escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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19 de junho de 2019, 22h06

Moro encolhe, mas resiste no Senado

Rodrigo Vianna: "Em vez de um juiz acima do bem e do mal, ele virou um político que pode ser criticado e precisa ser defendido; Moro se agarra ao eleitorado bolsonarista mais radical e aposta nas manifestações do dia 30 de junho"

Foto: Eduardo Matysiak

Moro não se saiu mal no depoimento no Senado. Afinal, ele havia escolhido aquele campo pra jogar. Compareceu “voluntariamente” à Comissão de Constituição e Justiça do Senado porque sabia que, ali, o clima seria menos carregado do que na Câmara.

Contou com maioria a seu favor. Críticos a ele, mesmo, havia PT/PDT/Rede e franjas do MDB/PSD.

O ex-juiz concentrou o discurso em ataques ao site The Intercept, disse algumas bobagens memoráveis como “o site devia ter mandado o material para as autoridades, antes de divulgar, pra saber se tudo aquilo é verdadeiro”. Ora, em parte nenhuma do mundo, jornalistas sérios fazem isso! Moro também insistiu na narrativa de que críticas aos abusos cometidos por ele na Lava Jato significam apoio à corrupção e ataque frontal à operação. Entre operadores de Direito e acadêmicos sérios, ao esgrimir tais argumentos, ele fica ainda mais desmoralizado.

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Cheguei a dizer, num grupo de amigos, que numa escala de 0 a 10, Moro ficou com algo em torno de 6. Para quem apanhou sem parar durante dez dias, até que não foi ruim.

Ele enfrentou alguma tensão, é verdade, diante do senador Fabiano Contarato (Rede-ES), delegado de formação, que afirmou a Moro: “Se eu converso ou instruo a parte, numa investigação, saio preso da delegacia”. Moro, do alto de sua arrogância, perdeu as estribeiras.

Perdeu-as também quando Humberto Costa (PT-PE) disse que ele deveria renunciar e pedir desculpas ao povo brasileiro. O ministro baixou a cabeça e – furioso, mas contido – recusou-se a comentar.

As inquirições mais hábeis vieram mais ao fim da sessão. Renan Calheiros (MDB-AL) e Jacques Wagner (PT-BA) arrancaram frases perigosas do ministro. Perigosas, para ele.

Wagner, em especial, foi cirúrgico, e agiu como se fosse bom repórter, tirando da “fonte a manchete” do dia: Moro admitiu ao senador baiano que, descoberta alguma irregularidade nas mensagens vazadas (e as há, aos montes), entrega o cargo.

Bingo! É isso que foi para a primeira página dos portais…

Mas se Moro não se saiu pessimamente, uma coisa ele perdeu: a pose. Definitivamente, o ex-juiz não é mais o super-herói intocável.

Em vez de um juiz acima do bem e do mal, virou um político que pode ser criticado e precisa ser defendido. Sem dizer que a expressão facial e corporal mostrava cansaço, impaciência e desalento diante do bombardeio que – ele sabe – vai aumentar.

Moro não saiu fraco do Senado. Mas saiu menor. Encolheu. E agora aposta nas manifestações do dia 30, que podem ser relativamente grandes, sim. Globo, MBL e Vem pra Rua – que se afastaram de Bolsonaro, estarão na convocação dos atos em defesa do ministro.

Da mesma forma que o dia 26 de maio significou, para Bolsonaro, que a extrema direita ficou menor e mais aguerrida, Moro mostrou hoje que tem um caminho para resistir: às favas com a imagem de juiz ou jurista, o que importa é jogar pra galera da direita extrema.

Para essa turma, pouco importa se ele cometeu pecados mortais do ponto de vista do Direito. O objetivo era barrar Lula, não era? Isso ele entregou em 2018.

Moro sai do Senado agarrado aos 25% ou 30% do eleitorado que topa qualquer barbaridade, desde que Lula siga preso e o PT esteja fora do poder. Demonstração disso: o juiz das camisas negras acaba de cancelar a participação no Congresso da Abraji (Associação de Jornalismo Investigativo – que tem uma posição liberal, e próxima de uma linha “isentona” com a qual Moro procurava dialogar). A participação ocorreria dia 28 de junho. Entre a Marcha com Jesus e a Abraji, ele cai nos braços dos pentecostais. Como já caiu também nas graças de Ratinho no SBT.

O ex-juiz é o dique de contenção contra o lulismo. Derrubar esse dique exigirá mais do que novas mensagens de Telegram vazadas. Moro vai resistir, e o combate será longo.

A manchete que Wagner arrancou de Moro pode levar semanas ou meses para se cumprir.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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