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por Rodrigo Vianna

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16 de dezembro de 2014, 13h43

Wladimir Pomar: PT precisa transformar defensivismo em ativismo de mobilização

O Congresso eleito em 2014 só se mostrará receptivo às grandes reformas, através de plebiscito e constituinte exclusiva, com um amplo processo de mobilização de milhões de brasileiros.

Por Wladimir Pomar*, no Página 13

O significado da vitória de Dilma em 2014 é muito mais problemático do que a vitória de Lula, em 2002. Por um lado, a correlação política de forças é mais desfavorável do que a dos períodos anteriores. A direita burguesa conseguiu fazer com que alguns milhões de beneficiados pelas políticas governamentais de transferência de renda acreditassem em sua campanha antipetista. E seus candidatos até hoje não desceram do palanque, com seus setores mais reacionários tentando mobilizar os brasileiros a apoiar um terceiro turno sem urnas, e transformar a Operação Lava Jato em processo exclusivo contra o PT e o governo Dilma. Em vários setores da população se enraíza a suposição de que, com a democracia, aumentaram a violência urbana e os casos de corrupção, supostamente inexistentes durante a ditadura militar.

Como coadjuvante dessa situação, o PT ainda não conseguiu sair de seu defensivismo, evidente em sua paralisia até mesmo quando a situação se apresentou favorável, como no sucesso da Copa do Mundo. Até hoje o PT não foi capaz de reconhecer publicamente seus erros, nem adotar medidas de impacto que revertam o quadro de descrédito em que se encontra.

Por exemplo, o que impede esse partido de tornar pública uma decisão de que não mais aceitará contribuição de empresas em suas campanhas eleitorais? Ou que, além dos presidentes, governadores e prefeitos eleitos, seus deputados e senadores não mais poderão concorrer a mais de dois mandatos? Ou que está afastando os dirigentes e militantes envolvidos em processos judiciais referentes à corrupção, de modo a não atrapalhar as investigações e demonstrar sua decisão de expulsá-los, caso as acusações de confirmem?

O mesmo se pode dizer da área de comunicação do governo, que é incapaz de desmentir até mesmo as mais absurdas acusações propaladas pelo oligopólio midiático e de demonstrar como esse oligopólio distorce fatos e evidências. Como a presidenta pode ser acusada de chefe de quadrilha num programa de TV e não adota qualquer medida judicial, ou utiliza seu poder constitucional para fazer um pronunciamento público de repúdio?

Ao invés de entender a liberdade de expressão como ações de busca da verdade, com pelo menos dois lados, a comunicação governamental tem medo de ser acusada de atentar contra tal liberdade ao se contrapor às inverdades e invencionices. Bem vista essa situação, compreende-se porque a primeira disposição de Dilma foi sugerir o diálogo, sugestão de cara repelida pelos principais representantes da direita reacionária.

Por outro lado, apesar de todos os confusos sinais do cenário atual, as condições para a mobilização social são muito mais favoráveis do que nos últimos 12 anos. A ralé, a classe trabalhadora assalariada, e setores da pequena-burguesia urbana, embora ainda não de forma consistente, colocaram em pauta a prioridade de solução da mobilidade urbana, saúde, educação, segurança, e alimentação sem repiques inflacionários. As ruas colocaram em evidência a intensa luta de classes urbana, e os problemas urgentes que precisam ser solucionados para que um desenvolvimento econômico e social de novo tipo seja efetivado. Efetivação que somente a esquerda pode proporcionar.

No entanto, as aspirações populares tanto podem empurrar a direita para seu gueto, quanto desbancarem a esquerda, possibilidades que se evidenciaram na campanha eleitoral de 2014. O PT pode não ser capaz de criar, juntamente com as demais correntes de esquerda, uma pauta comum de luta para conquistar as ruas e levar o governo Dilma a adotar uma estratégia de desenvolvimento que tenha como eixo os investimentos produtivos, em especial na agricultura familiar de alimentos e na indústria de não-duráveis.

Isto, para combater a inflação através do aumento da oferta, perseverar no crescimento dos empregos e dos salários, e gerar recursos para resolver as graves lacunas da saúde, saneamento, educação, transportes públicos, arborização, e outras áreas críticas. Nessas condições, a direita pode atrair, com suas promessas mentirosas, novos setores médios e populares e colocar o governo contra a parede.

Na prática, somente com o crescimento econômico em novas bases será possível mobilizar a maior parte da população e isolar a direita. Essa é a condição para avançar no rumo de reformas democratizantes e estruturais. Reformas que, pelo menos, eliminem o financiamento privado das campanhas eleitorais, aprovem a democratização da propriedade dos meios de comunicação, e institucionalizem as formas de participação social no controle e nas decisões dos órgãos políticos do país. Reformas políticas que são o primeiro passo para outras, como a agrária, a urbana, a tributária e as que fazem parte da pauta dos movimentos sociais desde muitos anos.

O Congresso eleito em 2014 só se mostrará receptivo a tais reformas, através de plesbicito e constituinte exclusiva, se elas forem bandeiras de um amplo processo de mobilização e organização de milhões de brasileiros. Não só daqueles que propiciaram a vitória eleitoral de Dilma, mas também dos setores populares e médios que acreditaram que a direita seria capaz de atender a suas demandas de mais crescimento, mais empregos, melhores condições de vida, mais direitos democráticos, e mais soberania nacional.

Esses cenários dependem, portanto, em grande medida, do PT transformar seu defensivismo num ativismo de mobilização pelo atendimento das demandas populares e democráticas, por crescimento e emprego, por mais distribuição de renda, por menos violência, menos poluição e menos discriminação. E dependem ainda, em grande medida, do governo Dilma. Isto é, desse governo elevar rapidamente a taxa de investimento, reduzir a taxa de juros, utilizar a taxa de câmbio como instrumento de competição industrial, aumentar a produção de alimentos pela agricultura familiar, qualificar as forças humanas sem condições de acesso ao mercado de trabalho, e elevar a concorrência nos setores monopolizados ou oligopolizados.

Em outras palavras, tanto o PT quanto o novo governo Dilma precisarão se tornar um partido e um governo não só de diálogo, mas também de combate. Diálogo com os movimentos sociais e com as camadas populares. Diálogo com os aliados estratégicos e táticos. Diálogo com o inimigo, para deixar claro para o conjunto da população quem quer a paz e quem quer a guerra. Mas, combate na defesa de seus feitos. Combate na comunicação, incluindo a presença constante da presidenta Dilma, do presidente do PT e do Lula na mídia escrita, falada e televisiva. Combate pela participação popular nos assuntos políticos. Combate no apoio às manifestações populares. Espírito permanente de combate, para que a militância volte a se sentir necessária e atuante.

Bem vistas as coisas, 2015 será um ano decisivo não só para o futuro da esquerda, do PT e do governo Dilma, mas também para o futuro do próprio país. Não é preciso grande clarividência para perceber o que estará em jogo esse novo ano e quais serão os seus desdobramentos nos anos posteriores.

* Wladimir Pomar é escritor e analista político


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