizer: não teve Copa. E quem mais ganhou com isso foi o Brasil.

 


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